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A hora dela

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A expectativa era muita, e a forma estrondosa como foi recebido o terceiro álbum de Adele não engana: é um dos grandes discos de 2015

Alexandra Waespi

Quando “21”, o segundo álbum da britânica Adele, se tornou um fenómeno de vendas em 2011 e recolheu uma série de prémios, impulsionado pelos êxitos ‘Rolling in the Deep’ e ‘Someone Like You’, o mundo viu nascer uma estrela. Passados quase cinco anos, apesar de toda a pressão que acarreta o regresso ao estúdio depois de um álbum campeão, a maior ‘voz de ouro’ desta década prova que não foi apenas uma estrela cadente que se vislumbrou no firmamento mas, sim, um astro central. Adele é, neste momento, o sol da indústria musical, e as canções de “25”, começando pela balada ‘Hello’, vistoso cartão de visita, afiançam a existência de muita substância para sustentar o seu merecido sucesso. Não saltando, compreensivelmente, numa direção drasticamente diferente, a artista corre aqui um punhado de riscos controlados e sai-se bem da experiência.

Falou-se de colaborações com Damon Albarn, Phil Collins, Sia, mas os temas que se impuseram no alinhamento final resultam de parcerias com o novato Tobias Jesso Jr. (a evocar Elton John na belíssima ‘When We Were Young’), Ryan Tedder (o homem dos OneRepublic, com quem já tinha trabalhado, assina ‘Remedy’ a meias com ela) e Bruno Mars (Mariah Carey pelar-se-ia pelo estrondoso ‘All I Ask’). São muitas as baladas ao piano presentes em “25” — se for para escolher uma, escolha-se ‘Remedy’ —, mas Adele está numa fase diferente da vida e as canções de revolta e coração partido dão lugar a reconciliações, consigo e com os outros. Em ‘Send My Love (to Your New Lover)’, momento mais orelhudo do álbum, canta “I’m giving you up/ I’ve forgiven it all”; no lusco-fusco de ‘Water Under the Bridge’ pede “If you’re gonna let me down, let me down gently”; no quase religioso ‘River Lea’, produzido por Danger Mouse, desculpa-se com um “I never meant to hurt you or lie straight to your face”; e, claro, em ‘Sweetest Devotion’ dirige-se, emocionada, ao filho de 3 anos (“There is something about the way you love me/ That finally feels like home”).

O grande pico de “25” é, no entanto, ‘Million Years Ago’, brilhante interpretação (sob influência de Dusty Springfield) para aquela que é a canção mais intimista e pessoal aqui presente. Acompanhada simplesmente pela guitarra acústica, canta “I wish I could live a little more/ Look up to the sky, not just the floor” e nem se apercebe de que é esse chão que lhe permite chegar ao céu.