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Rufus Wainwright. Duas noites entre a ópera e canções pop

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Esta sexta e sábado o canadiano Rufus Wainwright regressa a Lisboa, desta vez para se apresentar no palco do Grande Auditório da Gulbenkian. A sua ópera "Prima Donna" integra um programa que não se fecha contudo nesta sua nova experiência, como ele mesmo contou em conversa com o Expresso

Depois de 17 anos de carreira entre a música pop, com sete álbuns gravados em estúdio e três discos ao vivo, Rufus Wainwright acaba de lançar, pela Deustche Grammophon, uma gravação da sua ópera “Prima Donna”, estreada durante o Manchester International Festival, em 2009. A história desta ideia começou há uns anos, quando Rufus “estava a ver umas entrevistas com Maria Callas, feitas por Lord Harwood” e então imaginou “uma ópera sobre um dia na vida de uma personagem como esta”. Pensou nas personagens e sobre “que tipo de abordagem musical e filosófica poderia fazer”.

Musicalmente “Prima Donna” mostra maior afinidade para com óperas de finais do século XIX do que com obras recentes de compositores contemporâneos.

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“Sou um amante da ópera romântica, e em particular de Verdi... Mas também de Wagner ou de Puccini... São compositores que definiram a minha paixão pela ópera. Mesmo gostando de Alban Berg, de Messiaen e de compositores mais contemporâneos como Philip Glass, sou contudo um romântico”, confessa em conversa com o Expresso. Rufus explica ainda que, “ao compor, as linhas surgiram como se fossem pelo ponto de vista de uma prima donna clássica, porque esta era a música que cantavam”, lembrando ainda que “Maria Callas não cantou Benjamin Britten ou Janacek”. Sentiu-se, por isso, “à vontade para perseguir esse ideal, que ainda por cima faz sentido em francês, a língua em que é cantada”.

Em setembro iniciou uma nova etapa na vida de “Prima Donna” quando, antes mesmo de lançado o disco, começou a apresentar o espetáculo que, nos dias 27 e 28, apresentará em Lisboa, na Fundação Gulbenkian. A digressão deu os primeiros passos “na Acrópole, em Atenas, no dia em que se assinalava a morte de Maria Callas, o que foi um acaso”, admite. A Lisboa o que traz agora é esse mesmo espetáculo baseado na ópera. “É um serão em duas partes. A primeira envolve grandes momentos da ópera, acompanhados por um filme de Francesco Vezzolli, com a Cindy Sherman como uma prima donna. Esse é o lado multimédia do espetáculo. Depois, na segunda parte, eu entro para cantar com a orquestra e os cantores e faço algumas das minhas canções pop. É uma noite cheia de variedade.”

Apesar de já o termos visto a cantar sem um microfone, por uma vez, no Coliseu dos Recreios, e de ter interpretado uma ária de Bizet num disco de David Byrne, Rufus Wainwright não pensa de modo algum tornar-se um cantor lírico. E em palco continuará a usar um microfone: “Posso fazê-lo ocasionalmente como um número, que depende muito da acústica da sala. Mas não canto de modo algum com o volume de voz de um cantor de ópera. E essa é até mesmo uma das razões pelas quais gosto de trabalhar com eles. Surpreendem-me sempre”, reconhece.

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O espetáculo deixa assim claro que esta experiência não fecha a porta a nenhuma das facetas pelas quais tem desenhado a sua carreira. “A música pop é o meu pão com manteiga. A pop são as minhas pipocas. Gosto de cantar rock’n’roll, gosto de fazer atuações para pessoas mais jovens e isso nunca vai desaparecer”, diz o músico, que acredita “que a qualidade deve estar acima da quantidade”. Os dois mundos estão todavia mais ligados do que nunca, cada qual aprendendo com o outro. “Tiro lições de um lado para o outro”, defende. E com a ópera ganhou uma nova “disciplina e dedicação que são únicas”. Para si estes são “dois mundos que precisam muito um do outro”. Após o trabalho em “Prima Donna” concluiu ainda que “a ópera implica uma experiência em grande escala. Há as personagens, a orquestra, a necessidade de trabalhar com um maestro, um encenador... É uma grande máquina a funcionar e é preciso seguir o que está a acontecer, entrar no fluxo dos acontecimentos... Torna-se assim uma experiência até menos intelectual. Há um lado instintivo no tomar das decisões”.

Rufus crê que “o que é raro” em si “é o facto de ser ao mesmo tempo compositor e cantor”. É uma relação “invulgar”. Mas o facto de conhecer as várias linguagens faz com que saiba “comunicar com um cantor de ópera”. E, de facto, o filme que documentou o making of de “Prima Donna” mostrou-o, nos ensaios, em franco entendimento com os cantores.

Esta ópera foi, para si, uma estreia num outro universo. Mas terá em breve continuidade. A próxima ópera “é sobre o imperador Adriano, é passada em Roma e explora a relação do imperador com Antínoo e também aquela questão eterna que pode opor o amor ao dever”.

Rufus vai ainda regularmente à ópera... Ao mesmo tempo que passa por festivais de música rock... E confessa: “Ir à ópera para mim é como ir à igreja, é algo que me emociona e tento uma regra: se não choro pelo menos uma vez é porque não funcionou...”