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Cultura

O tempo das misturas

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REMIX. O Ensemble da Casa da Música celebrou com um concerto 15 anos de existência

JOÃO MESSIAS/CASA DA MÚSICA

No dia 20 de outubro do ano 2000 o auditório da Universidade de Aveiro recebeu um evento singular. Na altura terá sido visto por alguns como apenas mais um momento de uma interessante programação cultural, sem anteciparem a circunstância de naquele presente estar contido muito futuro.

Na passada terça-feira, quinze anos após aquela data, a sala principal da Casa da Música, no Porto, viveu um fim de tarde em tom de festa, marcado pelo orgulho de poder celebrar o aniversário do Remix Ensemble, hoje visto como um dos principais agrupamentos de música contemporânea em atividade na Europa.

O tempo nem sempre é uma distância linear. Entre aquele dia fundador e o concerto desta semana há todo um gigantesco universo percorrido por uma estrutura criada no contexto da Porto 2001- Capital Europeia da Cultura. Vivia-se na época uma situação paradoxal no âmbito da música do nosso tempo produzida em Portugal. Estavam, e estão, a surgir cada vez mais novos compositores, mas o país não dispunha de um ensemble regular, profissionalizado, com o suporte de uma estrutura organizada e exclusivamente dedicado a interpretar obras que iam ficando perdidas nos caminhos do esquecimento.

Pode falar-se de um antes e um depois da existência do Remix, não obstante as muitas críticas, umas justas, outras porventura nem tanto, feitas ao longo dos anos ao modo como são geridas as encomendas ou escolhidos os compositores com reportório passível de ser interpretado pelo Remix.

Num setor tão sensível como o da criação artística contemporânea, onde se inclui a música, são naturais as divergências programáticas e salutares as divergências de opinião quanto aos caminhos a seguir. Essa discussão é quase sempre estimulante, em particular quando, seja da parte das instituições, seja pelos profissionais (músicos ou compositores) não haja a tentação de assumir um putativo direito à verdade absoluta.

Nestes últimos anos, o Remix assumiu um papel decisivo ao provocar a encomenda e interpretação de novas obras e ao posicionar-se como um crucial veículo para a internacionalização dos novos compositores portugueses.

Desde a sua formação, o Ensemble apresentou em estreia absoluta mais de quatro dezenas de obras e foi dirigido por uma infinidade de prestigiados maestros. Tem sido requisitado para se apresentar nas melhores salas de, entre outras, cidades como Viena, Amesterdão, Bruxelas, Madrid, Zurique, Colónia, Berlim. Teve um papel essencial no projeto “Ring Saga”, com música de Richard Wagner adaptada por Jonathan Dove e Graham Vick, que levou o Remix ao Festival de Música de Estrasburgo, a Nimes, Reims, Caen e à Cité de la Musique, em Paris, onde surge Pierre Boulez como figura de referência. De resto, foi depois de ouvir o grupo na capital francesa que Boulez decidiu comprometer-se com uma data para se apresentar na Casa da Música, depois inviabilizada por razões de saúde.

Este ano, o grande destaque vai para a estreia mundial da ópera “Giordano Bruno”, de Francesaco Filidei, um notável trabalho musical e cénico que tem vindo a ser mostrado em vários palcos europeus.

Com onze discos editados, o Remix Ensemble Casa da Música, constituído por um núcleo base de 15 músicos, na sua maioria portugueses, acompanhados de ingleses, um venezuelano e um esloveno, constitui um permanente espaço de inovação e um raro exemplo de abertura às sonoridades do nosso tempo.

Isso ficou bem evidente no programa escolhido para o aniversário, com, por exemplo, “Un calendrier révolu”, a peça em estreia mundial póstuma, assinada por Emmanuel Nunes, um compositor com quem a Casa da Música e o Remix em particular conseguiram estabelecer ao longo dos anos uma estreita relação feita de muitas cumplicidades. Havia também “Concertini”, uma audaciosa peça de Helmut Lachenmann, o alemão este ano compositor residente da Casa da Música.

A arte contemporânea é feita de questionamentos e constrói-se num tempo de aliciantes misturas. Como o demonstra o Remix em cada uma das suas atuações, parte daí o essencial de uma riqueza ancorada numa surpreendente capacidade para gerar inquietações e questionamentos.

Valdemar Cruz escreve no EXPRESSO DIÁRIO às quintas-feiras