Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

António Raminhos. “Qualquer dia exigem-me uma rulote com maquilhagem e fruta”

  • 333

TIAGO MIRANDA

Vídeos de “As Marias” são um sucesso nas redes sociais. António Raminhos pegou nos momentos passados com as filhas, juntou-lhes a sua história e transformou a vida em espetáculo. Uma conversa com o pai de duas miúdas que já são “vedetas”

João Miguel Salvador

João Miguel Salvador

Texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotos

Fotojornalista

Foi jornalista de desporto no jornal “A Capital” mas a vida levou-o ao humor. Agora faz espetáculos de stand up, participa regularmente no “5 Para a Meia-Noite” e este ano até dançou nas noites de domingo da TVI. Este currículo pode dizer tudo e na verdade não querer dizer nada. É, acima de tudo, o pai das Marias. Sem elas nada disto seria possível. Uma Maria Inês e uma Maria Rita que o levam ao Coliseu na próxima quinta-feira

Como é que se define este espetáculo?
Não é bem stand up, não é um monólogo e nem sequer é teatro. É quase terapia. Terapia de casais e para pais. É, ao mesmo tempo, um workshop para o que desejam (ou não) sê-lo. No final cabe às pessoas refletirem e decidirem se mudaram de opinião ou não. É uma espécie de palestra.

Qual é a relação entre os vídeos e o que leva ao Coliseu?
Sim, há uma relação forte. Peguei em alguns vídeos que publiquei no Youtube e criei outros de raiz para o espetáculo, mas não se cinge a isso. Tudo que lá está tem uma função, para reconstruir a história da minha vida. Vou do ano em que nasci, 1980, até à altura em que fui pai e à relação que construí com as minhas filhas. Além dos vídeos — entre os conhecidos e os inéditos — , juntei também muitos slides dos anos 80, uma tecnologia de ponta da altura. Há claramente um antes e depois. E depois há determinadas histórias que conto e que deixam as pessoas a pensar “Ah, por isso é que ele é assim”.

Como é que surgiu a ideia de filmar as suas filhas?
Foi por acaso. Estava com elas em casa sem nada para fazer e resolvi fazer o que faço sempre: entrar nas brincadeiras e chateá-las para ver a reação. Só juntei uma câmara à história, para mostrar à mãe. Pus o vídeo no Facebook e reparei que aquilo teve um feedback muito grande. Depois comecei a desenvolver a página no Youtube. Fui pensando em situações — algumas que já tinha experienciado com elas mas que nunca tinha filmado e outras novas — e continuei a criar. O método é ligar a câmara sempre que percebo que aquilo vai dar asneira.

E o Youtube, já dá algum dinheiro?
Eu comecei a publicar no Youtube um pouco para explorar a plataforma. O problema é que o Youtube não paga em Portugal o que paga nos Brasil, nos Estados Unidos ou noutros países da Europa. Dá uma conta porreira se eu me esquecer daquilo e for ver daqui a 10 anos.

A sua mulher concordou logo com a ideia de publicar os vídeos na internet?
A verdade é que não lhe disse antes, até porque não estava à espera que os vídeos tivessem tanto impacto. Quando este começou a crescer, passei a ter um cuidado maior. A Catarina tornou-se também a minha editora, no sentido em que lhe explico a ideia ou mostro o vídeo e vemos o que fazer.

Publica todos os vídeos que faz?
Não. Há vídeos que fizemos e que nunca foram publicados. Ou porque as miúdas não tiveram a reação que eu esperava ou porque considerámos que há ali coisas que não são tão boas de publicar. Ponho o que é transversal à vida de qualquer outra família. A única diferença é que se passam connosco. Mesmo quem não tem putos vê ali muita coisa com a qual se identifica.

A privacidade e a segurança não saem prejudicadas?
Falámos muitas vezes sobre isso, mas acho que isto já deu a volta. A maior parte das pessoas gosta dos vídeos, então acho que faz mais bem do que mal. A quantidade de pessoas que me manda mails a dizer que gostariam de ter tido uma infância assim (ou que gostavam de ser um pai assim ou que acham piada e que farão o mesmo aos filhos) fazem valer a pena. Torna-se mais um incentivo para fazer as coisas.

As suas filhas já têm noção do propósito dos vídeos ou ainda é só uma atividade com o pai?
Mais ou menos. Elas vão na rua e há quem diga “Olha as Marias”. Eu rio-me e é na boa, mas elas ficam com cara de “eu não conheço esta gaja de nenhum lado”. Voltando à questão da segurança, é muito próprio delas, e fruto da educação que lhes temos dado, não dar confiança a estranhos.

E no momento da filmagem?
Elas têm consciência de quando eu estou a filmar e é por isso que quando isso acontece está tudo estragado. Já não fazem mais nada. São tipo vedetas, qualquer dia exigem-me uma rulote com maquilhagem e fruta e não sei mais o quê.

Embora já fosse conhecido, a entrada no Dança com as Estrelas aumentou a sua popularidade…
Quando participei no “Dança com as Estrelas” não o queria fazer, mas convidaram-me umas três ou quatro vezes e acabei por aceitar. Queria dar-me a conhecer às pessoas que não me sabiam quem eu era ou que tinham curiosidade em ver-me a fazer coisas diferentes, como dançar. Confesso que não estava à espera de um impacto tão grande.

Quem é que o convenceu?
Foi a minha mulher, a Catarina. Ela é que me convence sempre para estas coisas. Disse que era bom para mim, mas se calhar queria que eu aprendesse mesmo a dançar. E depois é engraçado que toda a gente diz que não vê a TVI, mas quando saía à noite havia sempre malta nova que sabia o que é que eu tinha dançado e o que tinha feito na gala do domingo interior. É verdade que trouxe um impacto diferente, mas trouxe também um problema. Durante algum tempo as pessoas estavam à espera que eu fosse dançar para os espetáculos.

Este espetáculo do Coliseu vai ser diferente dos anteriores?
Há sempre espaço para o improviso, mas será sempre parecido com os que já apresentei no resto do país. Pensámos em fazer o Coliseu e quando arranjámos data fiquei borrado de medo. Ainda por cima vamos gravá-lo ao vivo para depois editar. Só não sei se será em DVD ou para algum canal.

Já tem alguma proposta?
Ainda não. Isto tem sido um bocado ao sabor do vento. Quando percebemos que é altura de fazer uma coisa, fazemos. Nunca tinha gravado nada ao vivo e vamos aproveitar esta oportunidade para o fazer.

E depois de “As Marias”, o que se segue?
Antes de ir ao Coliseu, na quinta-feira, ainda fui este sábado a Lamego e no domingo vou a Vila Real. Até ao final do ano vou andar com o espetáculo fora da Grande Lisboa.

E depois?
A ideia é parar um pouco com isto e talvez publicar os vídeos só no Facebook. Quero voltar aos espetáculos de stand up puro e duro, nos quais mostro a minha visão das coisas. De resto, vou continuar a colaborar com o “5 Para a Meia-Noite” e fazer um concurso no Canal Q, a “Arena da Mentira”.