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David Fonseca. “Desprezo a nostalgia”

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Como é que David Fonseca se inspira? Fácil: senta-se (ou então deita-se). E espera

Rita Carmo

“Futuro Eu” é o primeiro disco de David Fonseca exclusivamente cantado em português. Mas, além da forma, há outras mudanças na postura do músico, que quis experimentar uma pele mais livre e surpreendente

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

David Fonseca está de sapatos de bowling e camisa abotoada na pista de um grande centro comercial de Lisboa. A ideia de fazer uma entrevista e respetiva sessão fotográfica neste espaço, num tipo de imaginário que imediatamente o remete para filmes como “O Grande Lebowski”, partiu do próprio músico, que durante a feitura do novo disco, “Futuro Eu”, sonhou incessantemente com este tipo de cenário. “Ah, este som!”, exclama, quando uma jogada mais certeira derruba quase todos os pinos. “Era este o som que aparecia nos meus sonhos!” Para exorcizar os delírios do seu subconsciente, e certificar-se de que os sonhos não eram uma chamada do destino para a sua verdadeira vocação, David Fonseca foi experimentar a sua habilidade no bowling de Leiria. Bowling de Leiria? É verdade, existe e tem um ambiente — entre o grotesco e o surreal — que o cantor e compositor diz não ficar nada a dever ao universo de David Lynch.

A entrevista ainda não começou, oficialmente, e já anotámos mentalmente dois ou três realizadores: os irmãos Joel e Ethan Cohen, as mentes por trás de “O Grande Lebowski”, e David Lynch, uma presença que David Fonseca, antigo estudante de cinema e cinéfilo apaixonado, tanto pressente no bowling de Leiria, onde se bebem martinis e as máquinas celebram patuscamente os feitos dos jogadores, como numa estrada deserta, entre Peniche e o Baleal, onde certa vez filmou um vídeo. Às quatro da manhã.

As referências ao cinema não ficam, contudo, por aqui. Músico profissional desde que os Silence 4 se tornaram um dos maiores casos de sucesso de sempre no pop/rock português, David Fonseca acredita que já tocou um pouco por todo o país. “Acho que só deixei de tocar quando os Silence 4 pararam, durante um ano e tal, o que significa que estou desde 1998 a tocar em Portugal. Duvido que haja sítios onde nunca tenha tocado — se há um palco, eu já lá estive”, ri-se. “Costumo dizer que conheço o país melhor do que a maioria dos políticos”, acrescenta, e é desse contacto com o Portugal real (“convenhamos, sete milhões de portugueses vivem fora dos grandes centros”) que retira duas conclusões: alguns dos maiores provincianos vivem em Lisboa, e o cinema português trata o Portugal que não conhece com paternalismo. Uma exceção que o maravilhou: Miguel Gomes e o filme “As Mil e Uma Noites”, cujo primeiro “capítulo”, “O Inquieto”, David Fonseca não se cansa de elogiar. “Acho que foi a primeira vez que vi o Portugal real no cinema”. O alheamento dos cidadãos urbanos deste Portugal que subsiste espanta David Fonseca: “O que acho estranho é Lisboa ver esse mundo como uma coisa distante. ‘A terra!’ E eu penso: oh, amigos, vão a Barcelos e verão que aquelas pessoas têm vidas muito mais interessantes do que as vossas, e os sítios são muito mais bonitos. E vocês julgam que estão no sítio mais espetacular do mundo porquê, porque têm cinema 3D? Poupem-me!”

As ideias para o primeiro disco a solo desde 2012 não surgiram em catadupa. David Fonseca esperou — literalmente sentado — que a inspiração lhe aparecesse

As ideias para o primeiro disco a solo desde 2012 não surgiram em catadupa. David Fonseca esperou — literalmente sentado — que a inspiração lhe aparecesse

Rita Carmo

No hotel do “Shining”

