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Há 40 anos, em novembro...

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MODERADOS. Vasco Lourenço, Marques Júnior e Ramalho Eanes em 1975 FOTO RUI OCHÔA

Em 1975 Portugal realizou as primeiras eleições democráticas, mas também esteve à beira da guerra civil. Viagem no tempo para recordar o ano das nacionalizações e das intentonas de 11 de março e 25 de novembro

A sugestão desta semana pareceu-nos oportuna para o tempo que se vive. Estamos a meio de novembro, a dias de assinalar a passagem de quatro décadas sobre a data que encerrou simbolicamente o Processo Revolucionário em Curso (PREC) e à qual a obra em causa vai buscar inspiração para o título. Por outro lado, vivemos dias em que as quatro letrinhas da sigla PREC são evocadas para falar da atual situação política. Resta saber com que pertinência.

O rescaldo das eleições legislativas de 4 de outubro último e a subsequente formação de Governo têm sido confusos. A fratura esquerda-direita parece mais funda do que nas últimas décadas e está em funções um Executivo (o XX Constitucional) que, rejeitado o seu programa pela Assembleia da República, se arrisca a ter duração mais curta do que qualquer dos seis Governos Provisórios havidos entre o 25 de Abril de 1974 e o período constitucional. Ainda assim, na génese deste polémico estado de coisas está o fim (em que grau se verá) de um cisma que marcou esse longínquo 1975: o que se escava entre o Partido Socialista e as forças políticas à sua esquerda.

É interessante, pois, recuar no tempo e saber como foi aquele ano, pela mão de jornalistas de duas gerações: António Luís Marinho e Mário Carneiro. Não consta que estejam em curso ou planeadas ocupações de terras ou nacionalizações de empresas, como então se viu. Tão-pouco parece Portugal estar à beira da guerra civil, como então esteve. Há, sim, um recrudescimento saudável do debate político, que o tom acirrado de alguns dos seus protagonistas (esse, sim, quase PRECiano dos dois lados da barricada) não deveria abafar.

Uma obra jornalística

Organizado por meses e prefaciado – em 29 páginas, com detalhe e profusão de referências – pelo então tenente-coronel António Ramalho Eanes, um dos atores principais do enredo da vida real que foi 1975 (e, por essa via, primeiro Presidente da República democraticamente eleito), o livro destina-se ao público em geral, não exigindo enorme conhecimento prévio da história da Revolução dos Cravos e do que se lhe seguiu. Segue o estilo do antecessor “1974 – o ano que começou em Abril”, publicado no ano passado e dedicado ao ano do golpe dos capitães.

Da lavra de jornalistas, “1975 – o ano que terminou em Novembro” guarda o tom do ofício dos seus autores. Em prosa direta e factual, passa em revista os acontecimentos políticos mas também outros aspetos que ajudam a compreender como era a vida portuguesa naquele tempo. A apoiar o texto há inúmeros recortes de jornais e revistas (com o Expresso, o “Diário de Notícias” e a “Flama” como fontes privilegiadas), fotografias e frases que fizeram época, como aquela em que Álvaro Cunhal garante à jornalista italiana Oriana Falacci que nunca haverá em Portugal uma democracia como as europeias.

Marinho e Carneiro recorreram, ainda, a relatórios desclassificados dos serviços secretos norte-americanos (CIA) e aos arquivos do então secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger. Convém não esquecer que o nosso país foi preocupação para e palco de intervenções e conspirações várias por parte das superpotências em conflito na Guerra Fria.

Figuras como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Sá Carneiro, Melo Antunes, Vasco Gonçalves, Salgado Zenha ou Otelo Saraiva de Carvalho desfilam pelas páginas desta obra, a par com siglas, símbolos e instituições dos quais alguns desapareceram (AOC, FEC(m-l), UDP, FSP, Conselho da Revolução) e outras permanecem (PS, PPD, CDS, PCP, mas também PCTP/MRPP). Para lá das semelhanças e diferenças (mais estas do que aquelas, em todo o caso), e também por causa de umas e outras, também estão em 1975 algumas das sementes do que é este fim de 2015.

“1975 – o ano que terminou em Novembro”, de António Luís Marinho e Mário Carneiro, Temas & Debates/Círculo de Leitores, 548 páginas, €19,80

“1975 – o ano que terminou em Novembro”, de António Luís Marinho e Mário Carneiro, Temas & Debates/Círculo de Leitores, 548 páginas, €19,80