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A Ópera de São Carlos como nunca a viu

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Há banquetes reais, “selfies”, nervos, gargalhadas e 'gags' cómicos nos bastidores de “Madama Butterfly”, de Puccini. No palco assiste-se a uma tragédia japonesa, mas durante o intervalo vive-se uma comédia ligeira à portuguesa, para lá do pano. No camarim do coro masculino serve-se a melhor ceia de Lisboa. No camarim delas há quem esteja a tricotar as prendas do Natal. É o outro lado da ópera

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

Texto

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

Fotos

Fotojornalista

Há uma ópera que se esconde por detrás da ópera. Há vozeirões à solta pelos camarins e corredores, nervos, manias, companheirismo, banquetes reais, brincadeiras, “selfies”, tricô e confissões nos bastidores do Teatro Nacional de São Carlos. Para lá do que o pano mostra. Mas comecemos pelo que o público assiste nos primeiros minutos de “Madama Butterfly”, uma das mais famosas e emblemáticas criações de Giacomo Puccini que abriu a temporada lírica em Lisboa.

O maestro italiano Domenico Longo acabara de se benzer, beijara a batuta num silêncio ritualizado e atravessara o corredor de acesso ao fosso da orquestra, trajado a rigor com fato escuro e casaca, para dar início ao espetáculo. A casa está cheia e a audiência engalanada. Os bilhetes para as sete apresentações esgotaram num ápice várias semanas antes da estreia (com preços entre os 10 e os 50 euros). A provar que a ópera, uma das artes mais eruditas e difíceis, não passou de moda nem está em crise e continua a atrair multidões.

Ao fundo, no palco, avista-se uma colina nos arredores de Nagasaki e apresenta-se o interior de uma casa com biombos e paredes deslizantes. Um jogo entre o que se revela e o que se esconde. Ouve-se um canto longínquo de vozes femininas a anunciarem a chegada da gueixa Cio-Cio-San, a Madama Butterfly que está prestes a conhecer o noivo Pinkerton pela primeira vez. Está lançada a trama desta ópera em três atos, em cena em Lisboa até este domingo.

A orquestra arranca vibrante a composição de Puccini. Apesar da rara beleza da cena, há nela pouco romantismo e inocência. A ação decorre no início do século XX e, como era hábito na época, uma bela japonesa com 15 anos é oferecida em casamento a um oficial da Marinha americana em missão no Oriente. Um casamento arranjado com a pobre família da rapariga para um entretém sexual do oficial. “Porém, a ‘bonequinha’ apaixona-se, e o brinquedo parte-se. Os dois mundos entram em conflito e o mecanismo, inexorável para Puccini, que une o sexo à morte inicia o seu movimento. Um drama claustrofóbico, onde colidem os sonhos da mulher e a aspereza da realidade. Até o epílogo mortal e geométrico”, pelas palavras do crítico musical italiano Sandro Cappelleto.

De uma forma mais simples, tudo se resume assim: um tenente da Marinha americana abandona a gueixa com quem se casou e engravidou no Japão, levando-a a suicidar-se. Uma ópera sobre o amor, a traição, a honra e a esperança, estreada no São Carlos a 10 de março de 1908. Há 107 anos.

Nuno Botelho

A ópera vista por dentro

Na sombra desta grande produção (uma versão estreada em 2007 na Opera North, em Leads, Inglaterra) há uma pequena cidade de gente que a assistência nunca vê e que nos dá espetáculo. Além dos 14 solistas, da meia centena de elementos do coro e dos quase 70 músicos da orquestra, há maquinistas, eletricistas, costureiras, contrarregras, diretores técnicos e de produção, operadores de som e vídeo, aderecistas, cortineiros, caracterizadores, cabeleireiros, legendistas (a ópera é legendada ao mesmo tempo que é cantada), maestros e figurantes, num total de 50 pessoas. É obra.

Duas horas antes da ópera começar muitos deles já andam pelos bastidores a fazer com que a magia aconteça. Maria José, de 62 anos, é uma das costureiras assistentes que ajudam os intérpretes a vestir-se e trata de resolver os pequenos problemas nos figurinos, bainhas acima, bainhas abaixo, um alfinete aqui, outro acolá. Entrou neste teatro aos 22 anos. “Tenho ouvido todas as óperas deste lado, nos bastidores”. Nunca assistiu a nenhuma. Vai espreitando as cenas aos bocadinhos, à medida que se aproxima das laterais do palco para auxiliar os cantores. “Na hora do espetáculo estou de serviço, não é?”, diz-nos com timidez.

Nos camarins do coro masculino e feminino vive-se a azáfama da maquilhagem. As seis coralistas que farão de gueixas e amigas de Butterfly sofrem a maior metamorfose. E os seus risinhos já se confundem com as personagens. Depois da caraterização e postiços colocados, o coro sobe para a sala de ensaios uma hora antes do início da ópera para um aquecimento vocal sob a batuta do maestro titular do coro Giovanni Andreoli.

Alguns estão vestidos à civil porque apenas cantarão nos bastidores, junto ao palco, sem nunca aparecerem. “Este coro tem uma particularidade especial, sabe representar bem e isso nota-se em cena. Mas esta não é uma ópera feita para muitos elementos. Tive de escolher só alguns. Não é uma ópera para o coro brilhar”.