Em 2014, David Fonseca aceitou o desafio da sua antiga colega de banda, Sofia Lisboa, e juntou os Silence 4 para alguns concertos cujas receitas foram parcialmente entregues à Liga Portuguesa contra o Cancro. A luta que a cantora travou contra a leucemia, e consequente vitória, foram o mote de uma reunião na qual o artista nunca tinha mostrado interesse. E o reencontro acabou por determinar, também, a direção que viria a seguir em “Futuro Eu”. “Fiz este disco numa circunstância muito específica”, conta-nos. “A certa altura, senti-me num limbo sobre o futuro. Estava perdido e entretanto surgiram [os concertos dos] Silence 4, com aquele convite da Sofia, aquela maluquice toda. E eu disse-lhe logo: vou fazer isto, vai ser espetacular, mas desprezo a nostalgia. Odeio a ideia de viver no passado”, reforça. “Vivi numa residência, quando vim para Lisboa, e tenho amigos que ainda hoje me dizem que foi a melhor altura da vida deles. Eu não consigo compreender, é uma coisa que me põe doente de ouvir”, garante. “A minha esperança é que o melhor ainda esteja para vir.”

O tempo passado em ensaios com a banda que fez furor nos anos 90, separando-se em 2001, fê-lo querer carregar no botão do forward. “A ideia de, criativamente, me ir enfiar no passado assustou-me um pouco. E, como sou muito metódico nestas coisas da arte, fiz uma coisa muito específica: os Silence 4 tinham ensaios às segundas, terças e quartas e eu, quarta à noite, quando o ensaio acabava, metia-me num carro para Peniche e ia para uma casa que a minha avó tem lá, fazer música que, no fundo, acabava por negar o que tinha acabado de fazer com os Silence 4 naqueles três dias, que era passado.”

As ideias para o primeiro disco a solo desde 2012 não surgiram propriamente em catadupa. Seguindo os ensinamentos de um professor de argumento que teve na Escola de Cinema, David Fonseca esperou — literalmente sentado — que a inspiração lhe aparecesse. “Ficava naquela casa, com a guitarra, e havia dias em que não acontecia nada. E depois apareceu, o tal breakthrough, e foi uma descoberta imensa que me pôs em contacto com muitas coisas”, recorda, referindo-se ao facto de ter começado a escrever a português, mas não só. “Quando fazemos música, temos sempre de procurar uma coisa, dentro de nós, que ressoe uma abstração qualquer, e é sempre surpreendente quando abrimos uma porta que nunca tínhamos aberto”.

Assumidamente em modo de “atirar o barro à parede”, montou um miniestúdio na casa da avó e procurou formas de ser “mais direto. Tinha um órgão e peguei em fita-cola – como estou sozinho, às vezes é difícil tocar os instrumentos todos – e fiz um acorde, que ficou a tocar. Pus o microfone, peguei na guitarra, e fui experimentando tudo o que me vinha à cabeça, até que surge uma frase claramente em português de uma coisa muito específica que queria dizer, e soou-me muito bem.”

A epifania apanhou-o de surpresa: 95% da música que ouve é em inglês, pelo que começar a escrever em português, de forma menos “infantilizada e frágil”, deu trabalho. “Tinha uma máquina de escrever antiga — comprei uma Olivetti Tropical no OLX, a única que encontrei com um teclado igual ao do computador, com acentos e tudo, e sentei-me naquela cozinha durante dias, escrevendo tentativas estranhas de poemas, contos, diários. Às vezes a minha mulher visitava-me, para ver se eu estava vivo, e perguntava: mas o que é isto? Eram resmas de papel!”, gargalha. Como numa versão benigna de Jack Torrance no filme “Shining”, alvitramos. David Fonseca ri-se de novo. “Não deixa de ser curioso, porque o vídeo do [primeiro single] ‘Futuro Eu’ é baseado na ideia do ‘Shining’. Deve haver aí alguma analogia, de certeza! Quando estava lá, pensei: espero não estar a ficar maluco como ele. Ainda por cima, a casa tinha um corredor muito fantasmagórico, tanto que me perguntavam sempre se não tinha medo de ficar lá sozinho à noite. A casa é muito antiga e junto ao mar, range muito!”

David Fonseca atirou, contudo, os medos para trás das costas e, da escrita do disco à sua promoção, através de lançamentos surpresa e vídeos imaginativos para ‘meros’ lados B, está disposto a abraçar um novo “eu”. “Vamos mostrar as coisas de outra maneira, variar um pouco e, acima de tudo, numa [atitude] que vem com a idade, tirar mais prazer do processo em si. Todo este processo tem sido mais divertido do que qualquer disco que tenha feito no passado.”