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1939-2015. Beatriz da Conceição, a fadista do sentimento, da beleza, do silêncio

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Era uma das últimas grandes senhoras do fado. Faleceu esta quinta-feira no Hospital de São José, em Lisboa. Ficará para a história como a fadista do sentimento contido, do silêncio e da beleza do verso

Créditos: ARQ. A CAPITAL / IP

Nasceu no Porto a 21 de agosto de 1939. Mas é em Lisboa que inicia a carreira. De visita à capital, na década de 60, passa pela Casa de Márcia Condessa e experimenta cantar um fado. Márcia não hesita e convida-a desde logo para ficar. Já não regressa à terra natal. "Pomba Branca" e "A Vida que Eu Sofro em Ti", dois dos seus grandes temas, da autoria do amigo Vasco de Lima Couto, elevaram-na ao estatuto máximo da canção Património da Humanidade. Mas é talvez com os temas de Ary dos Santos e Fernando Tordo, "O Fado da Bia" e "Meu Corpo", que alcança um estatuto à parte.

Bia para os amigos e D. Bia para os mais novos, recebeu em 2008 o Prémio Amália Rodrigues de Carreira. Fez parte dos elencos de diversas casas de fado, de A Viela, Adega Machado, Nonó, aos célebres Os Ferreiras, ou Taverna do Embuçado e Senhor Vinho.

Sempre atenta ao que de novo se fazia no fado, era frequentatora assídua de noitadas em Alfama, onde não havia quem não lhe prestasse homenagem, ouvindo-a com comoção e escutando-lhe os conselhos. Vaidosa, de cabelos sempre arranjados, vestida a rigor, mostrava uma altivez segura, a de quem trilhou sozinha um caminho absolutamente genuíno, particular e raro num mundo de contornos nem sempre fáceis. Atravessou as décadas de sombra do fado e fincou o pé às cedências, criando um reportório próprio. Teimosa, mau feitio, como gostava que a considerassem, tinha alma generosa. Camané, Carminho, Aldina Duarte, Ana Moura, Helder Moutinho, Raquel Tavares sabem-no bem e bem o testemunham no documentário que em 2012 Diogo Varela e Silva lhe dedica.

Uma das suas últimas presenças em palco foi num espetáculo de Ana Moura no Coliseu de Lisboa, em 2013.