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Estripar o Estripador (ou pelo menos a sua história)

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PISTA. Fragmento de uma carta alegadamente enviada pelo assasssino

O criminoso mais famoso das ilhas britânicas seria maçon? E terá sido por isso que nunca foi apanhado? Um livro recente defende essa tese

Jack, o Estripador, escapou à forca (ou , pelo menos, à cadeia) devido a uma conspiração maçónica. É esta a tese de uma obra recentemente publicada no Reino Unido por alguém que tem dedicado muitas horas de investigação ao famoso assassino de prostitutas da Londres vitoriana. O crítico do diário “The Guardian” considera que o livro de Bruce Robinson foi escrito “com raiva visceral”, o que, notamos nós, parece aproximar o estudioso do seu objeto de estudo.

O autor (que também é cineasta e já foi nomeado para um Óscar de melhor argumento) parte do princípio de que, no século XIX em Inglaterra, todos os poderosos eram maçons, incluindo Sir Charles Warren, diretor da polícia metropolitana (a célebre Scotland Yard). Terá sido a este “polícia péssimo” e a membros do próprio Governo que o Estripador nunca foi capturado. “Uma conspiração do sistema”, acusa Robinson, que diz a “The Daily Telegraph” ter a certeza de ter decifrado o enigma.

E, perguntará o leitor, porque quereriam os maçons ajudar o assassino? Bom, o autor sustenta que o modo de ação requintadamente cruel de Jack – que esventrava e mutilava as suas vítimas – se inspirava num mito fundador do culto maçónico, ligado ao Templo de Salomão em Israel: três artesãos judeus, de nomes Jubela, Jubelo e Jubelum, terão sido condenados à morte pelo rei sábio após terem assassinado Hiram Abiff, um colega de trabalho que é considerado o primeiro grão-mestre maçónico e o arquiteto-mor do Templo. Foram degolados e, depois, um foi cortado ao meio, a outro queimaram as entranhas e ao terceiro arrancaram o coração.

As vítimas de Jack sofreram destinos semelhantes. A 8 de setembro de 1888, Annie Chapman foi degolada, o assassino abriu-lhe o abdómen e retirou-se os intestinos. Passados 22 dias, sucedeu o mesmo a Catherine Eddowes, em cuja cara havia cortes com o formato de um compasso, conhecido símbolo da maçonaria. Jack arrancou o avental – outro ícone maçónico – que esta mulher utilizava e deixou perto do seu cadáver uma mensagem enigmática que Robinson considera ser uma referência ao mito dos três judeus castigados.

Destruição de provas

O comissário Warren terá, alega este livro, mandado apagar a mensagem antes que pudesse ser usada como pista na investigação. A tese de Robinson vê nos crimes de Jack um estranho jogo mental em que dois maçons conhecedores da organização se desafiam. Warren era arqueólogo amador e queria encontrar provas históricas dos fundamentos da maçonaria.

Dois dias depois do assassínio de Eddowes, foi descoberto perto do rio Tamisa – num local onde hoje é a sede da Scotland Yeard – o torso serrado de uma mulher, que se crê ter sido Lilly Vass. Robinson vê nestes três crimes ecos das mortes de Jubela, Jubelo e Jubelum, respetivamente. Na altura a polícia não relacionou esta terceira morte com a investigação sobre o estripador, que atuava mais no leste da capital britânica, no bairro pobre de Whitechapel.

O autor sustenta que a coreografia assassina do Estripador era “na essência” igual a estas mortes, um espetáculo sangrento baseado na mitologia maçónica, e a que o próprio se referiu numa carta como “joguinho divertido”. Daí que todo um establishment dominado por maçons tenha querido manter a verdade oculta, tese que parecerá ousada e até difícil de engolir, mas que “The Guardian” recorda ter resultado de 15 anos de investigação “indubitavelmente impressionante” (Robinson diz, hoje, que se soubesse o trabalho que ia ter jamais teria começado). O jornal ressalva que a leitura do livro é interessante mesmo para quem não embarcar em teorias da conspiração.

Quem a elas aderir acreditará, como Robinson, que Warren queria menos apanhar o criminoso do que ocultar as suas ligações maçónicas. E, se a identidade de Jack nunca foi estabelecida para lá de qualquer dúvida – os candidatos vão do advogado Montague John Druitt ao escritor Lewis Carroll, passando pelo duque de Clarence, filho do rei Eduardo VII –, este livro acrescenta um suspeito à lista.

Jack, o Compositor

Desta feita, trata-se de um músico, Michael Maybrick, que publicou canções nos anos 1880 sob o nome artístico Stephen Adams. Uma delas tinha como título “They All Love Jack”… convincente? É claro que era maçon. E a canção serve para dar título ao livro de Robinson.

Maybrick tinha tendências homossexuais e era talentoso, inteligente, rico, diz o livro. “Era o último homem em Londres de quem se pensaria que pudesse ser o Estripador”. Logo, um bom suspeito. Parece que partilhava com o criminoso aspetos da caligrafia e andava por Whitechapel, onde Jack terá morto oito mulheres, segundo Robinson. Toynbee Hall, local frequentado por artistas, fica a dois passos do local onde morreu, apunhalada, Martha Tabram.

O crítico do jornal londrino reconhece que a teoria exposta na obra “testa os limites da credibilidade”, mas elogia o detalhe a que Robinson chega. Conclusão: a explicação defendida pela maioria dos autores para o fiasco das investigações sobre o Estripador – incompetência policial – é talvez mais verosímil, mas muito menos picante.

“They All Love Jack”. autor: Bruce Robinson, editora: Fourth Estate, páginas: 864, preço: £9,99€ (13,5 €, preço de editora)

“They All Love Jack”. autor: Bruce Robinson, editora: Fourth Estate, páginas: 864, preço: £9,99€ (13,5 €, preço de editora)