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A verdadeira história por detrás de “Black Mass - Jogo Sujo”

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O filme sobre a vida de “Whitey” Bulger, um dos gangsteres mais famosos dos EUA, que chegou esta semana às salas de cinema portuguesas, é muito fiel à verdade dos factos. Mas há algumas exceções

No final da década de 80, o submundo do crime de Boston, nos EUA, era dominado por Jim "Whitey" Bulger, que ascendera de temível soldado raso no gangue de Winter Hill a padrinho da Máfia irlandesa. Mas o que ninguém percebia é como é que o criminoso mais temido da cidade conseguia escapar sem ter sequer uma contraordenação de trânsito desde 1955. Quando Dick Lehr e Gerard O'Neill começaram a investigar a historia de "Whitey" e do seu irmão, o senador Billy Bulger, estavam ainda longe de imaginar que a folha limpa do gangster se devia menos à sua astúcia e bem mais à aliança que estabelecera com o agente do FBI John Connolly, que crescera com ele nas ruas de South Boston. O que começou como uma combinação para derrubar a Máfia italiana, em troca de proteção para Bulger, depressa se transformou num pesadelo de homicídios, tráfico de droga e extorsão que escapou ao controlo do FBI e originou o maior escândalo envolvendo informadores da história da instituição. A investigação dos dois repórteres deu origem ao livro "Jogo Sujo: A Máfia Irlandesa, o FBI e um Pacto com o Diabo", cuja versão mais recente, "Jogo Sujo", lançada recentemente em Portugal, deu origem ao filme homónimo que esta quinta-feira chegou às salas de cinema nacionais. Eis o que é verdade e o que é ficção nesta fascinante história.

Benedict Cumberbatch (à esquerda) veste a pele do senador Billy Bulger, irmão do ínfame criminoso

Benedict Cumberbatch (à esquerda) veste a pele do senador Billy Bulger, irmão do ínfame criminoso

FICÇÃO: O IRMÃO DE "WHITEY" PÔ-LO EM CONTACTO COM O AGENTE DO FBI JOHN CONNOLLY

É verdade que Jim e Billy Bulger e John Connolly cresceram num projeto social do mais isolado dos bairros irlandeses de Boston, "Southie" (South Boston), até seguirem caminhos de sucesso distintos: "Whitey" tornou-se o gangster mais poderoso da cidade, Billy o político mais importante do Massachussetts e Connolly um destacado agente do FBI. De acordo com o filme, este aborda Billy para que o ponha em contacto com "Whitey", sugerindo uma parceria que podia ser proveitosa para ambos. Porém, segundo um trabalho recente da revista "New Yorker", uma das condições do gangster para aceitar entregar informação ao FBI foi que o irmão não soubesse disso. "Detestávamos informadores", escreveu Billy nas suas memórias em 1996.

Cara e Coroa: o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton) e o criminoso "Whitey" Bulger (Johnny Depp)

Cara e Coroa: o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton) e o criminoso "Whitey" Bulger (Johnny Depp)

Claire Folger

FICÇÃO: "WHITEY" FOI O PRIMEIRO DO SEU GANGUE A ASSOCIAR-SE AO FBI

No filme, há uma cena em que "Whitey" explica com muito cuidado a um dos seus homens, Stevie Flemmi, um assassino conhecido como "The Rifleman", que está a passar informações ao FBI para derrubar a máfia italiana, livrando-se assim dos seus rivais. Porém, segundo a "New Yorker", a realidade é que Bulger sabia que o próprio Flemmi colaborava com as autoridades há muitos anos e que isso lhe permitia atuar com impunidade.

MEIA VERDADE: BULGER AJUDOU O FBI A PRENDER O LÍDER DA MAFIA

Segundo a "New Yorker", Bulger terá mesmo dado ao FBI informações que ajudaram a derrubar o patriarca do crime em Boston, mas "Whitey" sempre negou que fosse um informador. Na sua perspetiva, era ele que controlava o FBI e não o inverso e parece hoje inegável que beneficiou muito mais desta associação do que aquilo que deu em troca. Em "Brutal", um livro da autoria de Kevin Weeks, guarda-costas de "Whitey" entre 1978 e 1994, este explica que Connolly lhe contou que mais de 90 por cento das informações passadas ao FBI vinham de Flemmi e não de Bulger. Para manter o gangster na sua lista de informadores, o agente federal teve que falsificar vários relatórios, colocando no dossiê de Bulger informações que chegavam de outras fontes, sobretudo Flemmi.

