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O “Pai Nosso” de Clara Ferreira Alves foi recebido na Fundação José Saramago

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Alfredo Rocha

O primeiro romance de Clara Ferreira Alves foi apresentado na noite desta quinta-feira. A Fundação Saramago recebeu a autora e cronista do Expresso para uma noite em que José Pacheco Pereira falou de um “livro bizarro” e “estranho”, uma obra que causou sofrimento ao fotógrafo Paulo Nozolino

Pilar del Rio, escritora e viúva de José Saramago, abriu as portas da Fundação para a apresentação do primeiro romance de Clara Ferreira Alves. Foi na Casa dos Bicos, em Lisboa, que Clara Ferreira Alves apresentou “Pai Nosso”. Esta quinta-feira a casa estava cheia para conhecer o aguardado livro, que nos transporta para o Médio Oriente.

É o desapossamento histórico a temática que tanto preocupa Clara Ferreira Alves. Haverá espaço para um novo livro sobre o assunto, mas este sentimento “não é apenas deles”, dos que vivem no Médio Oriente e no Levante. É algo português, mas surge por cá de uma forma diferente. Se na Palestina e em Israel as “pessoas têm memória” e “fazem tudo por não esquecer”, cá optamos mesmo por encerrar capítulos e seguir em frente. Os portugueses tendem a esquecer um passado difícil, que magoa. E um dos maiores exemplos é a nossa “melancolia pós-imperial”

Parece que “absorvemos as nossas derrotas”, mas há “feridas abertas” no meio desta tentativa de esquecimento, relembra Clara Ferreira Alves. A autora de “Pai Nosso” assume-se contra isso e tem “medo de que os portugueses se esqueçam de si mesmos”. É aqui que diferimos de outros povos, e muito. A escritora dá um exemplo: “não podemos fazer de conta que a guerra colonial não aconteceu”.

Paulo Nozolino, Clara Ferreira Alves, José Pacheco Pereira, António Lobato Faria e Pilar del Rio durante a apresentação de “Pai Nosso”

Paulo Nozolino, Clara Ferreira Alves, José Pacheco Pereira, António Lobato Faria e Pilar del Rio durante a apresentação de “Pai Nosso”

Alfredo Rocha

Uma história repleta de tipos ideais

José Pacheco Pereira, que apresentou o livro com o fotógrafo Paulo Nozolino, prefere deixar de lado a crítica e falar da ecologia da obra, uma “ecologia muito especial”. O historiador também fala do desapossamento — com o fim do Império Otomano e as referências fundamentalistas à reconquista de território aos infiéis — e transporta a audiência para os locais descritos neste livro “bizarro” e “estranho”.

Quando se é repórter de guerra, como Clara Ferreira Alves foi, é difícil desligar da mística daquelas cidades. Se a luz de Jerusalém é descrita a partir do Monte das Oliveiras, a vivência dos espaços e das gentes que lá habitam não se fica atrás.

Há também personagens com uma mítica especial, como os jornalistas e fotógrafos que partem de hóteis famosos como o “The American Colony, que fica em Jerusalém Oriental” ou o King David Hotel, do outro lado. José Pacheco Pereira destaca também a parte em que se ruma ao Iraque — país que conhece bem —, onde conhecemos “um assador de frangos numa rua de Bagdad”. Os motoristas de táxi, que “são um elemento fundamental” nesta parte do globo, também não são esquecidos. O melhor é não revelar muito mais sobre a história de uma repórter densa, como todas as personagens, que nos guia por um “Pai Nosso” que une povos e divide crenças.

Um livro que nos obriga a (re)viver

“Detestei o livro.” O fotógrafo Paulo Nozolino é perentório e falou da experiência de ler o livro em apenas três dias, depois dos atentados do último mês em Paris. Nozolino estava lá, a poucos metros do Bataclan. Os anos de repórter marcam quem viveu a história e não pretende voltar a ela.

Clara Ferreira Alves obrigou-o a isso, a relembrar “a disciplina do ócio, a bagagem leve, a maldição de ver durante anos” (e no local) o que se passa neste mundo. “O livro fez-me sofrer, voltar atrás, e eu não queria”, revela. Nozolino considera que este livro não é para todos. E deixa um conselho: é melhor possuir este livro já, no Inverno, pois não é prosa de levar para a praia. Para mostrar que se lê.

“Pai Nosso” foi uma estreia demorada

A ideia deste romance inaugural surgiu há muitos anos, mas custou a chegar às livrarias. Clara Ferreira Alves encerrou-se numa sala sem luz natural, sem saber se havia sol ou chuva no exterior, se fazia frio ou calor. A única companhia era Johnny, o seu cão de raça Schnauzer. Depois veio o chá. A autora, que não gostava da bebida, contou como José Antonio Pinto Ribeiro lhe ofereceu uma chaleira, um bule e muito chá. Foi este o seu combustível. Era preciso avançar e António e Ana Damásio deram-lhe essa força: “You need to hunger down and write”. Clara Ferreira Alves fê-lo.

O primeiro romance não terá decerto demorado por falta de prática. A escrita apareceu-lhe cedo, aos 7 anos, idade a partir da qual começou a escrever “caderninhos” sobre o que acontecia à sua volta. Cresceu, abraçou o jornalismo, esteve na guerra. Continuou sempre a escrever, de tudo excepto versos e ficção científica. A razão? Clara Ferreira Alves assume que “odeia o futuro”.

E depois há mais trabalho além da escrita propriamente dita. É preciso ler, clarificar, rever. É preciso tempo até que o livro chegue às livrarias. E Clara Ferreira Alves é uma escritora exigente (consigo e com as equipas com que trabalha).

Quem a caracteriza é António Lobato Faria, seu editor, que a considera “uma perfecionista obsessiva”. Valerá a pena. Para o responsável da editora Clube do Autor, este é um “romance complexo” e ”revelador”, “um dos livro mais importantes desta década” na literatura portuguesa. “Quando as provas [finais] vão para gráfica já não dá para fazer nada”, diz Clara Ferreira Alves, defendendo-se.

O seu primeiro romance está nas livrarias desde 20 de novembro. São 460 páginas, com a chancela da editora Clube do Autor, que se seguem a publicações anteriores. Depois de contos e ficções como “Mala de Senhora” e “Passageiro Assediado” — assim como coleções de crónicas e ensaios como “Pluma Caprichosa” e “Estado de Guerra” — é a vez de os leitores serem brindados com “Pai Nosso”.