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1692. O ano negro dos EUA pela mão de um prémio Pulitzer

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JULGAMENTOS DE SALEM. O acontecimento decorreu em 1692 e alimenta ainda hoje a literatura

A autora da biografia de Saint-Exupéry, Stacy Schiff, tem um novo livro sobre um tema que já fez correr muita tinta. Este novo livro é importante para quem queira conhecer a violência que se viveu na comunidade de Salém ... uma terra a 40 km de Boston que foi ‘obrigada a mudar de nome

Neste lado do Atlântico, dificilmente reconhecemos a importância da data. 1692. No entanto, nos Estados Unidos, a perceção é automática: foi nesse ano que, numa pequena e sombria comunidade de colonos puritanos, atacada pela varíola, no estado de Massachusetts, morreram enforcados 14 mulheres e cinco homens, acusados de bruxaria. Outro homem, que se recusou confessar-se culpado, foi esmagado até à morte, com pedras.

Salem, a colónia britânica que, nessa altura, já era o lar de três gerações de colonos, desapareceu. Hoje, chama-se Danvers, fica a cerca de 40 quilómetros de Boston, mas continua a alimentar o mito. Proliferam lojas que vendem bugigangas, t-shirts e livros à volta do episódio, que continua a alimentar a imaginação escritores e guionistas. Como lembra o “New York Times”, a propósito da mais recente publicação de um livro à volta deste tema, esta caça à bruxas já foi esmiuçada por mais de 500 livros, quase mil dissertações e quase o dobro de artigos escolares. Sem referir os romances, as peças de teatro (sendo “The Crucible”, de Arthur Miller, o expoente) e os filmes.

“The Witches: Salem, 1962”, de Stacy Schiff; Little, Brown & Company; 498 páginas; €16,50

“The Witches: Salem, 1962”, de Stacy Schiff; Little, Brown & Company; 498 páginas; €16,50

A diferença é que, desta vez, o retrato minucioso dos nove meses que distaram entre a 'observação' dos primeiros sinais da presença de “bruxaria” e do “diabo”, o julgamento e as condenações, é feito por Stacy Schiff, autora e colunista, que já ganhou o prémio Pulitzer pela obra “Vera” — a biografia de Vera Nabokov, mulher e musa inspiradora de Vladimir Nabokov, escritor que deu vida a “Lolita”. Pela sua mão, nasceram também as biografias de Antoine Saint-Exupéry, criador de “O Principezinho”, ou Cleópatra.

A bibliografia que sustenta as quase 500 páginas do livro da autora é longa. A pesquisa inclui trabalhos de sociólogos e historiadores que, ao longo de muitas décadas, procuraram avançar razões para o fanatismo e obscurantismo que proporcionou a histeria, os julgamentos infundados e o massacre de tantas vidas — há quem aponte as tensões domésticas e económicas como os factores que originaram a explosão de denúncias e os julgamentos sumários; e há quem aponte que os conflitos entre tribos índias, que por aquela altura decorriam na região, influenciaram e impactaram na imaginário de delírio que marcou o ano de 1692.

A uma escala infinitamente maior e patrocinada pelas instituições religiosas e políticas da altura, decorreu na Europa, durante vários séculos, o mesmo ambiente persecutório e sanguinário. Os tribunais da Inquisição ceifaram milhares de vida em diversos países europeus, durante cinco séculos. Em comparação, a curiosidade de Salem reside no facto de ter ocorrido tão tarde no tempo (quando a caça às bruxas na Europa perdia força) e no seio de uma comunidade religiosa puritana, onde supostamente a bondade imperava.

Stacy Shiff não procura encontrar razões para o acontecimento, embora naturalmente analise as várias teorias e sublinhe o fechamento daquela comunidade e a imaginação própria dos adolescentes que podem ter despoletado a caça às bruxas. A autora prefere, no entanto, recorrer às técnicas de 'storytelling' e fazer um retrato vívido das personagens que protagonizaram aquele caso. As várias análises à obra, lançada nos Estados Unidos, referem que a autora tem a capacidade para torná-las “pessoas reais”, descrevendo-as “como se as conhecesse. Como a escrava Tituba, que contou ter recebido, várias vezes, a visita de um homem, alto e de cabelo branco, acompanhado por um pássaro amarelo, que a ameaçava matar caso não torturasse crianças.