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A fenda

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LAUSANNE. A proposta do novo museu para a cidade suíça apresentada pelos arquitetos Aires Mateus mereceu a escolha unânime do júri

Terá o nome de Christopher Wren algum significado para o comum dos leitores? É razoável admitir que não fará soar muitas campainhas. Teremos algumas pistas de aproximação se o dissermos pertencente a uma galáxia rara preenchida por nomes como os de Fillipo Brunelleschi, Miguel Ângelo, Andrea Palladio, Lorenzo Bernini, Antoni Gaudi, Frank Lloyd Wright, Mies van der Rohe, Alvar Aalto ou Álvaro Siza Vieira. Falamos de arquitetura, portanto

Christopher Wren (1632-1723) distingue-se por muitos aspetos e percursos da sua vida, mas de igual modo por um sintomático dado associado à sua morte. Na cripta do templo onde está sepultado, um dos seus filhos escreveu em latim o seguinte epitáfio: “Sob esta laje jaz o construtor desta igreja e desta cidade, Christopher Wren, que viveu 90 anos, não para si mesmo, mas para o bem público. Leitor, se procuras um monumento, olha à tua volta”. A igreja é a catedral de S. Paulo. A cidade é a de Londres, em grande parte devastada por um incêndio entre os dias 2 e 5 de setembro de 1666. Ficaram destruídas mais de 13 mil casas, 87 igrejas, a catedral de S. Paulo e dezenas de edifícios públicos. Uma semana após o incêndio, já o arquiteto estava a apresentar a Carlos II um plano urbanístico destinado a fazer emergir das cinzas a nova Londres.

O que hoje conhecemos como “a City” deve-se em grande medida à ação da equipa de arquitetos chefiada por aquele homem que conheceu cinco reinados, uma guerra civil, a decapitação de um rei, várias guerras religiosas e uma praga que dizimou um quarto da população londrina. Londres soube glorificar um dos seus maiores artífices.

Em Portugal são comuns as públicas manifestações de orgulho pelos feitos dos nossos arquitetos. Esta semana tivemos mais um exemplo dessa momentânea visibilidade com a escolha do projeto apresentado pelos irmãos Aires Mateus para a construção de um novo museu em Lausanne, na Suíça.

Confirmou-se uma tendência enraizada na comunicação social portuguesa de se interessar muito pelo lado festivo e não tanto pela reflexão anterior ao que pode proporcionar a festa. Acontece na arquitetura como noutras artes. Viu-se o que foi a quase pornográfica exposição de uma certa imagem do até então quase eremita Herberto Hélder, de repente transformado em campeão de vendas com livros de poesia esgotados antes mesmo de serem publicados.

É a paixão pela superfície. É a paixão pela espuma. É o desmesurado interesse por um certo folclore consagrador, num perigoso salto ou escamotear de etapas de que resulta um fatal esquecimento do muito trabalho em que sempre se ancora o que de repente se descobre ser uma maravilhosa obra de arte, uma poderosa criação literária ou uma singular proposta musical, cinematográfica ou arquitetónica.

Francisco e Manuel Aires Mateus submeteram-se a um duríssimo concurso internacional em competição com nomes consagrados da arquitetura internacional, como os franceses Jean Nouvel e Dominique Perrault, ou a dupla japonesa Kazuyo Sejima e Ryue Nishizawa, alguns deles já premiados com o Pritzker, galardão máximo da arquitetura mundial.

“Um Museu, Dois Museus”, a proposta vencedora entre uma escolha final de 20 projetos oriundos de várias partes do mundo, foi apresentada pelo júri como sendo “coerente, simples e luminosa”. A simplicidade como uma das belas artes sempre foi o desígnio maior de quantos ousam criar sentidos novos num mundo onde parece estar já tudo dito, pensado ou feito.

Não está. Em cada instante há uma nova e fascinante ideia a impor-se como possibilidade real. Os arquitetos surpreenderam ao desenhar dois volumes separados por uma fenda, da qual resulta a existência de um espaço vazio que se expande e estabelece uma continuidade com a praça onde se pretende desenvolver o polo museológico da cidade.

Conseguir pensar para lá do horizonte resulta na opção de Francisco e Manuel de avançar com a original ideia de reunir dois museus - sem que isso fosse exigido pelo caderno de encargos - através de uma sobreposição. Na cave fica o Elysée, dedicado à fotografia e com menos necessidade de luz natural. Suspenso, para lá da fenda, fica o Museu de Design e Arte Contemporânea(Mudac).

O edifício “parece que voa”, dizia esta semana ao Expresso Manuel Aires Mateus. Se virada ao contrário, é uma excelente metáfora para definir o que se passa em Portugal com a generalidade dos grandes arquitetos. Não há, sequer, um voo rasante. A encomenda pública quase não existe. Em geral, a expressão da sua criatividade ou se materializa no estrangeiro, ou não tem por onde se espraiar.

Com mais de 80 anos, Álvaro Siza, por exemplo, está a construir em Nova Iorque ou na China. Evoco Siza por ser paradigmático e pela dimensão do seu estatuto, não por ser caso único. No Porto, na sua cidade, na cidade de um dos mais relevantes arquitetos contemporâneos, bem pode o leitor olhar à volta, como recomendava o filho de Christopher Wren. De pouco lhe servirá, tamanha é a fenda aberta pela desoladora ausência de obra do arquiteto que marca o século XX, português e do mundo.

Valdemar Cruz escreve a coluna “Linha do Norte” todas as quintas-feiras no EXPRESSO DIÁRIO