Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Sobre o natural

  • 333

Reinaldo Serrano

Não serão seguramente os ecos do Halloween, essa celebração tão norte-americana que mais não é que um exemplo adicional da influência cultural da superpotência a nível global, que vão ditar a temática da prosa emergente. Antes servirão como um entre outros pretextos que justificam um regresso nestas linhas ao género fantástico – não aquele que povoa com qualidade mais que duvidosa as linhas avançadas do marketing das livrarias, mas aquele que, por diversas razões, tende a ser esquecido ou nem sequer ser conhecido.

Na primeira destas premissas está a obra do britânico Sax Rohmer. Nascido Arthur Henry Sarsfield Ward, em Birmingham, aos 15 de fevereiro de 1883, deixou até à data da sua morte, em 1959, uma profusa obra contada em largas dezenas de romances, a que muitos chamarão, errada e sobranceiramente, “de cordel”. Sem dar a corda a tais dizeres, importará destacar a personagem de maior relevo saído da pena de Sax Rohmer: Fu Manchu.

Alegadamente de origem nobre, o mesmo é dizer da família imperial chinesa, Fu Manchu tornar-se-ia num dos nomes mais temíveis mesmo entre as mentes criminosas, para desafio premente e constante das forças policiais de todo o mundo. A imaginação de Sax encheu-o, é certo, de estereótipos alusivos à etnia e, sobretudo, à nacionalidade; os costumes seriam outros e seguramente muito menos politicamente corretos na primeira metade do século passado do que nos nossos dias, pelo que se perdoa com alguma bonomia a divagação do autor. Até porque, em bom rigor, essas caraterísticas tão marcantes servem apenas o propósito de preencher a composição de uma personagem a todos os títulos inesquecível.

Prova disso, a dezena e meia de livros e ainda mais contos que narram com desenvoltura as peripécias deste génio do crime, figura insidiosa que dirige de forma quase pantomineira um império de assassinos que atuam quando menos se espera, entre secretismo e audácia. O adepto de aventura farta, de mistério aqui e ali polvilhado de sobrenatural suspense em estado puro, não deixará de encontrar na escrita de Sax Rohmer e da sua personagem motivos de sobra para uma leitura quase nostálgica de um género que, forçado a atualizar-se, foi perdendo (porque não dizê-lo?) algum encanto.

A obra de Sax Rohmer chegou a estar entre nós, graças ao trabalho antigo da Portugal Press, e alguns dos livros de Fu Manchu podem ainda ser encontrados no mundo dos alfarrabistas. Na língua de origem, o acesso é total, sendo de louvar o preço acessível de cada um dos volumes (cerca de 10 euros) e o cuidado estético nas capas, como que homenageando os tempos em que foram escritos.

Para os menos dados à leitura, aqui se sublinha a também vasta adaptação à televisão e cinema da obra de Sax Rohmer, nomeadamente em séries e filmes dos anos 30 e 40 do século passado. Um dos filmes mais conhecidos contou com o desempenho de Boris Karloff: “A Máscara de Fu Manchu” (1932), estereótipos à parte, ainda é um notável exemplo do que foi um certo tipo de cinema de mistério.

d.r

Bem mais atual e eventualmente bem menos conhecida entre nós é a série “Midwinter of The Spirit”, que aqui se aconselha vivamente, sobretudo (mas não só) aos amantes do fantástico mesclado de sobrenatural (ou o seu inverso, neste caso). Diga-se desde já, para que esta sequência não fique deslocada da restante crónica, que a série se baseia num livro de Phil Rickman, também ele britânico, também ele autor de romances “sobrenaturais”.

De entre estes está então o homónimo da série da ITV, integrado numa série (escrita) de livros que têm a vigária Merrylee Watkins como protagonista. No papel desta exorcista dos tempos modernos está uma (como sempre) soberba Anna Maxwell Martin (vimo-la em “Filomena” ou “Bletchley Circle”, entre outros), a braços com fenómenos sinistros na comunidade rural para onde foi destacada, a par de mistérios bem mais reais e de contornos policiais por demais evidentes.

Entre uns e outros se situa esta minissérie de produção do ano em curso e que, nas noites frias que se sentem, prometem e garantem ainda mais gelo ao longo da coluna que se retrai a cada cena, feita com a segurança estética e plena de bom gosto a que desde sempre nos habituou qualquer produção britânica.

Sugere-se uma bebida forte (eu disse “uma”) e castanhas qb (quentes e boas) para que, com esta duas singelas sugestões, o serão o seja “à moda antiga” – quando a noite nos envolvia, intrigava e entretinha.

Reinaldo Serrano escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras