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“Sicário”: este filme é um tiro no estômago

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No mundo dos cartéis de droga não há bons nem maus, só lobos a lutar pelo mesmo território. “Sicário - Infiltrado”, que chega esta quinta-feira a Portugal, é um filme sobre o caos moral desta guerra sem fronteiras e o choque entre o idealismo e o realismo

A sequência de abertura de "Sicário" deixa o espectador perceber logo ao que veio. Uma equipa de resgate de reféns do FBI arromba com um blindado a parede da sala de uma casa num subúrbio de Phoenix, no Arizona, onde se supõe que haja um grupo de pessoas aprisionadas por traficantes de droga. Os agentes não encontram qualquer refém, mas uma troca de tiros abre um buraco que permite descobrir um cenário de horror: as paredes escondem dezenas de cadáveres quase mumificados, vítimas anónimas do cartel, com sacos de plástico colados às cabeças. Nauseados, muitos agentes saem para o pátio, vomitam. Pouco depois, uma bomba explode. Dois morrem.

Por esta altura, os espectadores com estômagos mais sensíveis já estarão a pensar que o melhor era terem optado por uma refeição mais leve antes do filme. É que a obra do canadiano Denis Villeneuve ["O Homem Duplicado", "Raptadas"] é uma montanha-russa repleta de momentos de tensão que nos vão mantendo agarrados ao ecrã, mas que nos disferem um murro no estômago atrás de outro: há corpos mutilados pendurados de uma ponte, uma família dizimada à frente de um homem, cenas de tortura, um banho de sangue na fronteira entre o México e os EUA. Mas a fronteira onde o filme verdadeiramente nos leva é outra: é a fronteira entre o bem e o mal, entre o idealismo e o realismo.

"Sicário" (no México significa assassino profissional) é um filme violento e não podia ser de outra forma: o seu território é o da guerra sangrenta contra os cartéis de droga mexicanos, famosos pela violência usada na execução das suas vítimas. Mas é, sobretudo, um filme sobre a ambiguidade da violência, sobre a moralidade e sobre a legitimidade de algumas ações.

Os meios justificam sempre os fins? A questão parece pairar a todo o momento na cabeça de Kate (Emily Blunt), uma idealista agente do FBI que comanda o assalto à casa no Arizona e que é convidada para integrar uma operação especial ultrassecreta para derrubar o líder do cartel de Sonora — "encontrá-lo será como descobrir uma vacina", diz uma das personagens. É ela quem melhor serve de compasso a esta ambiguidade moral do filme. A cada nova ação dos outros membros da equipa — Matt (Josh Brolin), um misterioso operacional que se apresenta em reuniões de t-shirt e havaianas e responde às inquietações dela com um humor por vezes trocista, e Alejandro (Benicio del Toro), um indivíduo misterioso e sombrio, atormentado por pesadelos e capaz de atos de extrema brutalidade — Kate mostra-se indignada com o total desrespeito pela soberania nacional, pela lei e pela decência humana. Quando protesta, Matt lembra-lhe: "Os limites mudaram".

A dupla parece estar sempre a esconder-lhe alguma informação e, à medida que a intriga se adensa, mais obscuros lhe parecem os objetivos daquela operação. Mas também ela é consumida pelas dúvidas, quando percebe que o "trabalho sujo" daquela missão promete mais resultados do que anos a seguir as regras. Como sugere Alejandro, ali, no território dos cartéis, não há bons nem maus. Só lobos a competir pelo território e pelo poder. "Nada fará sentido na sua cabeça americana. Mas, no fim, vai compreender".

"Sicário" é seguramente um dos "thrillers" mais entusiasmantes do ano e não será surpresa se integrar a lista de nomeações aos Óscares. Villeneuve regressa com distinção a um tema que lhe é familiar, o da violência, que já tinha explorado em "Polytechnique" (2009), a reconstrução meticulosa de um massacre na Universidade de Montreal, e em "Incendies - A Mulher que Canta", uma saga familiar durante a guerra civil do Líbano. Del Toro e Brolin engrandecem o filme com as suas atuações, mas é Blunt que atrai todos os olhares. Por vezes determinada e dura, outras vezes vulnerável e emocional, ela é a personagem mais autêntica do filme e aquela com a qual, desde o primeiro minuto, quase todos se identificam. Pode não lhe valer prémios da crítica, mas vão sobrar-lhe elogios.