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A comédia do medo e do preconceito numa Paris multicultural

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Ao longo de cerca de uma hora, Bruno Nogueira e Miguel Guilherme conversam e desconversam no átrio das escadas do seu prédio. “O Meu Vizinho é Judeu” é a nova comédia escolhida pela encenadora Beatriz Batarda a pensar nos dois atores. A peça estreia estreou quarta-feira no Casino Estoril. O Expresso falou com os três e apresenta excertos de algumas cenas

São apenas duas personagens, mas é todo um mundo de preconceitos e estigmas que será transportado para o relacionamento que irão desenvolver a partir das suas conversas ocasionais no átrio das escadas do seu prédio.

“O Meu Vizinho é Judeu” é uma comédia que vive da forma como a desconfiança, o medo e a ignorância se revelam nesse espaço comum, de transição entre a esfera pública e privada, dentro do contexto de uma metrópole gigantesca.

A comédia foi escolhida pela encenadora Beatriz Batarda, a partir do desejo de Bruno Nogueira e Miguel Guilherme de voltarem a contracenar, mas remete para um contexto algo longínquo dos portugueses, o das tensões existentes dentro de uma Paris multicultural, o que acabou por ganhar uma infeliz e inesperada atualidade por altura da sua estreia no auditório do Casino Estoril esta quarta feira.

Os judeus “são emproados” e “cruéis para com os palestinianos”, já se sabe... Ao longo de cerca de uma hora, o humor e ironia surge em torno do modo como essas duas personagens espelham o modo tendemos a nos relacionar e afirmar perante um Outro desconhecido, a partir de uma série de ideias simplificadoras.

Neste caso é em torno do judaísmo, mas poderia ser também sobre o racismo, machismo, homofobia, ou outra qualquer forma de discriminação. Algo sobre o qual os atores e a encenadora dizem ser importante, sobretudo agora, mantermos a capacidade de rir.



O convite dos dois atores para que Beatriz Batarda encenasse a peça, levou-a a aventurar-se no território da comédia, a comédia de enganos, num contexto e registo muito francês. Jean-Claude Grumberg, francês - autor de mais de 50 peças e argumentista de realizadores como François Truffaut e Costa-Gravas - levou para a comédia o peso da perseguição milenar aos judeus, nomeadamente a ocorrida durante o holocausto do qual o seu pai foi vítima, transpondo-a para os tempos da Internet, onde as relações humanas, com os desejos de aproximação, os encontros e desencontros , tendem a ser estabelecidas numa base cada vez mais imediatista. A peça encontra-se atualmente em cena em Paris, numa altura em que o impacto dos atentados de 13 de Novembro paira sobre a cidade

Bruno Nogueira e Miguel Guilherme são vizinho de cima e vizinho de baixo. As suas personagens não têm nomes sequer. Um é ignorante, preconceituoso e cheio de ideias feitas, que lhe são transmitidas pelo que a sua mulher vê na Internet. O outro é judeu, ou melhor um ateu de ascendência judaica, habituado a lidar com todos os preconceitos que lhe são frequentemente associados e a driblar o jogo dos estigmas. O seu relacionamento é desenvolvido em torno do modo como se vão enquadrar entre todas essas gavetas de rótulos identitários, em movimentos de retração e atração que irão conduzir o enredo para um desfecho inesperado.