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A chata da Lígia recordada em Beja

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Sérgio Godinho, Mário Carvalho e o moderador João Paulo Sacadura

Câmara Municipal de Beja

Um escritor veterano (Mário de Carvalho) e um cantor (Sérgio Godinho) que agora se estreia nos contos discutiram literatura, os velhos tempos e a atualidade

Luís M. Faria

Jornalista

Passar clandestinamente a fronteira dava algum trabalho antes do 25 de Abril. O escritor Mário de Carvalho, que na altura andava na casa dos 20, já tinha estado preso e continuava a ser incomodado pela PIDE. Ainda hoje recorda a matrícula do Volkswagen verde que o seguia; como as letras eram LG, ele e a mulher chamavam-lhe Lígia. Um dia fartou-se dessa companhia indesejada e resolveu ir-se embora. Primeiro apanhou uma sucessão de táxis para baralhar o rasto – fazendo o que se chamava ‘cortes’. Foi até Leiria, onde se encontrou com uma pessoa que o levou de comboio até ao Porto. Esse contacto depois seguiu com ele de camioneta até Chaves, e daí para a fronteira. Aí havia um campo aberto e no fim dele um rio que tinha umas pedras e dava para atravessar. Do outro lado estaria o contacto espanhol. Antes de avançar, Carvalho perguntou o que fazer se a polícia aparecesse. O passador disse-lhe para correr. Felizmente, não foi necessário. Cruzado o rio, lá estava o segundo passador, um tal Pepe, indivíduo ebuliente e não menos profissional do que o anterior. Carvalho recorda que ambos foram pagos à cabeça e se encarregaram de todas as despesas posteriores, incluindo alimentação (“Veja lá, não quer um bolinho?”), bilhetes de comboio, etc. Ele seguiu para Paris, onde lhe arranjaram um passaporte falso – uma versão “aperfeiçoada” do que o pai lhe levara – e de Paris para a Suécia, mais precisamente Lund. Ficaria lá pouco tempo, pois entretanto aconteceu o golpe de Estado que pôs fim à ditadura.

A história foi contada em Beja no último fim de semana, durante uma sessão pública no Teatro Pax Júlia, restaurado e devolvido à sua majestade. Foi a mais recente edição da Viagem Literária, um programa de encontros com escritores que a Porto Editora está a organizar em todas as capitais de distrito. Nem todos os convidados são autores veteranos, e aliás nem sempre são autores em sentido estrito. Na sessão de outubro, em Évora, estavam Pilar del Rio e José Peixoto. Na do próximo fim de semana, em Faro (foi antecipada por causa do Natal), vão estar Gonçalo M. Tavares e Bruno Vieira Amaral, o primeiro um dos maiores escritores portugueses vivos, o segundo um estreante cujo romance “As Primeiras Coisas” recebeu há um mês o prémio José Saramago.

Na sessão de Beja, além de Mário de Carvalho compareceu Sérgio Godinho, um cantor e autor que já usava muitas palavras nas suas canções – ele próprio o reconheceu – publicando agora o seu primeiro livro de contos, “VidaDupla”. Godinho também viveu fora do país, no seu caso respondendo à mensagem de liberdade contida no romance “Pela Estrada Fora”, que um amigo escritor lhe tinha emprestado. Entre os anos 60 e 70, viveu em lugares como Paris e Amesterdão, fazendo trabalhos diversos e desenvolvendo talentos artísticos que o país só viria a conhecer plenamente na segunda metade dos anos 70. Embora já antes gravasse música, como lembrou Carvalho ao recordar a importância que o primeiro álbum dele teve para si próprio quando estava preso.

Com tais afinidades e relações, não foi surpresa que a conversa, moderada por João Paulo Sacadura, tivesse fluído. Na audiência, onde havia bastantes jovens, ao contrário do que por vezes acontece, algumas recordações fizeram rir; outras terão comovido parte dos assistentes. Falou-se de coisas várias, incluindo refeições de formigas e concertos na Ovibeja entre um frio tremendo, mas os dois artistas acabaram mesmo a discutir literatura, a propósito de um livro a que Mário de Carvalho deu um título longo e caracteristicamente seu: “Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão: Letras Sem Tretas – Guia Prático de Escrita de Ficção”. O texto fala de escritores que se devem ler, dá conselhos formais, e recomenda que não se atribua a estes um valor absoluto, pois um verdadeiro criador pode sempre ter uma boa razão para fazer diferente. Ideias que foram reiteradas no Pax Julia, e sobre as quais parece ter-se formado um certo consenso entre os convidados.