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Quebrar o silêncio para virar a página

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Nicole, agora com 20 anos, foi abusada sexual e fisicamente pelo ex-namorado quando tinha 11 anos. Engravidaria e ficaria presa durante um ano em casa da família do agressor

José Sarmento Matos

“Há uma grande diferença entre o presente e o passado. Há uma grande diferença entre ser feliz e estar em sofrimento.” A constatação, aparentemente simples, foi proferida por uma jovem, vítima de abuso físico e sexual quando era apenas criança, e cuja história é agora retratada numa exposição de fotografia. “O Virar da Página” é o retrato da sua força de vontade e capacidade mudança – e de mais 29 pessoas que, como ela, viveram situações de violência e vulnerabilidade

Na pequena vila de Rabo de Peixe há famílias inteiras a viver dentro do mesmo espaço. Pais, mães, filhos, irmãos, cunhados, genros, netos. Numa dessas casas vive Nicole. Numa dessas casas viveu Nicole. Nicole já viveu uma vida inteira. Morava nesta vila piscatória dos Açores, a mesma onde voltou a nascer para uma nova vida. Com apenas 11 anos foi abusada sexual e fisicamente pelo então namorado, cinco anos mais velho. Aos 12 engravidou. E durante esse ano seria forçada a ficar em casa da família dele, que abusava dela e a obrigava a fazer trabalhos domésticos. Não podia sair de casa. Não podia falar com a sua família. Não tinha descanso. Batiam-lhe (por vezes até desmaiar), queimavam-lhe cigarros nos braços, não a respeitavam. Até ao dia.

Até ao dia em que a sua irmã, que desconfiava que alguma coisa não batia certo na ausência de Nicole, a conseguiu tirar daquele inferno. A ela e à filha de três meses. A jovem apresentaria queixa do ex-namorado, mas este seria apenas acusado por abuso físico – e não sexual. Anos depois, Nicole aprenderia a virar a página. O seu agressor continua à solta, mas vive agora na outra ponta de S. Miguel. “Há uma grande diferença entre o presente e o passado. Há uma grande diferença entre ser feliz e estar em sofrimento. Agora sou casada com alguém que me ama.” Aos poucos, Nicole descobriria o valor da palavra recomeçar.

Há uma grande diferença: repete uma e outra vez a jovem, agora com 20 anos. A mudança, a diferença, a história é retratada por José Sarmento Matos, com o apoio da APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, na exposição “O Virar da Página”, que inaugura esta quinta-feira (e que resulta de um projeto fotográfico que lhe valeu o prémio internacional de fotojornalismo“30 under 30”, patrocinado pela Magnum Photos). É, aliás, através da lente de José que contamos a história de Nicole.

Vozes de violência e de esperança

“O Virar da Página” são 30 histórias – ou retratos – de pessoas, de norte a sul do país, que sofreram crimes de violência doméstica, tráfico humano, stalking ou até que ficaram traumatizadas pela morte de alguém que lhes era próximo. Na sua maioria mulheres – no total, apenas três homens aceitaram contar a sua história.

José Sarmento Matos

Todas estas pessoas são vítimas. Todas foram (ou são) apoiadas pela APAV. Mas antes de serem vítimas, são pessoas. É isso que o fotógrafo pretende retratar. A pessoa para além da vítima. A vida para além da violência. A força para além do crime. A mudança. “Nunca olhei para aquelas pessoas como vítimas, mas como pessoas.” No meio de uma exposição ainda em construção, com as fotografias a repousar em cima das mesas à espera de serem expostas, José Sarmento Matos recorda o que o moveu na realização deste documentário fotográfico. “Deixei-as falar, contarem as suas histórias… E tive respostas curiosas, como o nome do projeto.” Várias referiam este ‘virar de página’, esta charneira entre o passado e o presente, evocando um acontecimento, dia ou instante que constituiu um ponto de viragem na sua vida.

