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Olhe, você pode ter aqui um caso único em Portugal

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Rui Duarte Silva

Santo Tirso, a cidade outrora sinónimo de têxteis e até hoje famosa pelos seus estaladiços jesuítas, tornou-se num museu a céu aberto de arte contemporânea. Ao todo, são 55 obras, assinadas por 54 escultores, já entranhadas na paisagem da baixa de Santo Tirso

Renato Ferreira

Já lá vão 25 anos desde a ideia original. Em 1990, o escultor Alberto Carneiro desafiou de surpresa Joaquim Couto, então presidente do município de Santo Tirso: “Olhe, você pode ter aqui um caso único em Portugal”. Qual era a ideia? A proposta da realização de um conjunto de simpósios de escultura, 10 no total, que servissem também para dotar a cidade de uma coleção de arte contemporânea. O primeiro simpósio aconteceu logo no ano seguinte. O último acontece agora.

Na próxima sexta-feira e sábado, para marcar o fim da concretização desta ideia, o 10º e último simpósio internacional de escultura será acompanhado da conferência internacional “Arte Pública: Lugar, Contexto, Participação”, que acontecerá na Fábrica de Santo Thyrso e contará com a presença de relevantes nomes da arte e escultura contemporâneas. Organizada pelo Instituto de História de Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, a conferência surge de novo por proposta da Câmara de Santo Tirso, presidida outra vez por Joaquim Couto, regressado à casa de partida nas autárquicas de 2013.

Rui Duarte Silva

Um quarto de século depois, o Expresso falou com Alberto Carneiro, Joaquim Couto e Álvaro Moreira, membro da comissão de organizadora. O escultor, a quem recentemente foi atribuído o Grande Prémio Amadeo de Souza-Cardoso – Prémio de Consagração, sublinhou, a propósito das esculturas espalhadas pela cidade, que “a função daquele parque, bem como de toda a escultura pública e da arte, em particularmente a pública, é fazer pedagogia”. No início, as pessoas “estranharam”, mas depois as esculturas a céu aberto entranharam-se no cenário da cidade e no olhar de quem a habita. “Principalmente no das crianças que já nasceram ao lado das esculturas e têm já uma sensibilidade diferente”.

A criação desta marca cultural em Santo Tirso foi e é uma aposta clara do presidente da autarquia. Joaquim Couto afirmou que estes simpósios e o Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC_ST), criado em 1996, são um dos meios para que “Santo Tirso se diferencie na região norte e no contexto dos seus vizinhos pela cultura”, acrescentando que o objetivo é “fazer desta cidade um centro de arte e cultura contemporânea”.

Rui Duarte Silva

Álvaro Moreira, que previamente sublinhou que “não queria recorrer a um chavão”, acabou por dizer-nos que “Santo Tirso é quase a capital da escultura contemporânea em Portugal”. Desta forma, através de esculturas feitas por artistas que estão representados nas principais coleções a nível mundial e que são referências do final do século passado e do princípio deste, a tal marca e identidade forte no que diz respeito a elementos diferenciadores na oferta cultural fica mais fácil de conseguir.

“Queremos enfatizar a singularidade deste projeto”, continuou Álvaro Moreira. “Um projeto com 25 anos que manteve a sua coerência conceptual e que constitui um caso singular no panorama nacional e que ombreia com outros projetos de outras origens e de outras latitudes”, acabou por dizer.

Rui Duarte Silva

Joaquim Couto também não esconde o orgulho na obra feita e no legado que o acervo constitui para as gerações vindouras. “Este acervo não é único na Europa, mas anda muito próximo disso”, frisa Joaquim Couto. O carater identitário ímpar das 55 peças escultóricas que povoam os cinco pontos mais emblemáticos da baixa de Santo Tirso parte de uma raiz comum: o espaço ao ar livre para o qual foram destinadas foi sempre o ponto de partida e chegada da sua conceção. “Em todos os casos, o escultor veio cá, estudou com antecedência de um ano o local e fez um projeto adaptado ao sítio”, com o autarca.

Paul Van Hoeydonck, na lua e entre nós

Os artistas convidados foram escolhas pessoais dos dois comissários que assessoram o Museu Internacional de Escultura Contemporânea de Santo Tirso (MIEC_ST): Alberto Carneiro e Gérard Xuriguera (Crítico de Arte/ Curador Independente). O facto de a seleção ter recaído em nomes consagrados “não inflacionou o custo da iniciativa”, garante Alberto Carneiro, o único artista com o nome gravado em duas esculturas.

Rui Duarte Silva

“Apesar de alguns deles serem considerados, indubitavelmente, os escultores mais importantes dos seus países e integrarem a vanguarda da escultura contemporânea, a coleção ficou quase de borla ao município, responsável apenas pelos custos de produção das obras e a sua colocação”, adianta Anberto Carneiro, lembrando que todos os escultores cederam os direitos de autor. “De outra maneira, este projeto era incomportável”, conclui.

Alguns nomes dos 54 escultores com obras em Santo Tirso são Júlio Le Parc, Dani Karavan, Carlos Cruz Diez, e até o artista belga Paul Van Hoeydonck, que curiosamente tem uma obra sua...na lua. “O astronauta caído”. Sim, na lua.