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Breves notas sobre o estado da música

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ROLLING STONES. “Old School” Não vendem CD, valem pouco no streaming mas compensam com o cachet dos concertos

O mundo mudou e a indústria da música também não se está a sentir lá muito bem. Há 15 anos era a música gravada — leia-se, as companhias discográficas — quem ia ao volante. Hoje, é a música ao vivo — leia-se, os concertos e festivais — quem está no comando. A mudança não é, obviamente, neutra. E a sua origem está, muito provavelmente, na tecnologia. Em ritmo binário

Miguel Cadete

Miguel Cadete

Diretor-Adjunto

Na semana passada tive a felicidade de moderar um debate na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Festival Jovens Músicos. Discutia-se a relação “música e internet”. José Dias, em representação de uma pequena editora de jazz portuguesa, a Sintoma Records, não podia ter sido mais lapidar quando disse (e cito de cor): que ontem faziam concertos para se vender discos, hoje fazem-se discos para se vender concertos. A música gravada passou a ser um mero cartão de visita da banda ou do artista. Não é um fim em si mesmo, serve apenas a intenção de capturar receitas com os concertos.

Não se pense que tal apenas sucede em companhias ou artistas de nicho. Em Portugal, noticiou o Expresso Diário recentemente, as editoras discográficas associadas na Associação Fonográfica Portuguesa faturaram ao longo dos 12 meses de 2014 algo como 17 milhões de euros. Um valor que é cerca de um décimo daquele que era obtido no final do século passado. O termos de comparação é esmagador quando se sabe que os U2 ou os Rolling Stones pedem aos promotores locais dos seus espectáculos uma garantia que vai dos três milhões de euros aos cinco milhões por cada espectáculo em que se apresentam. Portugal não foge a esta regra dos grandes dinossauros do circo chamado rock'n'roll.

Com o advento do digital, a música gravada massificou-se de forma inapelável. Sim, a pirataria. Mas a razão por que tal sucedeu prende-se com as suas características: no digital, uma cópia é praticamente igual ao original. E a sua fluidez é tremenda, sobretudo quando existe uma rede ao dispor de todos, capaz de ligar toda a gente, como é a internet. A vulgarização da música, pois é fácil e barata, provocou, não há como evitar, a sua vulgarização... A música gravada passou a estar em todo o lugar, por preço nenhum.

A consequência da massificação do digital e da internet foi por isso perturbante: a música gravada perdeu grande parte senão todo o seu valor. E a música ao vivo, por representar uma experiência individual e irrepetível passou a ser a nova galinha dos ovos de ouro. Ninguém assiste ao “mesmo” concerto, ainda que esteja presente na mesma sala ou no mesmo recinto em que sucede um festival. Ninguém poderá reviver essa mesma emoção, pois como já vimos, os suportes digitais não conseguem fornecer esse suplemento que a experiência no local permitem. Não encontro melhor do que o slogan de uma patrocinador de festivais de verão: “vais ver ou vais viver?”

A indústria da música gravada encontrou no streaming uma forma de combater a pirataria e de soltar amarras face ao seu anterior, velho e relho, modelo de negócio: o de vender discos em vinil, CD ou ficheiro áudio. Mas a transição para essa nova forma de fruição da música não se faz sem sobressaltos. Porque as margens na venda de suportes físicos são muito maiores. Ou porque há toda uma mudança nos hábitos de audição que está, muito rapidamente, a impor novas regras. O álbum pode ter os dias contados. E os artistas, mesmo os maiores, já não são “aquelas” vacas sagradas, como eram os Rolling Stones ou os U2. O que conta agora são as canções, venham de onde vieram. Mas esse é assunto que fica para outro artigo.

Miguel Cadete escreve a coluna “O Barulho das Luzes” todas as segundas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO