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“O Brasil tem tanto afeto que sobra pouco espaço para a revolta”

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Jose Carlos Carvalho

A realizadora Anna Muylart fala sobre “Que Horas Ela Volta?”, o filme que estreia esta quinta-feira em Portugal e que originou no Brasil uma vaga de debates em torno da sua história, a de uma empregada interna que cria o filho dos patrões enquanto deixa a sua própria filha aos cuidados de outrem

No final da entrevista ao Expresso, a realizadora e argumentista Anna Muylaert comentou que estar em Lisboa permitiu-lhe uma espécie de pausa na participação em debates para os quais tem sido continuamente requisitada desde a estreia no Brasil de “Que Horas Ela Volta?”, o filme que esta quinta-feira chega aos cinemas portugueses. Com uma história que remete para um Brasil em mudança, ainda profundamente marcado por gritantes desigualdades sociais, o filme deu origem a uma vaga de debates e reações. Regina Casé, um rosto conhecido de novelas, surge como Val, a empregada que trabalha como interna numa casa abastada na periferia de São Paulo, tendo um papel central na educação do filho da família, ao mesmo tempo que deixa a sua filha aos cuidados de terceiros na sua terra, no nordeste do Brasil. Ao sucesso de bilheteira e impacto que o filme obteve no seu país, o filme somou prémios conquistados no Festival de Berlim e no festival norte-americano de cinema independente Sundance, assim como criticas elogiosas na reputada “Variety” e no “Hollywood Reporter”. É o candidato brasileiro para o óscar de melhor filme estrangeiro.


Quando estreou no Brasil, escreveu-se que era um filme-espelho. Que Brasil é esse que surge nele refletido?
O que eu queria era falar desse jogo de regras sociais sem julgar os jogadores. Porque é um conjunto de regras tão antigo que ninguém é exatamente culpado. Todo o mundo está jogando sem perceber. Quis pegar algumas regras e trazê-las para cima da mesa.

Que regras são essas?
Essas regras separatistas: não pode sentar na mesa do patrão (às refeições), (a empregada) não pode tomar o sorvete do menino, ‘aqui você não pode sentar’, ‘aqui você não pode nadar’. São óbvias, mas colocadas juntas elas mostraram um comportamento que não é consciente. Acho que cumpriu o papel de espelho e causou comoção no Brasil.

O tipo de relações que o filme apresenta - de uma empregada interna que assume as funções de ama - contribui para que esse tipo de estratificação social, da existência de cidadãos de segunda, seja algo interiorizado e aceite com grande naturalidade desde tenra idade e de uma forma dissimulada, no meio de uma teia de afetos.
É difícil de entender nesse sentido. O filme é uma tentativa. Existe a tese do Brasil cordial, do historiador brasileiro Sérgio Buarque, que diz que o brasileiro é tão cordial, tão simpático, que tudo isso fica difícil de ser visto. Por exemplo, a Val dorme na cama com o Fabinho, ela tem mais intimidade com o rapaz do que ele tem com a mãe. Aquilo é um facto real, aquilo é sincero. E como é que se percebe que você está sendo usado? Acho que isso são as grandes questões. É tanto afeto que sobra pouco espaço para a revolta ou para a transformação. Você vê esse filme, a Val (como empregada interna) está acabando, mas a empregada não. A gente está no século XXI e é quase como se fosse o século XVI ou XVII. A coisa fica, fica, fica. Porque é que fica? Porque todo o mundo é amigo, todo o mundo é simpático. Não é igual aos Estados Unidos, 'aqui senta preto, aqui senta branco', e aí fica óbvio. Então vamos brigar, 'eu não quero sentar aqui'. No Brasil é mais complexo.

É a utilização dos afetos numa lógica perversa….
Depois, quando (o menino) faz 20 anos, a mulher vai embora e nunca mais se veem. Num debate, eu vi mulheres chorando. Às vezes há muito ciúme, uma perversão dos afetos. Durante as filmagens dizia: 'esse é um filme sobre a arquitetura dos afetos'. Isso foi a primeira coisa de que quis falar e a questão social foi acompanhando o que estava a acontecer.

Tal como acontece com o racismo ou no modelo tradicional de subordinação das mulheres perante os homens, muitas vezes esse tipo de relações, além de aceite, é mesmo defendido pelas próprias vítimas. Val começa por surgir como o exemplo disso....
Sim, a Val é a personagem que defende aquilo. Ela é a única que verbaliza. O patrão não, ele diz mesmo para sentar, para ela tomar o sorvete... Não é ele que faz o discurso. É a Val. Ela é quem reza na 'bíblia', mais que todos.

