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Scott Weiland, o ícone rock que queria ser recordado como homem de família

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Scott Weiland numa fotografia de janeiro deste ano.

Larry Busacca/Getty

O seu nome é referência obrigatória para quem viveu em plenos anos do rock na década de 1990. Artista genial, tão conhecido pelo abuso recorrente da heroína, como pelos temas que projetaram os Stone Temple Pilotos e os Velvet Revolver, era bipolar assumido e alguém que dizia ser mais que a sua música. Ao que parece, morreu tranquilo, enquanto dormia

Se a vontade de Scott Weiland fosse cumprida, as muitas notícias que na sexta-feira deram conta da sua morte e a lamentam, lembrando o ícone rock que foi (e que será), teriam ‘leads’ diferentes. Diriam, ao invés de chamar para o início a sua carreira nos Stone Temple Pilots, que partiu um marido e um pai de dois filhos, ele próprio um filho e um irmão, diriam, enfim, que partiu um homem que amou “muito poucas mulheres”.

“As pessoas têm uma ideia errada a meu respeito”, disse numa entrevista à “USA Today”, há cinco anos, para acrescentar a surpreendente confissão: “Não é a música que me define”.

Para os muitos outros orfãos que resultam da morte de Weiland, toda uma geração que, sobretudo na década de 1990, cresceu com os seus temas, e que após a confirmação da sua morte se apressou a partilhar tweets homenageando “um artista único”, que transmitia uma “força épica em palco”, será difícil concordar.

Porque a genialidade das composições, o percurso marcado pelos altos e baixos associados ao consumo de heroína, as sucessivas reabilitações, e até a passagem pela prisão, esse foi o universo que se lhe colou como um bilhete de identidade. A saber, o da estrela rock, expoente máximo da era “grunge”, o artista complexo de personalidade estranha, a que a música dava sentido, sendo o que melhor o traduzia.

A ser verdadeira a versão oficial - terá morrido enquanto dormia no autocarro da banda, durante uma ‘tour’ - a morte foi o que de mais sereno lhe aconteceu na vida. Tinha 48 anos, mas a verdade é que os sobressaltos que lhe cabem no epitáfio dariam para repartir, preenchendo várias biografias.

Porque os Stone Temple Pilots, os Velvet Revolver e a sua mais recente banda, os Wildabouts, vieram depois, comecemos então pelo princípio. Scott Richard Kline nasceu em San Jose, no estado norte-americano da Califórnia, a 27 de outubro de 1967. Os pais divorciaram-se quando tinha apenas dois anos, o que esteve na origem da sua mudança, com a mãe, para Ohio.

Na sequência do segundo casamento da progenitora, com David Weiland, acabaria por ser formalmente adotado pelo padrasto, o que levou à mudança do apelido, aos cinco anos.

No livro de memórias que publicou em 2011, “Not Dead & Not for Sale”, descreve a sua infância como um período pacífico, pleno de “abelhas e pastos verdes”, muitas vezes a jogar basebol ou futebol, à espera - “sempre à espera” - do verão, para visitar o pai biológico.

O desconforto começou mais tarde, já na adolescência, depois de regressar à Califórnia. As suas memórias referem um episódio de uma violação, por um rapaz mais velho, e a dificuldade sentida em adaptar-se à sua nova escola. As primeiras experiências com drogas e álcool começaram aí.

A música também. Com Robert DeLeo formou em 1985 a primeira banda, Mighty Joe Young, génese dos Stone Temple Pilots, que ficaria completa com Dean, irmão de Robert, e Eric Kretz. Esperava-os um sucesso estrandoso e a fama, mas também um percurso tumultuoso, que não terminou da melhor forma.

“Core”, o álbum de estreia, vendeu milhões e chegou a número três na tabela de vendas dos EUA. Qualquer dos seis discos gravados figurou, aliás, no ‘top ten’ tão desejado, ao que se somou um Grammy para a melhor atuação rock, em 1994, pelo tema "Plush".

Versátil, como cantor fica conhecido por mudar constantemente o seu estilo vocal, naturalmente ou usando megafones, enquanto a própria escrita e produção se estendia do hard-rock ao reggae.

Quando, em 2002, os Stone Temple Pilots deixaram o ativo, já o abuso da heroína (e durante um determinado período, a cocaína e o crack também) era tão conhecido como os seus maiores êxitos. Não demorou a juntar-se aos antigos elementos dos Guns N´ Roses, Slash, Duff McKagan e Matt Sorum, para formar os Velvet Revolver, banda que fez história entre 2003 e 2008, mas da qual acabou expulso, devido “ao cada vez mais grave comportamento errático em palco e aos problemas pessoais”.

De regresso aos Stone Temple Pilots, já depois de ter cumprido uma curta pena na prisão por conduzir embriagado, acumulou detenções, overdoses, desintoxicações - 13 em três anos - e recaídas.

“Os opiáceos levaram-me onde sempre sonhei ir”, chegou a confessar à revista “Spin”, em 2011. “Não sei nomear o lugar, mas posso dizer que estava imperturbável e sem medo, um homem a flutuar no espaço, sem dúvidas nem demónios”.

“Vivo a minha vida da maneira que vivo a minha vida”, disse noutra ocasião, seguro, no entanto, de que não queria que os problemas de adição ficassem como o seu legado.

Em 2013, voltou a separar-se dos Stone Temple Pilots, partilhando nas redes sociais uma curta mensagem dando conta do final oficial da banda.

Para trás, ficavam já dois casamentos, com Janina Castaneda, nos anos 90, e com a mãe dos seus dois filhos, Mary Forsberg, entre os anos de 2000 e 2007.

Agora com os Wildabouts, a banda lançou um disco e Scott Weiland garantia que os problemas de droga eram definitivamente passado. Casado com a fotógrafa Jamie Watchel há dois anos, vários dos jornalistas que o entrevistaram também o descrevem como alguém brilhante, divertido e com rasgos de comprovada genialidade.

Weiland mencionou mais de uma vez ser bipolar, mas parecia reconciliado com alguns aspetos que foram problemáticos na sua vida. A fama, por exemplo: “Costumava sentir-me culpado pelo meu sucesso, mas isso passou. Há quem cozinhe para viver, quem ordenhe vacas. Eu escrevo canções, é só isso".

Adormeceu na quinta-feira, depois de garantir obra feita. Morreu um artista, uma estrela rock, mas - faça-se a sua vontade - morreu também o mais improvável exemplo de um auto-assumido homem de família.