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Arlo e Spot num ‘bailado de pirilampos’

Pixar

Filme sobre a responsabilidade e a entrada na vida adulta, “A Viagem de Arlo” é também o maior prodígio técnico dos estúdios da Pixar até à data. Muito bonito

A nova proeza da Pixar/Disney, estreia na longa-metragem do realizador americano de origem sul-coreana Peter Sohn, atualiza, no fundo, a história típica do rapaz que parte à aventura com o seu cão. Acontece que, em “A Viagem de Arlo”, o ‘rapaz’ é um medroso e mimado apatossauro de 11 anos que tem um coração muito grande e ainda não saiu realmente da casca. E o ‘cão’? Bom, o ‘cão’, que parece um macaquinho e se chama Spot, é na verdade uma versão anterior (e simpática) daquilo em que os seres humanos se tornaram. É que, no filme que agora acabou de estrear-se, o asteroide que supostamente eliminou os dinossauros da face da Terra passou, afinal, de raspão... Consequência disso? Foram os dinossauros que, sem predadores naturais, evoluíram, chegaram à fala e se tornaram sociáveis. Descobrimo-los, pela família de Arlo, pai, mãe e dois irmãos mais velhos, dedicados à agricultura (os apatossauros são herbívoros) e a cuidarem da sua quinta como as famílias que nos habituámos a ver nos westerns. Algo de muito grave acontece depois ao nosso herói, que se vai descobrir sozinho, longe de casa. É nessa viagem extraordinária em que ele aprenderá a conhecer-se a si próprio que Arlo se torna amigo de Spot, o rapaz selvagem e traquinas que Arlo no início detestava porque lhe roubava comida. Spot exprime-se de mil maneiras, mas não pela palavra, porque aqui só os dinossauros falam.

Peter Sohn e a produtora Denise Ream

Peter Sohn e a produtora Denise Ream

Como é habitual em cada novo rebento da Pixar, estamos a falar de um projeto colossal que demorou anos a ser concluído. A ideia surgiu em 2009, da cabeça de Bob Peterson, um dos históricos da casa e correalizador de “Up – Altamente”. Mas foi ao debutante Peter Sohn (que, por acaso, influenciou a personagem de Russell no filme citado) que o big boss John Lasseter resolveu entregar os cordelinhos. Nascido em 1977, no Bronx, em Nova Iorque, Peter Sohn tem uma história de vida que merece ser contada. Filho de uma família de imigrantes sul-coreanos que, como tantas outras, chegou aos EUA sem saber uma palavra de inglês, Sohn cresceu a ajudar a família na mercearia que os sustentava e a ver filmes que os pais não compreendiam. Numa recente masterclass em Madrid que a Pixar organizou para promover o filme, o cineasta, apresentando-se com o recurso a desenhos, contou à plateia a sua história — e de como a mãe se emocionava com filmes da Disney como “Dumbo” ou “Bambi”, já que estes não precisavam de palavras para serem compreendidos.

Tendo crescido em Nova Iorque, Sohn ainda se recorda das suas visitas de miúdo ao Museu de História Natural, onde, pela primeira vez, tomou contacto com os dinossauros que agora vão fazer o seu nome correr mundo. De onde vem esta nossa atração por tais criaturas? “É que elas existiram. Não são uma fantasia. São a peça do puzzle mais fascinante da teoria da evolução das espécies e a chave para compreendermos o planeta numa fase que nunca conhecemos.” Com jeito para o desenho desde a infância, Sohn tentou vingar em Nova Iorque. Percebeu depois que o futuro não estava na east coast mas do outro lado da América, na Califórnia. Procurou a Disney, mas foi na Pixar (que na Disney se fundiria muitos anos depois) que se incorporou, em 2000. Fez depois a tarimba nestes últimos 15 anos, trabalhando nos mais diversos sectores do estúdio. Em 2009, realiza a curta “Parcialmente Nublado”, numa altura em que já fazia parte do departamento de arte responsável pelo storyboard de êxitos como “Ratatui” e “WALL-E”. “A Viagem de Arlo”, projeto que lhe foi parar às mãos e que Sohn fez seu, é um reflexo do cineasta sobre o seu próprio crescimento, tal como ele o sublinhou em Madrid: “Lembro-me de não ter muita confiança em mim em criança, era gorducho, pertencia a uma minoria étnica, quase não tinha amigos, era o ‘amarelo’ e os ‘amarelos’ em Nova Iorque não falavam com os ‘negros’ nem com os ‘brancos’, etc. Aprender a acreditar em mim foi um desafio que me acompanhou a vida inteira e que só começou a tornar-se possível quando entrei para a Pixar. Foi na Pixar que descobri gente de todas as raças e estratos sociais a falarem uma só língua comum: o cinema. Eles só tinham um objetivo: fazer os melhores filmes possíveis. Brad Bird estava então a preparar ‘O Gigante de Ferro’. Descobri que aquela era a minha tribo. E que iria fazer tudo para lá ficar.”

