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O presente e o Natal

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“A VOZ VOLTA” A OUVIR-SE. Frank Sinatra no Pallatium Theater, em Londres, em 7 de março de 1950

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Reinaldo Serrano

Não é sequer preciso um olhar atento às televisões; basta uma mirada distraída pelas ruas, avenidas ou vielas para assimilar sem esforço estarmos em pleno período de celebração: não tanto do Filho do Homem, mas mais daquilo em que os filhos dos homens se tornaram – ávidos e frenéticos consumidores de capital simbólico, o mesmo que, anualmente, cria e recria expectativas às quais sentimos uma quase imperiosa necessidade de corresponder.

Nada está ao acaso: as editoras (e quem para elas escreve) desembrulham de forma quase lasciva o que pretendem que seja uma panóplia de presentes para os seus leitores, na primeira e última esperança que os seus leitores lhes deem a elas o maior dos presentes – uma clara e inequívoca subida nas vendas. Os próprios autores o sabem e, sem coincidência ou pudor, fazem do último trimestre de cada ano uma época privilegiada para novos lançamentos. Todos estamos informados a este respeito, todos somos coniventes com a eventual falta dele.

No que à música concerne, o panorama é similar, pese embora, neste caso concreto, a única vantagem seja o surgimento de material que, de outro modo, talvez não visse a parca luz do mercado cá do burgo.

A este propósito, que se assinale com merecido júbilo a derradeira “tour de force” para promover o centenário do nascimento de Francis Albert Sinatra. O “evento” em si aconteceu a 12 de dezembro de 1915, quando a cidade de Hoboken, New Jersey, viu nascer “a Voz” e a lenda. Depois foi o que se viu e ouviu, na rádio, televisão e cinema, nos discos e gravações que perpetuaram no tempo a figura e o impressionante talento do inolvidável Sinatra.

Manda a verdade dizer que o ano em curso foi (justamente) pródigo em reedições do mestre, aqui e ali complementadas pela mais valia de novos objetos de análise sobre a obra que há de perdurar e surfar na espuma dos dias. Mas é justamente por causa da quantidade de “informação” relativa a Frank Sinatra que me permito destacar a qualidade de um lançamento recente, já disponível (ainda que com parcimónia) no mercado lusitano: chama-se “Frank Sinatra – A Voice On Air” e disponibiliza, para deleite dos amantes ou meros curiosos, cerca de uma centena de raras e inéditas gravações do “old blue eyes” na época áurea da rádio, entre 1935 e 1955.

Sinatra em 6 de junho de 1962, no Lido Theater, em Paris

Sinatra em 6 de junho de 1962, no Lido Theater, em Paris

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O trajeto destas duas décadas está reproduzido e distribuído de forma irrepreensível numa caixa com 4 cd, complementada pelas 60 páginas de um booklet incluso com textos de, entre outros, Nancy Sinatra e de um dos mais relevantes historiadores de Sinatra: Charles L. Granata, que também produz esta coletânea. Esta edição da Columbia Legacy e com a chancela da Sony Music é, pois, uma rara oportunidade de ficarmos “por dentro” de um retrato menos conhecido da carreira de um homem que gravou mais de 1200 canções...

Mas o mais interessante é que, além do excelente trabalho de remasterização feito a partir dos originais, “Frank Sinatra – A Voice On Air” mantém a publicidade, as introduções e os encerramentos dos programas radiofónicos, desde a estreia de Sinatra com os Hoboken Four até à última emissão do “Frank Sinatra Show”, justamente em 1955. Além do mais, há ainda uma ou outra preciosidade, como os ensaios da gravação do mítico “As Time Goes By”. Aqui aproveito para recordar que muitas das performances nesta edição aconteceram apenas nas emissões radiofónicas, nunca tendo sido gravadas em estúdio.

Quando faltam cerca de quinze dias para assinalar com propósito os 100 anos de Sinatra, creio firmemente que esta edição, à venda por cerca de 40 euros, constitui razão de sobra para dias felizes, sobretudo se completados com mais dois trabalhos “essenciais” de Sinatra: “Live At The Sands”, com a Count Basie Orchestra, e o concerto ao vivo no Madison Square Garden: “The Main Event”.

Sem esquecer, já agora, a também recentemente disponível edição de “All Or Nothing At All”, o documentário em quatro partes que é, em si mesmo, um conjunto de revelações e imagens inéditas do homem e do artista... enquanto homem. A caixa inclui 4 DVD e 1 CD, além de um livro alusivo à personalidade fascinante que foi Frank Sinatra.

Custa-me dizê-lo mas o “espírito natalício” a isso obriga, que qualquer uma das edições supra-referenciadas constituiu um ótimo presente e, sobretudo, um excelente futuro de prazer. “Show them, Frank! Just show them!”