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Em Belmonte, “terra de judeus”, não há guerra entre religiões. Mas discutiu-se a guerra

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Foi um dos temas de debate no festival literário de uma das vilas portuguesas onde o peso da memória é mais forte e mais terrível

Luís M. Faria

Jornalista

No museu judaico de Belmonte há uma parede com os nomes de dezenas de vítimas locais da Inquisição. Têm idades que vão da infância aos 87 anos. A alcunha de vários é referida (o Bulha, o Bajarda) mas excetuando isso os nomes são perfeitamente comuns: Manuel, Simão, Nunes, Coelho... O facto de ainda hoje os encontrarmos constantemente reforça a impressão que a lista nos provoca. Eram pessoas como outras, mas tiveram o infortúnio de pertencer a um grupo que foi perseguido durante séculos. A parede não diz o que aconteceu a cada um.

Essa vila próxima da Covilhã, situada no topo de um monte e com a serra da Estrela visível ao longe, tinha uma localização suficientemente remota para servir de refúgio a uma comunidade que não dispunha de muito mais lugares para assumir e praticar a sua religião. Ao que parece, nunca deixaram de existir ali. Ainda hoje haverá uns sessenta judeus no local, fora todos os outros que vêm de visita ao longo de todo o ano. Quando saímos do museu ia a entrar um grupo de israelitas a falar hebraico. Nas ruas e num restaurante vimos pessoas com o típico chapéu judeu que pareciam ser residentes. A sinagoga local, moderna e um pouco à margem do centro, funciona todos os dias, embora não esteja de porta aberta, ao contrário da igreja matriz, que ocupa um ponto proeminente na vila.

Foi aí que no fim de semana teve lugar o primeiro debate da Diáspora, o Festival Literário de Belmonte, quase novinho em folha. A edição deste ano foi a segunda. Conforme alguém nos explicou, os festivais literários são particularmente apetecíveis neste momento.Eles são mais baratos do que outros tipos de evento cultural e atraem determinados estratos de público. Isso talvez ajude a explicar porque têm proliferado nos últimos anos. Não será a única razão - também é relevante haver quem se especialize em organizá-los, e até um certo fator de emulação - mas não há dúvida que constituem uma forma especialmente rentável de por no mapa noticioso lugares cheios de potencial turístico que andam esquecidos.

As humilhações do Islão

Além da ampla paisagem que se vê do alto, em especial do seu castelo, Belmonte oferece ruas e casas antigas, museus e monumentos, e sobretudo memória. Achando-se esta, inevitavelmente, ligada à religião, o debate inicial do Diáspora, moderado pelo padre Carlos Lourenço, ocupou-se de tensão e coexistência entre as três religiões do Livro, em particular entre o cristianismo e o Islão. A oportunidade do tema foi reforçada pelos recentes eventos em Paris e no Médio Oriente, e a abundante audiência sentada nos bancos da igreja de Santiago refletia isso.

Jaime Nogueira Pinto falou da rápida expansão inicial do Islão e do seu avanço pela Europa, antes das humilhações coloniais que passou a sofrer a partir do século XIX (referência a dois textos de Eça de Queirós sobre o renascimento moderno da jihad) e do fim do império otomano com todas as suas sequelas. As diversas guerras com Israel representaram outras tantas humilhações. Já no último quartel do século XX, o Ocidente apoiaria a luta islâmica contra os soviéticos no Afeganistão, antes de lançar a primeira guerra no Iraque e depois a segunda. Um erro, segundo Nogueira Pinto. Ele antes sugerira que conflitos ditos religiosos são guerras pela defesa de uma identidade social. A sua intervenção, seguida por outra de Pedro Mexia que aludiu a versões radicais do cristianismo (o calvinismo entre elas) e pela do jornalista Nuno Tiago Pinto, deram origem a uma discussão com membros da audiência que visivelmente haviam passado tempo a meditar naqueles assuntos, e não queriam aceitar como bom ou suficiente tudo o que ali lhes era dito sobre eles.

Outro lugar de memória: o Brasil

Os debates dos dois seguintes tiveram uma natureza mais literária. No sábado à tarde, o Museu Judaico recebeu Inês Pedrosa e Andréa Zamorano para uma conversa sobre Portugal e o Brasil. Foi um encontro animado, com as duas romancistas - uma delas brasileira e a residir em Portugal há duas décadas, a outra uma portuguesa que vai com frequência ao Brasil e tem agora um romance ("Desamparo") sobre uma emigrante que regressa a Portugal - a entremearem notas biográficas com disquisição de expressões linguísticas dos dois países. O moderador Pedro Vieira acompanhou bem o ritmo e acrescentou uns toques de humor, mas nem ele pôde evitar que a discussão fosse parar ao acordo ortográfico e ao impasse argumentativo geralmente inevitável quando se fala do assunto. Para que conste, Zamorano é a favor, Pedrosa contra.

No fim da sessão, Mário Cláudio resumiu bem o debate ao dizer que se trata de algo insolúvel, pois é uma questão afetiva. A seguir deu ele próprio uma entrevista biográfica ao seu antigo aluno Tito Couto. Entre outras coisas, contou que ao escrever sobre a sua infância percebeu pela primeira vez que a presença permanente de medos e da morte o tinha impedido de ser feliz nessa fase da vida. Depois referiu o tempo da universidade, os tabus, a guerra colonial ("a nossa simpatia era com os tipos que nos queriam matar"), a estadia em Londres, a escrita à mão vs computador, as intervenções no Facebook (tudo em maiúsculas, não para gritar mas por motivos relacionados com a vista), as experiências como professor (perceção da uma ignorância inicial cada vez maior entre os estudantes universitários).

A relação entre pátria e língua

A terminar a tarde, os escritores Tiago Patrício e Maria Manuel Viana abordaram aquilo a que se chamou o mercado comum das ideias. Entre outros aspetos, foi discutida a relação entre língua e pátria, e em que medida aquela corresponde, ou não, a esta.

O domingo abriu com a inauguração de uma exposição de ilustrações de Afonso Cruz, também ele romancista. Depois houve uma visita ao Museu dos Descobrimentos, e o festival transitou para o Ecomuseu do Zézere, antes de Tânia Ganho e João Paulo Cuenca falarem de cidades literárias. Mais uma vez, uma portuguesa e um brasileiro, na vila que viu nascer Pedro Álvares Cabral, sobre quem já não fica bem hoje afirmar que "descobriu" o Brasil, pois afinal, conforme alguém lembrou, o Brasil já lá estava e tinha gente...

A Diáspora terminou com uma conferência sobre a relação entre criação contemporânea e património, dada pela antiga ministra da cultura Gabriela Canavilhas. Como ela regressou a Lisboa no mesmo comboio que vários jornalistas, a conversa sobre Portugal e o Brasil – e não só – acabou por ter um prolongamento igualmente animado.