Há um momento, em quase todas as vidas retratadas, em que alguém pediu ajuda. Ou em que essa ajuda veio ter com alguém. É este o primeiro passo para se conseguir virar a página. E é por isso que estas, mais do que retratos de violência, são histórias de esperança. “Queria mostrar mais o lado positivo das histórias de vida das pessoas, o lado esperançoso. E encontrei pessoas com uma força brutal, capazes de superar aquilo que eu achava que não era possível superar.” Mas isso por vezes não é suficiente, conta. “Há situações de vítimas que pedem ajuda, que mudam a sua vida, que acham que a sua vida está a mudar… Mas não são tomadas todas as precauções para proteger a vítima do agressor.” É preciso, pois, um maior acompanhamento às vítimas de violência, mesmo depois de estas pedirem ajuda – e, para isso, “é preciso que a justiça, polícia e outras instituições façam o seu papel. O que nem sempre acontece.”

Abrir as portas de casa

Nicole chega, nesse dia de outubro de 2014, acompanhada pelo marido. “Vinha toda vestida de cor-de-rosa, tinha um ar muito doce”, recorda José. A primeira conversa foi no espaço da APAV em S. Miguel – 90% das conversas começavam nestes centros da associação. “Eu não entrava logo em casa deles. Falava primeiro com eles na APAV para me conhecerem, perceberem por que é que eu queria fazer este projeto e eles, se quisessem, abriam-me as portas das suas casas.

João, de 44 anos, é vítima de violência psicológica e perseguido pela ex-mulher. Os riscos na porta de sua casa foram deixados por ela, recentemente, por ter tentado ir a casa dele e não o ter encontrado

João, de 44 anos, é vítima de violência psicológica e perseguido pela ex-mulher. Os riscos na porta de sua casa foram deixados por ela, recentemente, por ter tentado ir a casa dele e não o ter encontrado

José Sarmento Matos

Nesse dia a entrevista a Nicole durou 2h. “Foi uma conversa interessante, mas pesada. Agora podem ouvir-me contar a história e ler a legenda da fotografia, mas ouvir isso da boca de quem o viveu é chocante.” Não chorou, como a maioria dos entrevistados: falava com uma grande alegria pela vida que tem agora, “o que me surpreendeu.”

Três dias esperou até aparecer em casa dela. E quando o fez foi recebido de braços abertos. Acabaria por regressar uma vez mais àquela casa, para a fotografar com a filha. “Inicialmente não pensei em fotografar a filha, mas depois decidi fazê-lo. A filha é o passado de Nicole, violento, mas representa também a felicidade que ela tem agora, no presente.” No meio da cena, vê-se uma moldura com uma fotografia sua e do novo marido. “É uma grande diferença… É uma grande diferença… É uma grande diferença…”, quase podemos ouvi-la dizer. E a diferença vê-se também nas pequenas coisas: agora pode vestir a roupa que quer, agora pode passear a filha no parque, agora tem liberdade para decidir a sua própria vida.

Nicole é só um entre os 30 retratos que podem ser vistos nesta exposição que quer dar voz às pessoas dentro das fotografias (e fá-lo também literalmente, através do recurso ao vídeo). Há também o retrato de Angelina, de 53 anos, vítima de violência doméstica, que viu o ex-marido disparar contra si, a sua filha, mãe e tia. As duas últimas acabariam por morrer. Há ainda o caso de António, de 81 anos, que foi obrigado a sair de casa por causa dos maus-tratos do qual era vítima, por parte do próprio filho, ou o de Miriam, que se recusava a acreditar que o namorado, assassinado, tinha morrido. Entre muitos outros.

No início, quando descobriu estas pessoas e suas histórias, José esbarrou com uma dificuldade: “como colocar lado a lado casos com intensidades tão diferentes?” Uma pergunta legítima, que lhe deu que pensar, mas a resposta acabaria por surgir naturalmente. Não era ele que iria determinar a gravidade de cada caso. Afinal, como o poderia fazer? Pelo grau de violência do ato? Pela vulnerabilidade da vítima? Ou pela brutalidade do agressor? Nada é priorizado nesta exposição. Homens, mulheres e os mais variados tipos de violência e situações são colocados lado a lado. “Não interessa saber se as histórias são mais ou menos graves, não interessa o crime em si, mas sim o impacto que essa violência teve na vida de cada pessoa”, dispara o fotógrafo. “E isso não é comparável.”

A exposição “O Virar da Página” pode ser visitada gratuitamente entre 5 de novembro e 30 de dezembro no Espaço Novo Banco, em Lisboa, de segunda a sexta-feira, entre as 9h e as 19h