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De que são feitas as histórias?

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Wim Wenders vem ao Lisbon & Estoril Film Festival apresentar “Tudo Vai Ficar Bem”, que se estreia logo a seguir nas salas

Entrevista de Francisco Ferreira, em Berlim

Wim Wenders decidiu regressar à ficção após uma série de documentários (de “Pina” a “O Sal da Terra”) em que não deixou de procurar novas capacidades expressivas para o seu cinema. Nada de novo aqui: Wenders sempre foi um amante infiel da ficção e do documentário, refugiando-se numa e noutro conforme as circunstâncias. Descobrimo-lo agora, outra vez, do lado de lá do Atlântico, numa estranha intriga que reuniu James Franco, Rachel McAdams e Charlotte Gainsbourg num drama rodado em película e em 3D, técnica que Wenders tem vindo a apurar.

História de um escritor em crise criativa que causa acidentalmente a morte a uma criança, “Tudo Vai Ficar Bem” vai estrear-se nas salas no dia 12, mas o Lisbon & Estoril Film Festival exibe-o em primeira mão no próximo fim de semana, na presença do realizador. De resto, Wenders será homenageado com uma pequena retrospetiva — que inclui o raramente exibido director’s cut de 4h40 de “Até ao Fim do Mundo” (1991) — e apresentará “Wim Wenders: Scouting in Portugal”, inédita exposição fotográfica composta por fotos tiradas pelo cineasta no nosso país, quando realizou “O Estado das Coisas” (1982) e “Viagem a Lisboa” (1994). É inaugurada no próximo sábado, dia 7, no Museu da Água — Reservatório da Mãe d’Água das Amoreiras.

Os locais dos seus filmes costumam ser decisivos para si. Porque voltou ao continente americano?
É verdade. Filmei no Canadá, debaixo de muito frio. Não consigo imaginar este filme noutro sítio que não ali, no Quebeque, ou seja, não me sinto realmente em solo americano. E no entanto, “Tudo Vai Ficar Bem” é uma história universal. A mais universal que contei até hoje.

O autor do argumento, Bjørn Olaf Johannessen, é...
Norueguês. Mas foi ele quem me disse que não podíamos fazer este filme na Noruega. Ora, eu sabia onde procurar. Conheço Montreal há três décadas e vou lá desde então pelo menos uma vez por ano. Ainda assim demorei dois anos para encontrar aquela casa, aquele lugar.

Mudou muita coisa no argumento original?
Costumo sempre mudar, acrescento coisas da minha própria vida. Mas quase não mexi nos diálogos originais.

Porquê?
Porque este filme vai contar uma história ao longo de 14 anos, algo que eu nunca tinha escrito ou filmado na vida. Os saltos e as omissões da narrativa vêm do texto de Bjørn Olaf. “Tudo Vai Ficar Bem” é feito de retalhos.

Isso não é perigoso?
Bastante. Por causa dos saltos no tempo: a ação salta um ano, dois, às vezes três... Temos de ter cuidado porque, cada vez que se filma um salto no tempo, o mais difícil é preencher o espaço que fica entre uma e outra data.

É difícil fazer um filme ‘debaixo de neve’, como este?
Logisticamente foi muito complicado. Precisávamos de neve real. Filmámos em dois invernos, o de 2013 e o de 2014, foi como fazer dois filmes, na verdade, e também os atores tiveram que viajar duas vezes.

O escritor Tomas Eldan, que James Franco interpreta, procura as emoções nos livros e parece ser uma pessoa muito fria. Você é ou já foi assim?
O que posso dizer é que a minha profissão é ser cineasta e que me relaciono com pessoas e experiências pela ficção. Mesmo quando faço documentários, que sempre ficcionam alguma coisa também. Ora, isto tem consequências e carrega responsabilidades. Eu sei que, num processo criativo, se usamos as experiências ou o sofrimento de outras pessoas, por exemplo num filme baseado numa história verdadeira, podemos enganar-nos. O que pensarão as pessoas a quem a história, de facto, aconteceu? Será penoso para elas, será libertador, ficarão orgulhosas ou envergonhadas? A grande lição do Tomas Eldan é essa: ele vai passar uma história para ficção e começa a dar-se conta de que não sabe, não quer ou, simplesmente, não consegue lidar com a verdade e a realidade. E a realidade é sempre mais importante.

Não é esta uma equação que poderia ser aplicada a todos os seus filmes?
Acho que sim. Veja o caso de “Até Ao Fim Do Mundo”, que era um filme baseado no desejo de viver uma fantasia. E se alguém inventasse uma máquina que permitisse a um cego a possibilidade de ver? Era esta a ideia. Mas, no fim, também ali só a realidade contava.

De que modo é que “Tudo Vai Ficar Bem” é mais universal do que um filme como “Paris, Texas”, por exemplo?
Qualquer história tem um aspeto universal na medida em que tenta criar um sentido e relacionar-se com alguém. É por isso que as crianças pedem histórias antes de dormir: talvez os dias até nem façam sentido mas, à noite, elas precisam de o encontrar, precisam de uma história, porque as histórias criam conforto. “Paris, Texas” foi tanto uma demanda sobre o western como um filme sobre a minha própria busca da América.

Acha que “Tudo Vai Ficar Bem” podia tender para o melodrama?
A história de Tomas é um melodrama mas não se nota porque a personagem em si não tem os elementos do género. É que Tomas impõe-se uma distância a ele próprio. Ele é um homem que, tal como muitos, interioriza os conflitos em vez de os viver. É assim que ele digere as coisas. E é assim que ele aprende a perdoar-se também, ou a perceber que, para aquele miúdo, ele é o pai que o miúdo nunca teve.

Porque usou o 3D neste filme?
Tive a convicção e a esperança de que o 3D pudesse ser aqui usado de uma forma muito subtil, não como um efeito decorativo, mas como uma linguagem diferente. Em “Pina” apercebi-me de uma coisa extraordinária: aquilo em que o 3D é bom é nos pormenores, não no todo nem na visão de conjunto. O 3D é uma excelente lupa para ampliar emoções. b