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COMPETIÇÃO. “11 Minutes”, de Jerzy Skolimowski, está na secção competitiva do festival

D.R.

Os destaques do nono Lisbon & Estoril Film Festival, que começa esta sexta-feira e vai decorrer até ao próximo dia 15, em vários cinemas de Lisboa e do Estoril e Cascais

O Lisbon & Estoril Film Festival (LEFFEST) — cuja nona edição decorrerá entre este sexta-feira e o próximo dia 15 de novembro — volta este ano a apresentar uma grelha de programação que se arrisca a colocar sérios problemas de agenda aos cinéfilos. De facto, entre anteestreias, retrospetivas (das obras de Jonathan Demme, de Barbet Schroeder…) e masterclasses, o que não falta, aqui, são motivos de interesse.

Sinal disso é, sem dúvida, a secção competitiva do festival, onde, uma vez mais, os novos trabalhos dos veteranos (como “11 Minutes”, de Jerzy Skolimowski, ou “Chant d’Hiver”, de Otar Iosseliani) convivem lado a lado com os primeiros ensaios dos estreantes (como “Montanha”, de João Salaviza, ou “Kaili Blues”, de Gan Bi).

DESPLECHIN. Cena de “Trois Souvenirs de ma Jeunesse”, do realizador francês

DESPLECHIN. Cena de “Trois Souvenirs de ma Jeunesse”, do realizador francês

Do conjunto de treze títulos presentes a concurso, destacamos um dos filmes que — apostamos — mais opiniões dividirá. Falamos de “Trois Souvenirs de ma Jeunesse”, o mais recente trabalho do francês Arnaud Desplechin (“Esther Kahn”, “Reis e Rainha”). As souvenirs às quais se alude são as de Paul Dedalus (Mathieu Amalric), personagem cujo nome evoca imediatamente o do Stephen Dedalus do “Retrato do Artista Quando Jovem”, de Joyce, e que — recordemo-lo — protagonizava já uma das primeiras obras do cineasta (“Comment Je Me Suis Disputé…”, de 1996). Neste caso, Dedalus é um diplomata que, nas sequências inaugurais do filme, abandona o Tajiquistão para regressar à sua França natal. Trata-se de um regresso a casa que levará a personagem a perder-se no labirinto da sua memória, ou melhor: a iniciar um longo movimento de rememoração das principais etapas da sua infância e juventude (ao longo das quais Dedalus será sucessivamente interpretado por Antoine Bui e Quentin Dolmaire).

Não será preciso esperar muito, todavia, para perceber que esta narrativa em flashback quer chegar depressa aos últimos anos da adolescência do protagonista, marcados pelas suas constantes idas e vindas entre Roubaix (onde vive com a família) e Paris (onde estuda na universidade). Neste quadro, o que se vê? Antes de mais, a recriação de um tempo: o da década de 80, anunciada por uma série de referências dadas em nota de rodapé (a notícia da morte de Jacques Lacan…), mas também por uma banda sonora permeável ao rap dos De La Soul. Sobre esta tela de fundo, Desplechin projetará, sobretudo, a crónica da relação de Dedalus com a sua namorada (Lou-Roy Lecollinet), uma estudante do liceu de Roubaix com a qual ele só consegue estar aos fins de semana. Haverá ciúmes e traições, separações e reconciliações, e cartas lidas pelas personagens de frente para a câmara, numa tentativa de atenuar a distância que entre elas se interpõe.

Dir-se-á que nada de próprio diferencia esta relação de todas as outras, mas o objetivo do cineasta passa justamente pela possibilidade de pôr em relevo uma série de episódios banais, que só se distinguem pelo facto de terem sido apaixonadamente vividos. Porém, de modo a fazê-lo, Desplechin lançará mão de uma realização que, desdobrando-se em maneirismos (aberturas e fechos de íris, split-screens…), acabará por perder de vista o essencial: as personagens, que nos parecem sempre demasiado chiques, literárias e rígidas para serem verdadeiras. Chegados ao final, ficamos com a memória de um exercício de virtuosismo, que talvez seja demasiado virtuoso para o seu próprio bem.

