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“007 Spectre”? Oh, dear...

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007 nas neves austríacas, 
às voltas com uma “Madalena 
proustiana” (Léa Seydoux)

Daniel Craig continua a virilizar o agente secreto, mas a história da saga, mesmo a recente, já teve melhores etapas

Não acredito que haja coincidência mas a verdade é que o novo “007” que agora se estreou arranca num Dia dos Fiéis Defuntos (que ainda esta semana passou), e logo no México, em que a data, festejada febrilmente, é conhecida como o Dia dos Mortos. Num filme sem “Bond girls”, já que a “girl” que lá está, lamento, de “Bond” nada tem, James começa a espalhar o pânico na capital federal mexicana. Não sabemos ainda que a lendária M, há tantos anos interpretada por Judi Dench, foi assassinada e substituída por um Ralph Fiennes impecável. Não sabemos, ainda, que Bond se encontra em terra de tequilha e sombreros para vingar M por sua conta e risco — e logo a meter a pata na poça numa fase crítica, já que um burocrata cretino das Secretas Britânicas anda a esfalfar-se para acabar com os “zero zeros”...

Atrás de uma máscara da morte, está Daniel Craig, prestes a enfrentar uma organização criminosa, mabusiana, que tem história na série: a Spectre. A primeira cena de ação, no México, recorda a última de “Blackhat” (isto, claro, até nos darmos conta que Sam Mendes jamais chegará aos calcanhares de Michael Mann) e é conseguida. Se o é, deve-o ao agente viril que Craig remoldou, a este Bond que agora, sem gentilezas, é capaz de tudo se for preciso, até arrancar olhos. A sua determinação desafia toda a incredulidade, todas as leis da aerodinâmica e, já agora, desafia também a canção do genérico inicial (de Sam Smith), uma estucha horrorosa.

Está 007 a tornar-se sério? E isso é bom ou nem por isso? Com um orçamento das arábias, o filme salta do México para Londres, dali para Roma (curto papel de Monica Bellucci) e para uma pobre perseguição automóvel às portas do Vaticano, depois Tóquio, até que o nosso herói se vai cobrindo de maldade — e até lhe chamam assassino. De salto em salto, Craig é sempre muito forte a manter esta máscara, por mais “papagaio de papel a dançar num furacão” que pareça. E, no entanto, cedo chegam os problemas, na Áustria e, mais tarde, naquele souk de Tânger, com a personagem de Léa Seydoux. Quem é esta Madeleine Swann? Quem teve a triste ideia de articular a Madeleine de “Vertigo” com delírios proustianos, e logo num filme chamado “Spectre”? Mais: este pãozinho sem sal é “Bond girl”, é heroína ou vilã, ou tão-só — desculpem — uma francesa chata com vontade de filosofar?

Madeleine é uma personagem falhada. E os problemas não se ficam por aqui porque “Spectre”, destravado, começa depois a pedir transcendências de pacotilha que, para mim, são mais defeitos de argumentista a tapar buracos do que outra coisa. É que nem o vilão de serviço, um Christoph Waltz ainda a macaquear o seu oficial nazi de “Sacanas Sem Lei”, consegue convencer.

Veredicto: “Spectre” é um Bond sofrível que Craig mantém nos patamares da decência, não mais do que isso. A James, deixamos-lhe um keep trying. Gostámos de o ver. Mas não nesta colheita 2015, que às tantas quer copiar Kubrick e acaba a parodiar “Exterminador Implacável”, tornando-se, como dizer, uma coisa um tanto desalmada...


007 SPECTRE

De Sam Mendes, com Daniel Craig, Ralph Fiennes, Léa Seydoux, Christoph Waltz (Reino Unido/EUA), Ação/Thriller M/12