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Grandes mestres espanhóis andam por cá

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GOYA. Raro trabalho do pintor espanhol mostra a importância da temática tauromáquica só apreciada em grande número nos seus desenhos

El Greco, Goya, Zurbarán, Ribera, Murillo, Sorolla são alguns dos nomes maiores da pintura do país vizinho que, em Lisboa, traduzem a verdade da História da Arte hispânica. Uma exposição que traz pela primeira vez a Portugal a Coleção Masaveu, um dos mais importantes acervos privados da Península

A história da pintura espanhola está no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa. A mostra - " Colección Masaveu: Grandes Mestres da Pintura Espanhola" passa em revista o que de melhor se produziu no país vizinho desde o século XV ao XX e agrega nomes absolutamente indispensáveis para a compreensão da arte hispânica.

Falamos de El Greco, Zurbarán, Goya, Ribera, Murillo, Fortuny, Sorolla e pomos em perspetiva o medievalismo mais icónico e a chegada de um modernismo de cariz popular. O confronto coloca-se entre a representação religiosa, a aristocrática e a mais profana, que atravessa naturezas mortas até ao auge do estilo 'bodegón'.

Dividida em cinco núcleos temáticos, a exposição que pode ser visitada até 3 de abril de 2016, põe em destaque também o Renascimento, o Maneirismo, o Naturalismo, o Barroco. São quase seis dezenas de obras que evoluem cronologicamente e de forma magnífica na Galeria de Exposições temporárias do MNAA.

Trata-se, como nos diz Ángel Aterido, o comissário da mostra, de "um grupo alargado de pinturas espanholas que habitualmente não podem ser contempladas com esta concentração, neste número e com esta qualidade, em Portugal". O diálogo entre as obras, um dos objetivos da exposição, é conseguido através do aproveitamento de outras peças da pinacoteca do Museu, o que permite estabelecer laços e facilitar comparações.

De resto, é importante lembrar, que a Coleção Masaveu no seu esplendor só foi mostrada anteriormente três vezes: no Museu do Prado na década de 80, no Centro de Cibeles, em Madrid, e agora no MNAA. Na sua totalidade jamais foi exposta ao público.

A COLEÇÃO MASAVEU

Reunida ao longo de várias gerações por uma família de empresários e industriais, colecionadores e mecenas, oriundos de Oviedo, Astúrias, a coleção começou a tomar forma na segunda metade do século XIX. Os Masaveu, ao lado dos Abelló, Várez Fisa, Arango, Koplowitz, Thyssen ou mesmo da Casa de Alva, fazem parte da verdadeira elite cultural espanhola. Enriquecida década após década com aquisições no mercado espanhol mas também no mercado internacional, a coleção teve sempre como ponto de chegada a recuperação de muitas obras castelhanas de enorme valor artístico, sendo hoje uma das coleções privadas mais importantes de Espanha. Do seu acervo fazem parte peças provenientes das mais notáveis pinacotecas do país vizinho. Estão lá obras oriundas da coleção real ou da coleção do Infante Sebastião Gabriel de Bourbon e Bragança, neto de D. João VI de Portugal, à qual pertenceu, por exemplo, "Virgem com o Menino", de Murillo, exposta nesta mostra.

Mas o nosso destaque vai para três outras obras-primas: a tábua "Jesus é despojado das suas vestes" (c. 1577-1579), de El Greco; "O Bêbado (O Gosto)" (1637), de Ribera; e "Santa Catarina de Alexandria" (c. 1640), de Zurbarán.

A primeira é uma versão reduzida no seu tamanho da monumental obra que El Greco produziu quando se instalou em Toledo, adequando a sua estética pessoal às necessidades da Contra-Reforma. O quadro segue com variantes muito pouco reconhecíveis a composição, a disposição, a distribuição das manchas de cor e o número de personagens da obra definitiva. A atmosfera claustrofóbica em torno de Jesus é extraordinária, basta ver-se a galeria de cabeças, como o é a figura do próprio Cristo, e a introdução pouco ortodoxa das três mulheres presentes no Calvário.

A segunda é um óleo sobre tela de dimensões relativamente reduzidas (60 x 46,5 cm) que reflete um dramatismo subtil assente numa provocação, o riso de um marginal apelando aos sentidos. O meio busto que Ribera aqui pinta amplia de forma extrema a expressividade da personagem, que advém do traço pastoso, mas também da luz que marca as rugas de um rosto gasto, a pobreza das vestes usadas e a mão calejada que segura a garrafa.

Finalmente, a terceira é uma monumental pintura da figura feminina. Tratada de forma muito pessoal, a santidade e o divino aproximam-se aqui da sofisticação aristocrática de uma Andaluzia que Zurbarán não se cansou de reproduzir. Dizem os críticos que há nesta obra uma clara aproximação a Dürer talvez pelo requinte de um vestuário atípico para a religiosidade cristã, mas bem querido dos gravadores flamengos dos séculos XV e XVI. Recortada na obscuridade, esta Santa Catarina de expressão ascética, tem ainda o condão de empunhar com firmeza invulgar a espada com que terá sido degolada.