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A vida de Mário Cláudio lembrada pelos amigos e contada ao povo

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Rui Duarte Silva

O escritor portuense foi homenageado em Penafiel, revelando um dom para a observação irónica que fez rir o público

Luís M. Faria

Jornalista

Com 15 mil habitantes e rodeada por campo, exibindo um acervo histórico suficientemente rico para justificar uma deslocação, a cidade de Penafiel fica a meia hora do Porto. É daqueles terras que muitas pessoas de fora não pensam em visitar, mas onde provavelmente regressarão caso o façam - isto é, se algum pretexto as levar até lá. O atual presidente da Câmara, Antonino de Sousa, admite que gostaria de a ver transformar-se numa espécie de Cascais do Porto, atraindo a classe média para um concelho que tem vindo a recuperar terreno em indicadores importantes.

A recente reabilitação do centro deixou a cidade com ar arranjado, e era preciso um evento que lhe desse presença no noticiário cultural. Há oito anos, surgiu a Escritaria, um festival literário com uma diferença. Enquanto os outros lidam com uma variedade de escritores, este ocupa-se de um único. Todo ele é construído como uma homenagem, não apenas nos espaços do Museu e da Biblioteca que acolhem conferências e exposições, como nas próprias ruas, onde o retrato e as palavras do autor homenageado surgem por todo o lado. Até montras de lojas se enchem com os livros dele ou dela, e grupos escolares produzem variações plásticas e performances alusivas aos temas da sua obra.

Na edição de 2015, entre quinta-feira e este domingo, o homenageado foi Mário Cláudio, de 73 anos. Conhecido sobretudo por romances ("Amadeu", "Guilhermina", "Tiago Veiga"), duas vezes grande prémio da APE - a última das quais em 2014 - é um escritor fortemente associado ao Porto. Como Agustina e outros, provém de uma família da burguesia confortável. Um dos seus apelidos verdadeiros (ele usa pseudónimo) denota a origem francesa. Em pequeno vivia numa casa grande na zona da Boavista e tinha criadas, incluindo uma só para si, como contou durante a entrevista pública a Valdemar Cruz no terceiro dia do festival. A casa, a família e muito do resto aparecem em vários dos seus livros, em especial naquele que foi agora lançado durante a Escritaria.

Não “sublime coscuvilhice”, diz um professor

"Astronomia" (ed. Dom Quixote) é uma autobiografia em forma de romance, ou pelo menos escrita na terceira pessoa. Compõe-se de três partes, correspondentes a infância, maturidade e velhice. Curiosamente, a primeira é narrada a partir do Velho, a segunda do Rapaz e a terceira do Menino. O livro acompanha o seu protagonista ao longo de trâmites como a participação na guerra de África e em guerras literárias, mas também em aspetos menos públicos que tem a ver com relações masculinas. A certa altura do festival, o escritor explicou que tinha perdido a vergonha com a idade, mas também disse que o que se encontra no livro é "muito mais mentiras do que confissões".

Para quem lê, o que parece constar é a realidade. Eis uma passagem sobre a velhice: "Navegar pelo oceano do sono significa para ele, e para todos nós, ir apagando a solidez do mundo, e recolher ao aquário amniótico, reserva do grande esquecimento, e da sabedoria suprema. E o mar que se situa por trás da cabeceira da sua cama, cada vez mais vagaroso no movimento das ondas, esvai-se por completo. Evaporam-se a seguir o areal vastíssimo, a seiscentista fortaleza que um conde alemão manda edificar, e logo depois a interminável avenida, riscada pelos ronceiros carros eléctricos da infância, e da adolescência, que o transportam à praia, e desta o trazem para casa".

O livro foi apresentado na noite de sexta-feira. O professor Gabriel Magalhães, da Universidade da Covilhã e veterano de apresentações literárias, garantiu que esta era especial. "Astronomia não é um livro qualquer. Não é sequer um livro de um grande autor. É a cúpula de uma grande obra", afirmou.