MEIA-VERDADE: "WHITEY" GANHOU A LOTARIA

No filme, há um momento que mostra o gangster com um bilhete de lotaria premiado. Na realidade, foi outro homem, Michael Linksey, quem comprou o bilhete, que lhe garantiu 14,3 milhões de dólares, numa drogaria que pertencia a Bulger. Mais tarde, "Whitey" seria acusado de, juntamente com Linksey, o irmão deste e Kevin Weeks, assinar um acordo para dividir os ganhos, o que serviria para lavar dinheiro das suas atividades criminosas.

Dakota Johnson é Lindsey Cyr, a mulher do filho de "Whitey"

Dakota Johnson é Lindsey Cyr, a mulher do filho de "Whitey"

IMPROVÁVEL: A MORTE DO FILHO DE "WHITEY" TORNOU-O MAIS VIOLENTO

A mãe do filho do gangster, Lindsey Cyr, admitiu ao "Boston Globe" que Whitey tornou-se "mais frio" depois da morte do rapaz, aos 6 anos, devido ao Síndrome de Reye (relacionado com uma má reação à aspirina). A verdade é que a tragédia aconteceu em 1973, uns anos antes do que o filme mostra, e Bulger já teria então ordenado muitos assassinatos, escreve a "Time". "Whitey era violento muito antes da morte do filho", confirma Weeks.

FACTO: "WHITEY" PARTICIPOU EM EXPERIÊNCIAS COM LSD NA PRISÃO

Antes de ser uma figura de proa do crime de Boston, Bulger cumpriu nove anos de pena em prisões federais, incluindo Alcatraz, devido a uma série de assaltos a bancos. Segundo o livro "Jogo Sujo", em troca de uma pena reduzida, aceitou participar num programa de ensaios com LSD, que segundo Flemmi se chamaria "Ultra", com o qual a CIA queria testar se a droga tinha potencial para ser usado em interrogatórios. Segundo o seu antigo cúmplice, "Whitey" foi escolhido porque "tinha um QI tão elevado" e terá sido voluntário no programa durante 18 meses.

"Whitey" Bulger (Depp) aperta o pescoço a Marianne Connolly (Julianne Nicholson)

"Whitey" Bulger (Depp) aperta o pescoço a Marianne Connolly (Julianne Nicholson)

IMPROVÁVEL: "WHITEY" ATACOU A MULHER DE CONNOLLY

No livro "Jogo Sujo", não há qualquer referência a um incidente em que Bulger tenha ameaçado a mulher de Connolly apertando-lhe a garganta, como o filme mostra. Na realidade, segundo a "Time", John e Marianne separaram-se em 1978, antes do jantar em casa do agente do FBI em que terá ocorrido a agressão.

FACTO: "WHITEY" BULGER ESTRANGULOU UMA AMANTE DE FLEMMI

Desde o início da década de 1960, Stevie Flemmi vivia com uma mulher, Marion Hussey, apesar de nunca se ter separado de Jeannette McLaughlin, com quem se casara nos anos 1950, quando era paraquedista. Mais tarde, acabou por se envolver com a filha de Marion, Debbie, com quem era visto a passear no seu Jaguar. Depois de uma noite em que a jovem foi detida pela polícia, com receio que ela tivesse falado demais, "Whitey", com a ajuda de Stevie, atraiu-a para a velha casa da sua mãe e estrangulou-a na cave. Quando o cadáver foi descoberto, muitos anos mais tarde, não tinha dedos das mãos e dos pés nem dentes.

FICÇÃO: "WHITEY" FUGIU SOZINHO

No filme, quando foge e, anos depois, quando é detido, "Whitey" parece estar sozinho, o que não corresponde à verdade. Depois de se separar de Lindsey Cyr, após a morte do filho de ambos, "Whitey" manteve duas relações simultâneas: uma com Theresa Stanley, uma divorciada com quatro filhos, a outra com Catherine Greig, que tinha menos 22 anos quando se conheceram. Bulger tinha morto dois cunhados dela, mas ela não sabia ou não quis saber. Quando Connolly avisou "Whitey" que estava prestes a ser preso, este fugiu com Stanley, mas depois de dois meses na estrada ela cansou-se e pediu para ir para casa. O gangster foragido deixou-a então num parque de estacionamento e foi buscar Greig, com quem passou os 16 anos seguintes. Depois da detenção dele, em 2011, ela foi condenada a oito anos de prisão e ainda está a cumprir pena.