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Depois de nos terem dado a razão e a técnica, os Beach House dão-nos agora o coração

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A capa do novo disco

Os Beach House deram-nos um disco no final de agosto e já estávamos preparados para esperar os dois anos da praxe pelo próximo. Mas outubro veio com a boa-nova de mais um álbum deles. Que já está aí. Bendito outubro dos Beach House

Helena Bento

Jornalista

Para quem está habituado a ouvir um novo disco de Beach House de dois em dois anos e já não troca esse hábito nem por nada, o mais recente álbum do duo de Baltimore, lançado na sexta-feira, menos de dois meses depois de “Depression Cherry”, chega não só como uma surpresa, como também causa alguma estranheza (que disco é este? E porquê agora?).

Prevendo isso, Victoria Legrand e Alex Scally - os Beach House são eles os dois - fizeram questão de escrever recentemente no Facebook para esclarecer como aconteceu este novo disco, “Thank Your Lucky Stars”, composto por nove faixas. Apesar de ter sido gravado ao mesmo tempo que o anterior, as canções foram escritas em alturas distintas, tratanto-se por isso de álbuns “muito diferentes”.

Entretanto, os dois disseram também que estas nove canções surgiram “muito rápido”, visto terem sido as letras e a narrativa a tomar as rédeas da coisa. Por isso, têm a impressão de “ter feito um disco totalmente novo, que representa um grande afastamento em relação aos trabalhos anteriores”, lê-se num press release citado pela revista “Pitchfork”. Tematicamente, dizem ainda, trata-se de um álbum com uma componente política significativa. “É difícil pôr isto em palavras, mas houve qualquer coisa neste disco que fez com que quiséssemos lançá-lo sem a promoção normal. Quisemos simplesmente que fizesse parte do mundo, que existisse.”

A referência às letras das canções serve um propósito muito claro. Que é o de distinguir este disco dos anteriores. James Rettig, crítico de músico do site “Stereogum”, assina uma crítica ao álbum em que confessa algo que a poucos passaria pela cabeça confessar. Sem grandes rodeios, diz que nunca prestou muita atenção às letras das canções de Beach House já que estas sempre lhe pareceram, “se não um extra, pelo menos uma pequena parte de uma imagem muito maior”, ou então "um meio para alcançar determinado fim, uma nota que remete para um sentimento”.

James Rettig diz que nunca prestou muita atenção às letras de Beach House. Até agora. Até ter ouvido “Thank Your Lucky Stars”, em que há partes em que é “óbvia” a primazia da história “em relação aos arranjos”, diz, em que aquela se torna prioritária, central. Noutras palavras, é como se a melodia se visse obrigada a render-se e a vergar-se a essa mesma história, não lhe restando mais senão seguir no seu encalço. “And when they ask us / Are we happy inside / We're a rollercoaster / And yeah, we're a fire in the night”, canta Victoria Legrand em “All Your Yeahs”, terceira faixa do álbum. E em “One Thing”, ouvimo-la dizer, naquela sua voz assombrosa que cada vez nos parece menos deste mundo: “One thing yea about you / You always yea you always know / What's happening / Perfect in the morning / And you ruin it in the evening”.

A linhas tantas, o crítico de música faz ainda uma comparação que vale a pena referir aqui. Diz que “Depression Cherry” é a cabeça, a razão, a técnica, e “Thank Your Lucky Stars” é o coração. Ou, se quisermos, a emoção, os sentimentos à fina flor da pele.

“Thank Your Lucky Stars” é o sexto LP dos Beach House, depois de “Beach House”, “Devotion”, “Teen Dream”, “Bloom” e “Depression Cherry”, que na altura foi apresentado por Victoria Legrand e Alex Scally como uma espécie de regresso aos primeiros dois discos da banda, ao início de tudo. Mas ao ouvir o novo álbum fica claro que, se regresso há, ele acontece aqui e agora, com “Thank Your Lucky Stars”.

E se isso pode ser encarado como um problema (é muito fácil acusar o duo de Baltimore de ser previsível, de não quer descolar da velha fórmula de sucesso, mostrando-se sempre igual a si mesmo, e de ter receio de mandar o trabalho que está para trás às urtigas e experimentar criar algo inteiramente novo) pode também, e deve, ser visto como o maior mérito dos Beach House. “Thank Your Lucky Stars” é um regresso ao primeiro e ao segundo e aos restantes discos da banda. É um regresso a casa, previsível, cómodo e muitas vezes arrastado, a essa casa que é sempre a mesma e sempre igual, onde nada de particularmente arrebatador acontece, e ainda bem.