Tendo acompanhado o percurso do autor ao longo dos últimos anos, descreveu-se feliz ao deparar com o livro, onde encontrou "uma tensão antitética entre a confissão e o anonimato". Chegar ao âmago de um ser humano, mas sem dar nomes: nem de personagens nem de cidades. "Funciona como um biombo transparente. O biombo está lá e visa ser transparente, mas ao mesmo tempo é extremamente criptado". Não sendo uma forma de "sublime coscuvilhice", "Astronomia" é sem dúvida a história de uma vida concreta.

As escolas de Penafiel fazem painéis sobre o escritor homenageado, que espalham pela cidade

As escolas de Penafiel fazem painéis sobre o escritor homenageado, que espalham pela cidade

Octávio Passos / Lusa

O amigo que vai passear os cães durante as fúrias

Falando a seguir, o escritor agradeceu ao coro sénior que abrira a sessão - "começa-se sempre bem quando se começa pela música" - e referiu o contexto fatalmente musical da literatura e da linguagem. Um elogio à escritora Maria do Rosário Pedreira, que é sua editora na Dom Quixote, forneceu pretexto para defender o termo 'poetisa', em detrimento de 'poeta' e outras possíveis alternativas. Também a propósito dessa relação, fez uma alusão às "fúrias homéricas" que supostamente o assolam quando está a trabalhar num livro. O tema seria retomado por outros autores.

O afeto subiria uns graus quando Mário Cláudio contou as reações dos dois amigos que mais lhe aturam as fúrias. Um vai para Lisboa, onde tem uma casa; o outro vai simplesmente "passear os cães". Ao primeiro, o advogado inglês Michael Gordon Lloyd, caberia mais tarde enumerar algumas viagens que fez com o escritor ao longo de décadas, a lugares como Itália e Estados Unidos. O escritor, por sua vez, recordou a aptidão de Lloyd para desaparecer de repente e sem avisar a meio de uma conversa durante as viagens. O modo irónico com que Mário Cláudio foi recordando histórias e características pessoais (dos outros e suas) ao longo da Escritaria gerou gargalhadas frequentes.

Outra ocasião foi quando ele citou uma frase segundo a qual, quando uma pessoa está apaixonada, não sente o mau-hálito da pessoa amada. Ele garantiu "com alívio", e para gáudio do público, que felizmente tinha perdido a capacidade de se apaixonar.

Na conferência onde Lloyd depois contaria as suas reminiscências, participaram também outros próximos do escritor selecionados por ele, desde um primo mais novo até antigos colegas de liceu, além de colaboradores artísticos como Cândido Lima, compositor de referência na música erudita de vanguarda, que lhe dedicou uma peça nova. Este elenco tornou inevitável que a sessão fosse menos uma discussão da sua obra - sobre isso houve pouco, mas ninguém reclamou - do que uma sucessão de tributos e memórias por vezes em tom comovido. Ao aludirem a factos que só os oradores e o escritor conheciam, podiam dizer pouco a quem estava de fora, mas também não era isso que interessava.

Oito rostos visíveis na cidade

A Escritaria incluiu ainda uma exposição e outras manifestações visíveis. Como os sete escritores que vieram ao festival antes dele, Mário Cláudio passou a figurar no espaço da cidade. A silhueta do seu rosto foi colocada numa parede ao lado da dos outros (Agustina, Urbano, Mia Couto, Lobo Antunes, Mário de Carvalho, Lídia Jorge, José Saramago), e uma frase sua ficou exposta num local público visível, com o santuário do Sameiro em fundo. O descerramento desses dois objetos foi acompanhado por atuações do grupo de teatro de rua Andaime. A presença daqueles jovens, bem como dos estudantes de música que tocaram peças clássicas antes de algumas sessões e do coro da universidade senior que atuou numa delas, foi parte da prenda ao escritor, que ia agradecendo.

Como o mérito nunca pode ir todo para uma pessoa, sábado à tarde o radialista Fernando Alves recebeu o prémio de carreira atribuído pela Escritaria. Na tarde deste domingo, houve o lançamento do livro referente à edição do ano passado, dedicada à escritora Lídia Jorge, igualmente presente este ano, e ainda uma homenagem a Afonso Leal, poeta da terra. A terminar o programa, um documentário de Jorge Campos sobre Mário Cláudio.

O sol de fim de tarde desmentia os prognósticos sombrios que tinham ameaçado o fim de semana e emprestava luz aos campos verdes por trás da biblioteca.