SYBERBERG. O LEFFEST preparou uma retrospetiva da obra do realizador alemão

SYBERBERG. O LEFFEST preparou uma retrospetiva da obra do realizador alemão

STEFFEN KUGLER

No capítulo das retrospetivas, colocamos à cabeça a que o LEFFEST 2015 dedica à obra de Hans-Jürgen Syberberg. Momento capital do novo cinema alemão dos anos 60 e 70, o trabalho de Syberberg (realizador que desde há muito se encontra arredado do circuito comercial) pouco tem a ver, no entanto, com os de Fassbinder, Wenders ou Herzog. Com efeito, o único projeto comparável ao seu no âmbito do cinema alemão do seu tempo será, porventura, o de Werner Schroeter, que, como Syberberg privilegia claramente o antinaturalismo e a estética romântica, concebendo também o cinema como o lugar da síntese das artes plásticas, da literatura, do teatro e da música. Que o mesmo é dizer: como o lugar da configuração da obra de arte total (a Gesamtkunstwerk) com a qual Wagner havia sonhado.

De entre os cinco filmes que compõem a retrospetiva do LEFFEST, a nossa chamada de atenção vai, inevitavelmente, para os dois primeiros tomos daquele que foi o trabalho maior do cineasta: a sua “trilogia da Alemanha”, cujo último volume — o tão notável como controverso “Hitler – Um Filme da Alemanha” (1977) — não se encontra infelizmente incluído na programação do festival. Na verdade, só com o acrescento dessa ‘obra-maratona’ (“Hitler” tem cerca de sete horas e meia de duração…) ganham pleno sentido os ‘estudos preparatórios’ que o precedem: “Ludwig, Requiem Para um Rei Virgem”, de 1972, e “Karl May”, de 1974 (que serão ambos apresentados in loco pelo cineasta). Entenda-se: a trilogia de Syberberg constitui uma tentativa de repensar a História da Alemanha de finais do séc. XIX/inícios do séc. XX, por via da recriação do trajeto de três figuras megalómanas (o rei Luís II da Baviera, o escritor Karl May e o próprio Führer) que, na sua sequência, traçam uma linha que vai do fim do romantismo ao fim do nazismo, passando pela génese da cultura de massas.

Não se julgue, contudo, que o exercício de reconstituição ao qual Syberberg aqui se atira deva alguma coisa ao realismo. A prová-lo está, sobretudo, o seu “Ludwig”, que, fazendo tábua rasa da fidelidade histórica, vai sobrepondo figuras e referências pertencentes a diferentes tempos. Efetivamente, neste filme construído à base de longos planos fixos (cuja escala se deixa dominar por uma ‘distância operática’), nada obsta a que Wagner cite Brecht, a que um soldado nazi dance com Hitler, ou a que o castelo de Luís II seja assombrado pelo som do genérico de “Lone Ranger”… Estamos perante um processo de miscigenação que, em última análise, pretende fazer emergir o destino da Alemanha como o verdadeiro protagonista do filme – como se, na biografia de Luís II, estivessem já embrionariamente contidas as posteriores etapas da História do país. Assim, longe de redundar num biopic, “Ludwig” desdobra-se como um requiem, como uma elegia (wagneriana, hiperteatralizada) pelo fim de um tempo: aquele que, na singularíssima leitura de Syberberg, antecedeu o advento da civilização industrial.

Ora, para dar corpo a esse lamento, o cineasta reduzirá a biografia do monarca a uma sucessão de quadros descontínuos e fragmentários, onde os episódios históricos se misturam com sonhos, pesadelos, memórias e profecias (maioritariamente encenadas num estúdio repleto de enormes telões pintados, que, entre o barroco e o kitsch, vão forjando os interiores e os exteriores dos luxuosos castelos de Luís II). O resultado – como facilmente se adivinhará – é uma ‘obra patológica’, sempre em flirt com o excesso e a desmesura, que só poderia terminar como começou: em delírio. Descobri-la ou redescobri-la (a ela e à totalidade do cinema de Syberberg) não é uma opção: é uma exigência.