Arlo com o pai, no início do filme e...

Arlo com o pai, no início do filme e...

Pixar

Há muito para dizer de “A Viagem de Arlo”, êxito mais que certo, só não se sabe a que escala. Se está ou não na elite das melhores obras da Pixar é assunto para discutir, mas é seguramente o mais clássico dos filmes que os estúdios produziram até hoje, o que mais ancorado está a uma ideia de tradição. Um dinossauro cobardolas e um rapazote destemido vão ensinar-se a crescer sob uma paisagem de Grand Canyon — influenciada, segundo o seu autor, por westerns clássicos e por filmes como “Os Lobos Não Choram”, de Carroll Ballard. Os dinossauros, vulgarmente tratados pelo cinema como bestas retrógradas e ferozes, criam aqui “um coro emocional que nos fala da humanidade”, acrescenta Sohn. “Arlo e Spot são essencialmente duas crianças que vão ter que se desenvencilhar num mundo de adultos. Acontece que, no filme, a relação das personagens com a natureza adquire uma importância que talvez nunca tenha sido tão forte num filme de animação. A natureza é, por si própria, uma personagem deste filme. A um ponto tal que nos obrigámos a fazer viagens de expedição antes de começarmos os desenhos. É preciso notar que 99% de ‘A Viagem de Arlo’ são cenas de exteriores. O perigo pode vir de toda a parte. Esforçámo-nos muito para que cada detalhe pudesse parecer real. Para que o perigo pudesse ser sentido cada vez que Arlo cai no rio e é levado pela força das águas, por exemplo.” Por outro lado, este é um dos filmes da Pixar com menos diálogos, já que Arlo passa muito tempo com Spot e este não fala. “Mas ele uiva, corre, bate, faz trinta por uma linha... Ora, tivemos que ter trabalho acrescido ao nível das expressões faciais e corporais das personagens, destacando uma comunicação que não passa pela palavra.”

...e a ajudar a família de T-Rex a recuperar a manada de búfalos

...e a ajudar a família de T-Rex a recuperar a manada de búfalos

Pixar

Há pelo menos outro aspeto de “A Viagem de Arlo” que merece ser sublinhado aqui e que está ligado ao desenvolvimento tecnológico: é que nunca uma animação — e este aspeto é ainda mais sentido na versão 3D — pareceu tão real como esta. De resto, animar a natureza não é fácil e aquilo que se vê no filme não poderia, assegurou Sohn, ter sido feito há dois ou três anos. “Nem imagina o grau de exigência deste filme”, exclamou o cineasta. “O departamento técnico da Pixar começou por dizer-me: ‘não, isto não é possível de fazer’. Para ter uma ideia, ‘Brave-Indomável’, a nossa produção de 2012, tinha uma dúzia de planos com um rio. Na altura, esses 12 planos exigiram do estúdio a capacidade máxima do seu poder de computação. Nada há de mais difícil e complexo de animar do que o movimento da água. Acontece que em ‘A Viagem de Arlo’, não só há um rio como este tem um papel essencial. É no rio que o Arlo perde o pai logo no início. É o rio que o arrasta para longe de casa. E nós queríamos ter aquele rio, sentir a natureza a respirar. Fomos fazendo testes nestes últimos dois anos. E ganhámos o rio, o vento que faz mexer as folhas das árvores. Ganhámos um filme que não se esqueceu da realidade.”

O Expresso viajou a convite da Disney