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Na Bielorrússia, só uma livraria publica obras da vencedora do Nobel

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Fabrizio Bensch / Reuters

A Lohvinau House of Literature é hoje uma livraria, galeria de arte e “wine bar”. Mas, mais do que expor obras de arte ou servir vinhos e vodca barata, a sua especialização é publicar livros contra as ordens do Governo totalitário da Bielorrússia

Imagine que está à espera de descobrir o nome do Nobel da Literatura deste ano. Liga a televisão, ouve o anúncio e descobre que o autor nasceu no seu país. Intrigado, percebe que nunca ouviu falar deste escritor. A situação não é habitual, mas pode ter acontecido quando, no passado dia 8, a bielorrussa Svetlana Alexievich recebeu o galardão da Academia Sueca, uma vez que as suas obras não chegam às livrarias do seu país. Há uma excepção: a Lohvinau House of Literature, um pequeno estabelecimento situado na capital, Minsk.

Apesar de se tratar de um estabelecimento pequeno, há anos que a Lohvinau já se encontra no mapa dos intelectuais bielorrusos. Seja para para beberem vodca barata ou para discutirem o panorama artístico, escritores e artistas são os principais clientes da livraria. Atualmente, a Lohvinau cede parte do seu espaço a uma galeria e a um wine bar e concentra-se, sobretudo, na publicação de obras que o Governo do Presidente Aleksandr Lukashenko considera subversivas.

As primeiras informações que se espalharam pela imprensa nacional, quando o prémio foi anunciado, tiveram um denominador comum: a obra de Alexievich retrata a sociedade pós-comunista e, em particular, o autoritário Lukashenko. Esta é a razão pela qual a obra da autora não é particularmente conhecida no seu país.

Censura por via burocrática

Embora o Governo não censure as publicações de forma clara, a burocracia impede os livreiros de fazer chegar às prateleiras literatura considerada controversa. Em 2014, foi aprovada uma lei que obriga os editores a obterem uma licença do Estado para cada livro que desejem publicar. No entanto, a Lohvinau House of Literature contrariou a ordem, continuando a imprimir os livros de Alexievich ilegalmente. O resultado foi uma multa de 60 mil euros, paga com recurso a uma campanha online que a discreta livraria organizou.

O Governo bielorrusso tem outras formas de censurar indiretamente os livros que apontam críticas à sua atuação: as categorias em que as obras são divididas são estabelecidas pelo Executivo (“socialmente relevantes” e “outros”), a editora que detém o monopólio das publicações do Estado tem autorização para proibir a publicação de livros com base em razões ideológicas e as livrarias independentes enfrentam taxas muito altas.

Há quinze anos que a Lohvinau se distingue por ser o único estabelecimento que publica obras da agora Nobel da Literatura. Há dois anos, a livraria conseguiu que fossem publicadas 500 cópias do último livro de Alexievich, “O Homem Soviético – Um tempo de desencanto” - publicado em Portugal pela Porto Editora.

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  • Quem é Svetlana Alexievich?

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