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GUERRA(S) Cena de “The sorrow and the pity”, de Marcel Ophüls FOTO D.R.

Reinaldo Serrano

A guerra, as suas causas e as suas consequências, a sua iniquidade, as suas perversões, a sua análise, tudo isto e muito mais tem constituído sobeja fonte de inspiração para o universo das artes, de praticamente todas as artes. A literatura e o cinema encimam, porventura, as manifestações artísticas que têm na guerra o seu objeto primordial.

Justamente porque é profusa e tantas vezes prolixa a oferta sobre esta matéria, penso que será de honesta utilidade escrutinar a disponibilidade que o mercado revela sobre o tema e, na medida do possível, tentar selecionar algumas escolhas que nem sempre mereceram atenção devida por parte de um público eventualmente menos atento.

A lógica deste (fiável) raciocínio leva-nos a (re)visitar a obra de Marcel Ophüls. Alemão nascido em Frankfurt no primeiro dia de novembro de 1927, é desde logo importante salientar que o seu progenitor foi Max Ophüls, um dos mais importantes realizadores germânicos do século passado, duas vezes nomeado para os Óscares por “La Ronde” (1950) e por “Le Plaisir” (1952), respetivamente para Melhor Argumento e Melhor Direção Artística. A influência paterna terá sido determinante para a vida e carreira do jovem Marcel, que viu no documentário a plataforma ideal para a expressão do seu talento.

Cena de “The Sorrow and the pity”

Cena de “The Sorrow and the pity”

Exemplo disso é “The Sorrow and the Pity”, um longo e extraordinário documentário que testemunha a vida da França ocupada durante a II Guerra Mundial. Datado de 1972, o documentário surgiu por proposta da televisão francesa, que viu em Marcel Ophüls a figura ideal para retratar o quotidiano da ocupação nazi. O resultado é um trabalho de quase 5 horas, notável na composição, na narrativa e no retrato vívido de um dia a dia controlado mas também por isso rejeitado e combatido num dos períodos de maior divisão gaulesa, com argumentos e feridas reabertas entre os colaboracionistas e os resistentes.

As revelações contidas no documentário causaram tal polémica que foi preciso quase uma década para que a própria televisão francesa o exibisse pela primeira vez, ou seja, em 1981. A explicação é simples e mais simples se torna após o visionamento de “The Sorrow and the Pitty”: os testemunhos são poderosos, as imagens de “newsreel” da época são notáveis pela raridade e o enquadramento dado por Marcel Ophüls não deixa dúvidas sobre a vigência de um período que poucos querem relembrar. Para tal, o realizador centra-se no microcosmos que é a localidade de Clermont-Ferrand, tomada como exemplo das vidas que a preencheram à época e dos respetivos depoimentos, recolhidos em 1969. De um e de outro lado da barricada, colaboracionistas e resistentes dizem de sua justiça numa tentativa de explicação que os levou a tomar o partido que tomaram aquando da traumática ocupação. O que emerge é um conjunto de sentimentos que passam pela xenofobia e antissemitismo, até um receio por muitos justificado com a emergência do movimento bolchevique. Claro que as conclusões ficam sempre a cargo espectador, pelo que dele se exige a natural atenção e reflexão pós-visionamento.

Menos conhecido que outros documentários relacionados com o segundo conflito mundial, “The Sorrow and the Pity” é um documento relevante para um melhor entendimento das motivações que os habitantes de Clermont-Ferrand desenvolveram depois da chegada das tropas de Hitler e de como, por um breve período de tempo, a França se viu “governada” pelo regime de Vichy, a quem os patriotas chamavam “governo-fantoche”.

Cena de “Hotel Terminus”

Cena de “Hotel Terminus”

Quase 20 anos depois de “The Sorrow and the Pity”, Marcel Ophüls voltou a dar cartas sobre a temática da presença germânica em França, com o não menos notável “Hotel Terminus”, um retrato sem complacência de Klaus Barbie, durante e após a ocupação de Lyon, onde o oficial de Hitler desempenhou o papel de chefe local da Gestapo e onde conquistou a pouco a nobre alcunha de “O Carniceiro de Lyon”.

Uma vintena de filmes traduzem a obra de Marcel Ophüls que, aos 88 anos, continua a não deixar descansar a sua visão sobre os grandes acontecimentos do século XX. Prova disso é “Unpleasant Truths”, um projeto que reflete o olhar do realizador sobre o conflito israelo-palestiniano que vai buscar o título a um comentário de Charles De Gaulle a propósito de... “The Sorrow and the Pity”. Ao que parece, o carismático general fora informado de que o documentário não devia ser exibido na televisão, por conter “verdades desagradáveis”. De Gaulle concordou com a não exibição, dizendo que “a França não precisa de verdades; a França precisa de esperança”.

Com ela ficamos, à espera de novas obras do velho e inconformado realizador.

Reinaldo Serrano escreve no EXPRESSO DIÁRIO às segundas-feiras