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“Tentei não afadistar as músicas”

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rita carmo

De 10 a 12 de dezembro, a fadista de Barcelos leva ao palco do teatro São Luiz, em Lisboa, o espetáculo Caixinha de Música. Nestas três noites, Gisela João quer mostrar que há muitos sons em si, além do fado; com os músicos que habitualmente a acompanham, mas também com uma banda e algumas surpresas, uma das revelações mais incandescentes da música portuguesa dos últimos anos vai dar voz a 15 temas de outros artistas, escolhidos para si por uma ‘equipa’ de amigos. E que voz

LIA PEREIRA (texto), RITA CARMO (fotos), JOANA BELEZA (vídeo)

Quando chegamos aos estúdios da Valentim de Carvalho, num final de tarde frio e ventoso, Gisela João circula de camisolão de malha e chávena de chá, bem fumegante, aquecendo as mãos. Confessando-se ansiosa com a tarefa que tem pela frente – levar 15 canções de artistas pop e rock, jazz e soul, portugueses e de outras nações, ao palco do São Luiz –, a cantora não esconde, também, o entusiasmo. Ainda que o alinhamento completo do espetáculo deva permanecer no segredo dos deuses até à estreia de Caixinha de Música, sabemos já que, de 10 a 12 de dezembro, Gisela cantará vultos de todos os quadrantes e gerações como Nick Cave, Amy Winehouse ou Serge Gainsbourg. Para o Expresso, ensaiou ‘Every Time We Say Goodbye’, um standard jazz escrito por Cole Porter e cantado por divas como Shirley Bassey, Ella Fitzgerald ou Nina Simone, entre tantas outras (e outros). Mostrar que, mais do que ‘apenas’ fadista, é uma humana que ama cantar é a grande missão desta aventura. Até porque, conforme nos explicou, há mais fado do que parece em canções que ouvimos sem xaile pelas costas.

Gisela gosta “tanto, mas tanto, mas tanto” de cantar que o rótulo de fadista nem sempre lhe parece exato. “Eu gosto de cantar muita coisa e, como digo muitas vezes, há muitas músicas que, para mim, também são fados.” É o caso dos temas selecionados para si por uma ‘equipa’ de convidados a quem reconhece “bom gosto musical e paixão pela música.” Um dos seus heróis, Camané, foi um dos ‘conselheiros’ a quem Gisela recorreu, a par do realizador João Botelho, do ilustrador André Carrilho, do ator André Teodósio ou de Luís Montez, diretor da promotora de espetáculos Música no Coração.

“Queria um desafio diferente”, explica. “Costumo cantar as músicas do meu disco, acrescentando um outro fado diferente. Mas também gosto de cantar outras músicas, de muitos géneros diferentes, e aproveitei o facto de serem três dias [de concertos] para poder trabalhar de forma mais consistente. Mas seria um pouco egoísta ser eu a escolher as músicas: era demasiado fácil”, justifica.

rita carmo

Das canções que lhe foram sugerindo que cantasse, algumas ficaram de fora por questões de alinhamento, outras por falta de ligação emocional (“É importante sentir o que estou a cantar”.) As que resistiram à triagem têm passaporte inglês, francês, espanhol e italiano, além de português e brasileiro, o que aumenta a vertigem. “Tem sido um trabalho esquizofrénico”, confessa. “Primeiro, porque sou controladora. Gosto de tomar conta de tudo: as roupas, o cenário, os músicos – tivemos de formar uma banda – e tenho de decorar as letras, em línguas que não são a minha.”

Além de tomar o pulso às canções, Gisela teve outra preocupação: “Não quis afadistar as músicas. Tem a ver com o meu gosto pessoal, mas não queria mesmo dar aquele jeitinho às canções. Quero cantá-las como são, mas à minha maneira.” A noção da responsabilidade não lhe mingua o empenho: “O medo é o nosso grande inimigo, em todas as profissões, e assusta saber que vou cantar 15 músicas muito diferentes, em várias línguas. É um aperto muito grande no coração. O foco é, às vezes, fácil de se perder. Mas tem corrido bem, porque gosto muito delas”, afiança, com um sorriso luminoso.