Nuno Botelho

Uma borboleta coreana

A protagonizar esta Madama Butterfly está a soprano coreana Hye-Youn Lee, uma intérprete com extraordinárias capacidades vocais. A residir em Londres, é a primeira vez que está em Lisboa e em poucas semanas já aprendeu algumas palavras em português como obrigado e até já.

Uma hora e meia antes de entrar em cena fecha-se no camarim para se concentrar e aquecer a voz para dar corpo e vida a uma gueixa com o coração dividido entre Oriente e Ocidente, numa ópera particularmente exigente para si. Está quase todo o tempo em cena a cantar, durante duas horas e meia, com um intervalo pelo meio.

No camarim ao lado está Antonio Gandía, considerado um dos melhores tenores espanhóis da atualidade, que se prepara para dar corpo e voz a Pinkerton, o americano.

Os papéis secundários estão bem entregues aos portugueses Luís Rodrigues (que faz de cônsul Sharpless) e à meio-soprano Cátia Moreso, que tem aqui uma interpretação de exceção; apesar do papel secundário, a sua presença é marcante no papel de Suzuki, a criada de Butterfly. Cátia é particularmente crítica ao costume de se convidarem habitualmente cantores estrangeiros para os papéis principais. “Temos cantores portugueses à altura dos melhores obras líricas, vários com carreiras internacionais. Eu gostava por exemplo de um dia protagonizar a ópera ‘Carmen’ [do compositor francês Georges Bizet].”

As “selfies” das gueixas

O primeiro ato da ópera termina com os recém-casados Butterfly e Pinkerton a cantarem o seu amor num dueto arrebatador, mas também terno e delicado. E é quando ela recorda como as mais belas borboletas são frequentemente trespassadas por um alfinete para que não possam fugir. De certa forma, a sua história. Butterfly, triste por ter sido rejeitada por todos os seus familiares, é (por momentos) agora uma mulher feliz nos braços de Pinkerton. Fecha o pano. Fim do primeiro ato. Os solistas recolhem aos camarins para mudarem de figurinos.

O coro já pode finalmente relaxar durante mais de uma hora. Já só têm de regressar para os aplausos. O solista barítono Mário Redondo, que conta com uma intervenção pequena no primeiro ato como o Tio Bonzo, aproveita a pausa para mudar de roupa, tirar os postiços e ir à rua jantar num restaurante ali perto, nas redondezas, voltando a tempo dos agradecimentos. “Até parece mal, mas dá tempo para tudo”.

As gueixas do coro fazem “selfies” em grupo com smartphones, trocam graças, algumas revelam verdadeiros dotes humorísticos, outras leem livros, revistas ou partilham episódios das suas vidas reais. Filipa Lopes, de 43 anos, é uma das gueixas mais prendadas do grupo e usa o intervalo para tricotar cachecóis e chapéus de lã. “Estou a fazer vários presentes para o Natal.”

Conta-nos que é a terceira versão de “Madama Butterfly” em que participa. “É a nossa praia. Eu e as minhas colegas estamos perfeitamente à vontade nesta ópera de Puccini”. Há 20 anos a trabalhar no coro do São Carlos com as mesmas pessoas, diz que são como uma família ligada pelo amor à música e ao canto. “Mas claro que há momentos de saturação.”.

Nuno Botelho

A melhor ceia de Lisboa

Mas justiça seja feita, é no camarim do coro masculino onde, no intervalo, é obrigatório estar. Porquê? Diocleciano é o grande responsável. Este segundo tenor do São Carlos é um chefe de mão cheia, cozinha como poucos e organiza banquetes reais para deleite dos colegas. Um ritual que se repete em todas as récitas. No dia da estreia, 'Di' (como os colegas o chamam) tinha cozinhado uma panelona de sopa de peixe e marisco, confecionado pão caseiro, um bolo e outras iguarias. Os jornalistas do Expresso provaram e repetiram.

“Ó Di, eu não sou careca. Enche até cima. Fazes falta lá em casa”. Isabel Assis Pacheco, a decana feminina do coro foi a convidada especial para provar a ceia. “Eles são uns queridos”. Nos cacifos de cada um estão coladas imagens dos ídolos: Puccini, Rossini, Mahler, Bach, Vitorino Nemésio, João César Monteiro, o Papa João Paulo II ou...Tom Cruise e Brad Pitt. Heróis para todos os gostos.

Costa Campos, 51 anos (28 deles passados neste coro), figura imponente, tem nesta ópera uma pequena participação como solista - é o oficial do registo - e já no camarim, com uma rica tijela de sopa na mão, comenta com voz grave, de baixo: “Este momento é importante para fortalecermos os nossos laços de amizade. O ano passado este coro celebrou 70 anos de existência. Mais do que coralistas, somos artistas.”

Cena final. Butterfly prepara solenemente a sua morte. Acaba de saber que Pinkerton se casara com outra mulher, Kate, e que quer levar o seu filho. Butterfly despede-se pela última vez da criança e mata-se com o punhal do seu pai. Fá-lo por amor e honra. Na lâmina estão gravadas as seguintes palavras: “Morre com honra aquele que, sem ela, não pode viver”.

Os desesperados gritos finais de Pinkerton marcam o fim da cena: “Butterfly! Butterfly!” O maestro Domenico Longo emociona-se. “É difícil conter as lágrimas nesta cena. Por mais habituado que esteja a dirigir esta ópera”, dirá depois.

Cai o pano. Levanta-se uma audiência entusiasmada. “Bravo! Bravo!”

Agradecimentos pelas imagens cedidas pelo Teatro Nacional de São Carlos