Há uma dinâmica curiosa entre a Jessica e a mãe. Ela tem uma rejeição da posição social da mãe e acaba por fazê-lo lidando com a mãe de uma forma cruel.
Você acha? Eu não vejo assim, não. Ela salva a mãe. Pode chamar de cruel, mas é um cruel para salvar, não para piorar. Ela não aceita que a mãe esteja naquele lugar. Só que a mãe está tão ali, que pode-se chamar de cruel. Mas, ao mesmo tempo, quando ela entra na universidade, dá para a mãe uma perspetiva que a mãe nunca teve. Tanto é que a mãe entra na piscina, coisa que ela não tinha sequer desejado antes. A crueldade é aquele fogo da transformação. É aquela crueldade da contração do parto, deixa você tão incomodado que a criança quer sair.

O filme provocou reações extremas?
Eu esperava mais. A grande maioria gostou do filme. Na verdade, extremas mesmo não tive nenhuma. Tive alguns jornalistas a quererem desgraçar a vida delas no (desenlace) final (do filme) - 'elas vão se ferrar' - o que era meio um ódio ao Lula, confundindo tudo. Mas eu não estou defendendo o Lula. Então eu também não entro nisso, não sou do PT (Partido dos Trabalhadores). Ainda na semana passada deitaram abaixo a minha página no Facebook, alguém fez uma denúncia falsa. No início, a cada dez minutos eu recebia carta de gente chorando. Foi muito emocionante. Começou por ser exibido só nos cinemas de arte e depois os cinemas da periferia começaram a pedir o filme. Fez 500 mil espetadores, o que é mesmo muito bom para um filme que não é de comédia ou algo do género. Após o DVD ter sido lançado em Itália, o filme caiu na internet e o Brasil inteiro começou a ver. Aí eu recebi uma carta de alguém que dizia querer mostrar o filme para a sua turma, no interior de Minas (Gerais), um local muito pobre. Ele pedia um guia de debate. Por que a Jessica foi estudar arquitetura? Eu mandei. E isso aconteceu em muitos lugares, porque o Brasil é muito grande.

Era sua intenção suscitar esse debate?
Era, mas eu nunca tive a ambição de espoletar uma coisa tão grande. (A Jessica) é uma personagem muito provocadora, porque ela não conhece regras. Quando estávamos a filmar a cena da piscina, em fevereiro de 2014, aconteceram em São Paulo e no Rio de Janeiro os rolezinhos. Que era justamente, com essa autoestima, que o Lula deu a essa nova geração, os negros e mulatos começaram a encontrar-se em centros comerciais ricos. Os seguranças viam 30 estudantes mulatos e mandavam chamar a polícia. O que gerou toda uma discussão: 'espera , eles não estão fazendo nada'. Aí, quando ela caiu na piscina, a gente falava 'a Jessica está a fazer o seu rolezinho'. Eu queria provocar, claro.

Este é um filme que retrata uma sociedade em mudança?
Eu espero que sim. Acho que a Jessica é um personagem novo, tem dez anos. Eu mesma nem sabia da sua existência. Quando escrevi achava que ela era uma utopia e agora estou indo debater (o filme) nas universidades e estou a conhecer as Jessicas de verdade. Acho que isso é uma mudança que o país tem. Novas pessoas de uma classe baixa chegando à universidade. O que há 10 anos não acontecia. Eram as exceções. Hoje não, todas as universidades têm.

Jose Carlos Carvalho

Que bairro é aquele onde o filme decorre?
É o Morumbi, um bairro de rico decadente, que nos anos 1970 era o mais caro, mas depois, como é meio longe e há muito trânsito, as pessoas foram saindo. Aquela casa por exemplo está à venda e ninguém compra. A pessoa que lá mora já não é rico. O bairro ainda simboliza a riqueza, mas é uma riqueza que está acabando. Não se conseguem vender as casas de lá e os preços estão a cair. Mas as casas são enormes.

O bairro surge quase como um microcosmos, onde existe uma convivência entre aquele tipo de pessoas, que têm aquele tipo de funções. Isso existe mesmo assim no Morumbi?
Há três anos surgiu uma lei em que empregada passou a ser uma profissão como qualquer outra, 8 horas por dia, com uma hora de descanso para almoço... Há 10 anos tinha 20% de empregadas que dormiam (na casa dos patrões), hoje 2%. A Val em si está acabando. Agora, eu nasci com uma Val dentro de casa. Existe, mas está acabando. Está deixando de existir.

