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Adele abre guerra entre Rock in Rio e Everything is New

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Concertos marcados para os mesmo dias são a primeira de muitas batalhas

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Poucos terão reparado que o anúncio dos concertos de Adele em Lisboa fez coincidir a data de um dos espectáculos com o segundo dia edição de 2016 do Rock in Rio. Aquela que é a maior artista do mundo da atualidade vai pisar pela primeira vez um palco português precisamente no mesmo fim de semana de um dos maiores eventos de música em Lisboa. Portugal terá um mercado assim tão grande para os consumidores de concertos?

Sem qualquer aviso prévio, através de um vídeo hilariante, Adele anunciou ontem as datas da sua primeira grande digressão. Com um mapa da Europa ocidental a servir de cenário e armada com um ponteiro, ela lá vai apontando os países a quem coube a sorte de receber um dos seus concertos. O périplo começa em casa com o Reino Unido, segue-se Irlanda, Suécia, Noruega, Dinamarca, Alemanha, Suíça e, por fim, Portugal. Lá estamos nós uma vez mais no mapa das grandes estrelas da música popular. Entre os grandes, portanto.

O vídeo não especificava as datas. Essas estavam reservadas para o site oficial da artista que, durante esta semana, está a bater todos os recordes de vendas de discos. Desde que foi lançado, na última sexta-feira, o álbum “25” tornou-se um fenómeno, e dias houve em que chegou a representar mais de 40% de toda a música gravada vendida no planeta terra. Adele contrariou todas as expectativas – recusou estar em nas plataformas de streaming com exceção do Pandora – e conseguiu tornar o seu álbum no disco mais vendido de sempre na primeira semana. Isto sucede numa altura em que a indústria discográfica ainda está longe de se encontrar refeita de uma crise que já lavra há década e meia.

A sua digressão era por isso das mais esperadas, até porque Adele nunca havia realizado nenhuma tournée digna desse nome. O facto de Portugal fazer parte dessa digressão é façanha que deve ser registada. Vale sempre a comparação com nuestros hermanos, que terão direito a apenas um espectáculo (em Barcelona), ou com a Áustria, Polónia, Finlândia ou Grécia que vão ficar de fora. Depois da cómica apresentação, em modo de vídeo viral, era possível conhecer através do site oficial as datas em que Adele visitaria, pela primeira vez, Portugal. 21 e 22 de maio pode ler-se no rol que ainda compreende concertos na Escócia, Itália, Holanda e Bélgica, num total de 36 concertos entre 29 de fevereiro e 13 de junho.

Sucede que uma dessas datas coincide com o primeiro fim de semana do Rock in Rio, que em 2016 acontece a 20 e 21 de maio. O Rock in Rio Lisboa é um dos maiores festivais à escala mundial. Pegue-se em qualquer métrica: número de espectadores, valor do cachet dos artistas, patrocínios angariados, orçamento da produção. Fará por isso todo o sentido perguntar se é racional que dois acontecimentos desta envergadura estejam agendados para o mesmo período. Existirá, em Portugal, procura para tanta oferta? E o falhanço (bater na madeira) de um do outro evento poderá ter consequências para a promoção de grandes concertos de música em Lisboa?

Na guerra, já se sabe, não é a racionalidade que impera. E as leis da concorrência conduzem a lutas, por vezes sem quartel, entre os vários competidores na disputa do mercado. Diria que isso é natural, senão mesmo saudável. O episódio Adele, contudo, pode ser apenas o primeiro capítulo de várias batalhas que poderão acontecer no mercado dos espectáculos em Portugal. Neste momento, envolve a Everything Is New, responsável pelo segundo maior festival que acontece em Portugal como é o NOS Alive, e o Rock in Rio. Mas todos os outros intervenientes neste mercado, como a Ritmos & Blues ou a Música no Coração, serão, de uma maneira ou de outra afetados.

Por estes dias, torna-se claro que o modelo de negócio do Rock in Rio, mais assente na venda de patrocínios do que na venda de bilhetes, começa a sofrer alguma erosão. Ora porque as empresas patrocinadoras, agora que passou o efeito novidade, começam a não disponibilizar os mesmos recursos; ora porque a programação baseada nas maiores estrelas do momento se começa a revelar um custo por vezes insuportável para as suas contas. Isto pode implicar, num futuro não tão longínquo, um retraimento nos artistas contratados. Mais importante, pode também colocar em causa as datas em que o Rock in Rio habitualmente tem lugar.

Estas mudanças, se algum dia acontecerem, funcionarão para os festivais em Portugal como um tremor de terra de proporções superiores ao terramoto de 1755. Pelo menos para aqueles que promovem os maiores eventos de música. Lá chegará o seu tempo. Em 2018, voltamos a falar.

Miguel Cadete escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras