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“Despenteando Parágrafos”: 35 anos de textos de um professor português na América

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Onésimo Teotónio Almeida foi para os EUA antes muito antes de Portugal pensar na fuga de cérebros. “Despenteando Parágrafos” é o título do livro deste catedrático que gosta de passar horas a contar anedotas. A obra é apresentada esta terça-feira, por Clara Ferreira Alves, Miguel Real e João Maurício Brás

Capa do livro que é apresentado esta tarde por Clara Ferreira Alves e Miguel Real

Capa do livro que é apresentado esta tarde por Clara Ferreira Alves e Miguel Real

DR

Polémico, prolixo, e bom conversador, Onésimo Teotónio Almeida, açoriano que define o Atlântico como o “rio que banha as suas ilhas”, foi batizado com o nome de um escravo fugitivo do Antigo Testamento. E ele honrou o nome fugindo para os Estados Unidos em 1972, quando tinha 26 anos.

Nasceu em São Miguel, estudou no seminário de Angra [Terceira] e, já emigrado, doutorou-se em Filosofia na Universidade de Brown, na costa leste dos EUA, onde é catedrático do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros que ajudou a criar.

A menos de um ano de completar sete décadas de vida, homenageia o escritor José Cardoso Pires com o título “Despenteando Parágrafos”, um livro onde reúne uma coleção de textos dispersos – muitos deles inicialmente publicados em jornais. “Quando em 1972 deparei com a expressão pentear parágrafos no gostoso livro de José Cardoso Pires, ela plantou-se-me nos olhos (…)”, escreve na Introdução a que dá o título “Higienizando o pente”. “Dinossauro Excelentíssimo” é o livro de Cardoso Pires a que se refere Onésimo.

“Com estilo irónico e até mordaz, este livro constitui-se como a resposta de Onésimo ao pretensiosismo e ao snobismo de alguma prosa intelectual portuguesa, afetada e enfatuada, pecha que, segundo o autor, se deverá à fortíssima influência francesa na cultura letrada do nosso país”, disse ao Expresso o crítico e escritor Miguel Real.

Da escola primária aos papagaios da língua

“Provocatoriamente, a esta influência 'magistral e todo-sabente dos pensadores parisienses', replicada pelos epígonos portugueses, que mais escurecem os textos, Onésimo opõe o 'bremontismo, isto é, a análise gramatical das orações' ensinada pela sua professora primária, Zélia Bremonte, de modo que, à obscuridade das interpretações, prevaleça a claridade das leituras”, acrescenta Miguel Real.

O crítico Miguel Real diz ainda que a obra é uma “lição magistral de um pensador defensor de uma filosofia empírico-realista contra a tradição filosófica portuguesa de pendor abstratizante, dotada de visões subtis e transcendentes só compreendíveis pelos especialistas”.

Tudo, num tempo em que a “influência da cultura francesa decresceu em Portugal”, mas em que ainda “constatamos a mesma imitação canina nos atuais pensadores pós-modernos, que transplantam em língua portuguesa os modismos da terminologia americana, italiana e francesa, papagueando-a como se de originalidade se tratasse”.

A obra é apresentada esta terça-feira, às 18h30, na FNAC do Chiado, em Lisboa.