Como surgiu a ideia para o filme?
Tem 20 anos, nasceu quando eu fui mãe. A minha primeira vontade era falar da importância do trabalho da mãe e de como isso é desvalorizado na sociedade brasileira e de como ao desvalorizar o trabalho da mãe você está desvalorizando a mulher. Depois, se você não valoriza ser mãe, você entrega para uma babá, que ganha mal. Ai vem todo o problema social que a babá traz, porque ela só vai querer aquele emprego se ela é muito pobre. E aí essa escravidão se perpetua assim como a questão da educação afetiva. É que o Brasil, um país alegre, vem das babás, vem da África, essa alegria, que são as babás. É um filme sobre a educação, sobre todos esses lados. Sempre tive vontade de falar disso, só que demorou 20 anos para depurar e chegar nessa história, até porque o país sofreu uma alteração recente que alterou o argumento. Entretanto, eu fui amadurecendo como argumentista, como realizadora e também chegou o digital. que mudou a minha forma de realizar, porque agora uso muito a improvisação, coisa que o (filme em película de) 35 mm não permitia. Acho mesmo que precisei de amadurecer.

Ter sido mãe deu-lhe uma maior consciencialização do papel para a que estas mulheres estão relegadas?
Em criança tive babá e lembro-me de, quando tinha uns sete anos, a professora me ter chamado e dito para eu desenhar a minha família e eu ter perguntado: 'E a empregada?' Eu sabia que a empregada estava na cena, mas na hora da fotografia ela tinha de sair. E eu já não entendia. Essa contradição sempre esteve em mim. O que eu acho que tive de novo quando fui mãe foi perceber a importância desse trabalho. O trabalho de mãe. É um trabalho extenuante. Uma mãe de uma criança pequena trabalha mais que um operário, só que isso não é valorizado, apesar de ser importante. No Brasil e na América Latina em geral isso é um problema. Porque nenhuma mãe rica... Conheci uma mulher que aos sete anos de idade do filho disse que tinha sido a primeira vez que tinha sido ela a dar-lhe banho. Isso é considerado chique. 'Eu não ponho a mão, eu sou chique'. Não é chique, isso é escroto. Eu não quis ter babá. E eu estou num meio social em que deveria ter.

Jose Carlos Carvalho

Como foi esse recurso à improvisação?
Hoje eu sou uma argumentista muito segura, em relação à estrutura, os meus filmes são quase como que um relógio: tem ritmo, precisão e controle da estrutura. Nunca fica chato, na sequência dos acontecimentos. Mas quando chega à cena, eu peço para o ator se soltar. Não deixo que o ator fale nada do que eu escrevi, quero que ele reinvente e fique colocando questões. Todo o dia de manhã (dizia): 'Mas essa cena está uma bosta, como é que você acha que é?'. E começa tudo de novo. Isso foi muito cansativo. A Regina no final ela não estava mais a aguentar. Porque todo o dia eu exigia que começasse de novo. Muita coisa acabou acontecendo na hora, assim mesmo, no calor do momento.

E depois desse primeiro impacto, que outro tipo de reações se seguiram?
Muita coisa. A questão do machismo por exemplo, porque é um filme de mulheres. Eu nunca tinha percebido. Quando nós chegamos a Sundance (festival norte americano de cinema independente), a primeira critica falava que 'o filme passa no teste do machismo'. Eles veem se o filme tem uma personagem feminina com nome, uma cena com duas mulheres falando e se o assunto não seja homem, passa no teste. E aí percebi que 80% dos filmes americanos é o ator principal é homem e as mulheres são secretárias, empregadas de bares, putas, papéis sem nome e sem fala. Na minha situação como realizadora que começou a fazer sucesso, comecei a sofrer bullying. Eu não comecei agora, não sentia mais o machismo, mas quando eu entrei numa zona de dinheiro, não tinha mulher em volta. Aí esse assunto começou a ficar em volta do filme, com todo o mundo a falar 'ah é um filme de mulher', dirigido por mulher, fotografado por mulher, montado por mulher, é um filme que fala de afeto de conexão mãe-filha. No fundo, o filme é uma mãe que não criou a filha que recupera na filha. Lá em baixo de tudo é isso. E aí o machismo veio. E acabou também em debate sobre o racismo porque o filme não tem negro, a Val não é negra. Muitos ativistas negros a questionar 'porque é que os brancos gostam tanto desse filme'?. Nunca tinham pensado nisso. Não se fala em racismo no Brasil, é um assunto que não existe. O filme veio trazer um monte de coisas e eu gostei. Não esperava tanto assunto.

E o impacto que teve no estrangeiro, em especial nos Estados Unidos, estava à espera?
Lá, é muito como na Europa, é bom, todo o mundo gosta do filme, se discute, mas não tem nada a ver com o Brasil. No Brasil as pessoas choram.

Tem a expectativa do filme ser nomeado para os Óscares?
Não tenho. Até porque não quero amanhã …. (me dececionar) Isto aqui... é muito forte. Eu acho que a grande força do filme já foi cumprida. A gente está nas listas, temos hipóteses, mas eu estou preparada para ambas as hipóteses. Até porque está fora do nosso controle.