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O olhar da arquitetura

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AGOSTINHO RICCA. O centenário do nascimento do arquiteto está a ser assinalado com duas exposições no Porto

d.r.

A vivência nas cidades é feita de rituais. Deslocamo-nos de um ponto para outro a partir de pressupostos há muito assimilados. Estabelecemos uma rota e é raro assumirmos a vontade de abandonar o conforto do já conhecido. Constitui, por isso, fator de estranhamento quando, para desembocar no mesmo local, somos por vezes confrontados com os alternativos percursos por outros construídos.

Em resultado desse acomodar aos caminhos percorridos de olhos fechados, deparo-me não raras vezes com a necessidade de parar nos semáforos da rua de São Paulo, no Porto.

É uma artéria nova, pouco conhecida pelo nome. Para quem vem da zona do Mercado do Bom Sucesso e passa junto à capela colada ao centro comercial, é a via que desemboca na rua Júlio Dinis. Encontrar ali os semáforos acabados de entrar no vermelho é sempre uma delícia. Parece abstruso, admito-o. Porém, encaro sempre com renovado prazer aquela paragem obrigatória. Não por uma qualquer necessidade de descanso. Antes pela absoluta rendição a uma materialização do belo.

Prédio na Rua Júlio Dinis

Prédio na Rua Júlio Dinis

LUÍS FERREIRA ALVES

Do outro lado, mesmo em frente àquele cruzamento, apenas com uma pequena árvore a interpor-se ao olhar, deixa-se ver, plácido e em simultâneo perturbador, um dos mais belos prédios de habitação da cidade. O modo como o olhamos nunca é o mesmo quando a ele regressamos. As formas, de uma simplicidade comovente, constroem uma sinuosidade de leituras. Transforma-se na obra aberta, no sentido em que, quem a vê, quem a lê, tem à disposição inúmeras veredas capazes de lhe construir sentidos novos.

É uma das grandes obras do arquiteto Agostinho Ricca (1915-2010), um dos nomes maiores de um certo modo de fazer arquitetura há longas décadas desenvolvido no Porto. Assinala-se neste momento o centenário do seu nascimento com duas exposições. Uma, no segundo piso da Galeria Municipal, nos jardins do Palácio de Cristal, intitulada Arquitetura e Obra, mostra reproduções de fotografias e desenhos de obras, além de publicações relacionadas com a obra de Ricca, fotos, postais de viagem, outros materiais escritos e nove maquetas.

A outra, na Casa do Infante, tem como título Arquitetura e Desenho. Abre amanhã e mostrará móveis e documentos relacionados com o trabalho deste arquiteto formado pela Escola Superior de Belas Artes do Porto, onde teve como um dos seus professores o célebre arquiteto Marques da Silva.

Clube Residencial da Boavista (Foco)

Clube Residencial da Boavista (Foco)

Numa “Autobiografia” publicada em 2009, Agostinho Ricca dizia ter começado a desenhar desde muito novo. Teria uns sete ou oito anos desenhava “sobre tábuas de que mais gostava”. Utilizava “madeiras lindíssimas e muito claras”. Acaba por fazer exame de admissão às Belas Artes, para o curso de arquitetura, “sem ter tido qualquer professor e sem ter nunca desenhado com lápis de carvão”.

Com mais oito anos que Fernando Távora, e 18 anos mais velho que Álvaro Siza, Ricca pertence a um raro grupo de arquitetos responsáveis pelo desbravar de caminhos em condições de extrema dificuldade.

Viveu num tempo de escassos contactos internacionais. Ainda assim não deixava de estar atento às correntes e às discussões suscitadas por homens cujas influências assumiu em graus diferenciados ou até rejeitou, por vezes. Estagiou no gabinete de outro enorme arquiteto, Januário Godinho, e nunca perdeu de vista as interrogações que, na sua juventude, suscitavam o confronto com obras como as de Frank Lloyd Wright ou, porventura num outro polo, Le Corbusier, tão importante para outros seus contemporâneos, como Viana de Lima ou Arménio Losa.

Prédio Rua de Ceuta

Prédio Rua de Ceuta

Agostinho Ricca construiu um caminho muito próprio com uma obra marcada por uma grande originalidade. Passear pela exposição dos jardins do Palácio é regressar a algumas memórias fortes de edifícios que fizeram cidade. Soltam-se recordações singulares quando nos cruzamos, por exemplo, com o esplendoroso Cinema Trindade, transformado em sala de bingo, ou o Clube Residencial da Boavista, onde se integrava o à época indispensável Estúdio Foco, uma belíssima sala de cinema agora desativada.

Membro Fundador da Organização dos Arquitetos Modernos, Ricca é em 1953 convidado por Carlos Ramos a dar aulas na ESBAP. Seis anos depois abandona o ensino por motivos políticos e só regressa em 1977 para se retirar em definitivo da Escola em 1980.

Com uma carreira longa, Agostinho Ricca deixa uma obra também ela imensa, embora muito centrada no Norte do país. Disse um dia, a pretexto da construção de uma praça, ser “necessário criar certa harmonia entre o novo e o antigo”. A procura dessa harmonia levou-o a travar inúmeras batalhas. Algumas perdeu-as, como quando, contra a ideia de construir a Casa da Música em plena rotunda da Boavista, propôs e projetou com todo o detalhe um Palácio da Música a ser erigido num local de absoluta tranquilidade e com o mar em fundo: o Parque da Cidade.

Agostinho Ricca no ateliê

Agostinho Ricca no ateliê

Quando hoje tanto se celebra, e com toda a justiça, o impacto internacional e a qualidade da obra de arquitetos como Álvaro Siza, ou Eduardo Souto de Moura, é bom perceber como são eles próprios os primeiros a sublinhar que o que hoje conhecemos como Escola do Porto não foi algo nascido de geração espontânea.

É um olhar sobre a arquitetura resultante dos muitos olhares arquitetados ao longo de décadas por tantos outros que, como Agostinho Ricca, fizeram de uma paixão uma verdadeira obra de arte.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras