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O homem que gostava das mulheres

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Marcos Borga

José Fonseca e Costa faleceu este domingo, dia 1, de manhã, no Hospital de Santa Maria onde estava internado. Deixa uma obra cinematográfica ímpar no moderno cinema português

Na sua primeira longa-metragem (“O Recado”, 1971), uma mulher servia-lhe de alter ego para uma reflexão magoada sobre uma geração que aprendera que se devia resistir ao salazarismo, mas que sofrera um dolorido processo de acomodação.

Na última (“Viúva Rica Solteira Não Fica”, 2006), uma outra mulher assassinava metodicamente os sucessivos maridos, não por interesse, mas porque eles mereciam mesmo ser despachados deste mundo onde só estavam a estorvar. Pelo meio, fez cinema onde os personagens mais extraordinários sempre foram femininos. Podiam ser desvairados (como a Maria da Luz/Lucília de “Sem Sombra de Pecado”), sofredores (como a prostituta das serranias que Ana Padrão tornou inesquecível em “Cinco Dias, Cinco Noites), de uma sedução fatal (assim era a Mena de “Balada da Praia dos Cães”, fêmea sem dono) ou sobreviventes de um mar de lama (a Pepsi Rita de “Kilas”) – mas não eram fracos, nem pusilânimes, agarravam a vida nas mãos, iam em frente. Vários desses filmes foram êxitos históricos, outros foram ignorados pelo público, mas José Fonseca e Costa nunca desistiu de querer conciliar fazer filmes de autor – por alguma razão fora quando jovem assistente de Antonioni – com a vontade de ter o maior número de espectadores possível. Foi o único cineasta da sua geração a consegui-lo, nunca se acantonou na arte pela arte, nem se vendeu à bilheteira.

Era natural de Angola de onde veio no fim da 2ª Guerra Mundial para se tornar um cidadão de Lisboa, cidade que amava. Nos anos 50/60 andou pelos cineclubes, pela luta política, militou no Partido Comunista, conheceu, por duas vezes, os cárceres da PIDE. Entrou pelo cinema com a geração do Cinema Novo que havia de mudar tudo – mantendo-se ferozmente individualista. Lisboa, Madrid, Rio de Janeiro, Paris, Londres eram cidades onde se movia num cosmopolitismo que os portugueses da sua geração não podiam senão invejar. Ao mesmo tempo era um nacionalista africano em terra estrangeira que, em 1976, ainda se atrevia a terminar um filme com a frase “quem manda nos trabalhadores são os trabalhadores de armas na mão”, enquanto uma mulher negra se sumia no horizonte empunhando uma espingarda.

“O Recado”, “Os Demónios de Alcácer-Kibir”, “Kilas”, “Sem Sombra de Pecado”, “Balada da Praia dos Cães, “Cinco Dias, Cinco Noites”, “Viúva Rica Solteira Não Fica” – a lista de filmes memoráveis de Fonseca e Costa é longa e não se esgota nos títulos citados, apesar de ter deixado alguns dos melhores sonhos por fazer (“O Anjo Ancorado”, logo nos anos 60, “O Senhor Ventura”, o mais doloroso, no final da década de 80) – e por completar um filme derradeiro, “Axilas”, com 2/3 já rodados e que o produtor Paulo Branco garante ir ter bom termo. Filmou até 9 de Outubro, data em que teve uma homenagem, a que compareceu, em Linda-a-Velha. Depois, uma pneumonia cavalgou a leucemia com que vinha lutando há muitos meses e o seu estado tornou-se irreversível. Tinha 82 anos.