Além de nomes sobejamente conhecidos, Gisela cantará, nestes três serões, artistas menos ilustres em Portugal, como o italiano Nicola Arigliano (1923 – 2010). “Quem me mandou essa canção foi um dos meus dealers de música, o Carlos Guerreiro”, conta, entusiasmada. “Todos os dias trocamos música, até pelo Spotify. E há um ano ou dois ele deu-me a conhecer uma música do Nicola Arigliano e eu fiquei encantada. É quase um bolero, mas eu prefiro chamar-lhe uma canção de amor romântica, cheia de gosma, mesmo melosa!”, ri. “Eu apaixonei-me pelo timbre da voz desse senhor”, acrescenta, lembrando o dia em que, numa pizzaria em Nápoles, interpretou esse mesmo tema, para delírio dos comensais.

Do mundo de Gisela João fazem parte outros mimos, além da música que, vai repetindo, lhe enche o coração. Esses universos estarão, também, representados no São Luiz, com workshops de bordados a cargo de Joana Caetano (“Vão ser inspirados nos lenços dos namorados, com frases bordadas de poemas que eu canto!”) e de fotografia, com Estelle Valente. Mulheres com mais de 20 anos podem inscrever-se e levar para casa cinco retratos para colorir dias menos risonhos. “Desde que saiu o meu disco [em 2013], percebi que a fotografia me pode ajudar”, reflete a cantora. “A sociedade pede muito de nós, mulheres: temos de estar sempre com a pele brilhante, que parece que levou cera, magras como uma escova de dentes, sempre bem-dispostas, com um sorriso na cara. E nenhuma de nós é assim a 100 por cento. É impossível! Nós tomamos conta da casa, tratamos mais dos filhos…”. A pensar nos comentários maldosos de que as mulheres são alvo frequente (“Nas fotografias é tão gira, vi-a outro dia no Chiado e não estás bem a ver, um brolho!”, exemplifica), lembrou-se de lhes proporcionar uma dose de autoestima, em formato fotográfico. “Naqueles dias em que acordamos mais em baixo, se tivermos uma fotografia em que nos achamos bonitas, essa fotografia ajuda”, defende. “Acredito que todas as mulheres são bonitas e gosto de provar que não é preciso muita maquilhagem. Quis fazer esse miminho: vou lá, ponho um pozinho e um rímel, faço uma produçãozinha e a pessoa fica com cinco fotografias para aqueles dias mais negros.”

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Duas noites de Dancetaria e outra de Guitarradas, com os músicos que a acompanham – “os meus muchachos”, como chama a Ricardo Parreira, Nélson Aleixo e Francisco Gaspar – completam a programação dos próximos dias no São Luiz. “O fado ficou na moda”, comenta, “mas às vezes chegam ao pé de mim e dizem-me: gosto tanto de fado, dando exemplos que não são fado… Ou então só me ouvem a mim e aos meus colegas. Acho isso um pouco injusto: todos nós, os mais novos, fazemos variações [dos clássicos]. É importante conhecer o início, quem é que cantou e criou as melodias. E quero lembrar que as guitarradas, os instrumentais, sempre fizeram parte das noites de fado.” E, claro, trazer os amigos – “os meus companheiros de guerra!”, gargalha – sempre por perto.

PROGRAMA

Caixinha de Música
Sala Principal do Teatro Municipal São Luiz
De 10 a 12 de dezembro
Sempre às 21h
Bilhetes: de 8 euros a 15 euros (com descontos: de 5 euros a 10,50 euros)

Programa Comissariado por Gisela João no Jardim de Inverno
De 7 a 12 de dezembro
Sessão de fotografia
com Estelle Valente
Para mulheres com mais de 20 anos
Inscrições: A caixinha de música de Gisela João

De 10 a 12 de dezembro
Das 15h às 19h
Workshop de Bordados
com Joana Caetano
Para maiores de 12 anos
Inscrições: A caixinha de música de Gisela João
10 e 11 de dezembro
Às 23h

Guitarradas
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Nélson Aleixo – viola de fado
Francisco Gaspar – baixo acústico
Bilhetes: 10 euros (com descontos: de 5 euros a 7 euros)

12 de dezembro
Às 23h
Dancetaria
DJs: Gisela João, Sheila & Tomás
Bilhetes: 5 euros