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A música que embala o mundo

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Mariza tem um novo álbum e arranca nos próximos dias para a digressão mundial de apresentação de “Mundo”. Atua no Porto e em Lisboa no final de novembro. É a artista portuguesa com maior êxito internacional, recordista de salas esgotadas em cinco continentes. Mesmo que ninguém perceba o que está a cantar. Ou será que percebem? No dia em que Mariza apresenta o seu novo trabalho ao vivo, num miniconcerto à porta dos Armazéns do Chiado, em Lisboa, pelas 18h, republicamos um trabalho com a cantora publicado na Revista E em setembro de 2015

Ricardo Marques

Ricardo Marques

Texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotos

Fotojornalista

Stu Bergen é um tipo ocupado. É um daqueles executivos que, se for preciso, acorda em Nova Iorque, janta em Londres e vai dormir a Paris — depois de ter estado a tarde toda à conversa com alguém em Tóquio. Há duas semanas, numa quarta-feira, passou o dia inteiro em Dublin, no Intercontinental Hotel, mais de 1400 metros quadrados e quase duas centenas de quartos, tudo cinco estrelas, a pouco mais de meia hora a pé do Trinity College. Os responsáveis máximos de marketing dos maiores mercados da Warner Recorded Music voaram de vários pontos do mundo até à capital irlandesa para a reunião anual com o presidente da divisão internacional da editora, esse americano chamado Stu Bergen. Como seria previsível, depois do almoço, antes de regressarem ao trabalho, Bergen e os outros sentaram-se a ouvir música.

A maioria dos presentes não entendeu uma palavra do que se seguiu. A mulher alta e magra diante deles cantou-lhes a alma, a paixão e a maldição e também lhes falou de um sol que anda na rua dela — e que só de vez em quando se vê em Dublin. Mariza, que voara de Lisboa nessa manhã, cantou ao vivo quatro canções do seu novo álbum. “Extraordinário” foi a palavra usada por João Teixeira, o responsável da Warner em Portugal, um dos executivos que esteve na reunião e provavelmente o único que percebeu as letras. O que, no caso, pouco importa. À noite, as conversas no hotel eram todas sobre o miniconcerto dessa tarde. E Stu Bergen, um dos homens mais poderosos do mundo da música, perdeu alguns minutos a escrever um “nada habitual” e-mail de agradecimento para Portugal.

Dois dias depois, às duas e meia da tarde de sexta-feira, 18 de setembro, Mariza chegou pontualmente ao Expresso para a sessão fotográfica que ilustra este artigo. Como se nada tivesse acontecido. No entanto, a julgar pelo sucesso de Dublin, a cantora portuguesa tem de novo o mundo a seus pés. O mais recente álbum estará à venda no próximo mês, a 9 de outubro (no dia seguinte há concerto grátis no Chiado), e, para fazer jus ao nome do disco — chama-se “Mundo” —, já tem concertos marcados um pouco por todo... o mundo. Até 19 de novembro, toca na Suécia, nos Estados Unidos da América, no Canadá, na Suíça, no Luxemburgo, na Áustria e na Alemanha. Seria fácil dizer apenas que Mariza, a mais internacional e aclamada artista portuguesa da atualidade, está de volta ao trabalho cinco anos depois do último disco, mas a verdade é um pouco mais complexa. Sim, ela voltou, mesmo já não sendo bem ela e ainda que não tenha deixado nunca de ser ela. E a maior mudança, adiante-se, é pequena e gosta de cantarolar quando brinca no chão com carrinhos.

“Acho que era muito egoísta. Muito egoísta. Fria. O meu único objetivo era cantar. No fundo, se calhar, era uma tonta. Um pouco tola. E quando o Martim nasce, da forma como ele nasce, há uma mudança gigante na minha vida”, admite Mariza. Martim, que nasceu prematuro, tem hoje 4 anos. “Quando não se quer parar e a vida nos obriga a parar, por questões de saúde, começamos a olhar para tudo o que nos rodeia de outra forma. Principalmente porque a saúde não tinha só a ver comigo, mas também com um outro ser. E esse ser tão pequenino veio ensinar-me e pôr-me à prova em várias questões”, explica. A escala de valores é hoje diferente: a família tornou-se o Dó, onde tudo começa e acaba. O Ré, o Mi, o Fá, o Si e o Lá e o Sol também são diferentes. “Mas ao longo destes cinco anos em que estive praticamente sem gravar também fui percebendo que não consigo ser feliz sem cantar. Quando estou em casa estou a pensar na estrada e quando estou na estrada estou a pensar em casa. Às vezes é extremamente complicado”, confessa Mariza, às voltas com a sua música e com o seu mundo.

O mundo à sua volta saúda o novo trabalho. “Já vi dois concertos dela e adorei ambos. Mal posso esperar pelo de novembro”, revela ao Expresso Miho Nishimoto, a responsável pela Warner na Alemanha. Ouviu-a pela primeira vez há dois anos, em Colónia. “Foi um dos momentos inesquecíveis da minha vida. A música dela é pura, com algo de melancolia. É uma mistura do tradicional com o moderno, tal como Lisboa. Ou como a luz, a que se reflete no Tejo, e a escuridão, a dos bairros típicos”, arrisca Miho Nishimoto, antes de atirar a resposta à pergunta que se segue: o que explica o sucesso planetário de uma artista que alicerçou a sua carreira nas melodias e palavras de uma música cantada nas ruas mais estreitas da cidade capital de um país na ponta da Europa? “Se não entendermos a letra, o fado tradicional pode soar um pouco monótono. A Mariza é tão importante porque nos toca sem barreiras de linguagem. Por um lado, ela canta de forma tão intensa que a sua voz, poderosa mas sensível, toca-nos diretamente. Por outro, a sua música, ainda que influenciada por outros géneros, tem o fado por base. É como nós. Ninguém no mundo usa apenas uma cor ou come a mesma comida todos os dias.”

Há 13 anos, Simon Broughton, jornalista da revista “Songlines”, estava num pequeno clube chamado Momos, na cave de um restaurante marroquino no número 25 da Heddon Street, em Londres. “Foi em 2002. Foi a primeira vez que a vi ao vivo e lembro-me de ficar muito contente por estar tão perto dela. Percebi que no futuro iria tocar em salas muito maiores, mas nunca me passou pela cabeça, naqueles dias, que iria acabar a filmá-la para um documentário da BBC num sítio como a Tasca do Chico, em Lisboa”, recorda o autor de “Mariza & the Story of Fado”. “Desde então, desde esse álbum de estreia, ‘Fado em Mim’, muitas coisas mudaram. A visão tornou-se mais ampla, em particular no novo ‘Mundo’. Mas de alguma forma há sempre uma essência que se mantém constante. Uma qualidade delicada e uma emoção profunda e controlada”, resume Simon Broughton. “Eu diria que hoje em dia, em qualquer parte do mundo, as pessoas não vão ver fado ou uma ideia de Portugal. Vão ver a Mariza. Mas eu sei que, por terem visto a Mariza, ficam com vontade de ir a Portugal.”

Alta costura

Mariza acabou há instantes a sessão fotográfica. Pede um copo de água — “sim, pode ser fresca” — e senta-se no sofá de três lugares arrumado junto à parede negra do estúdio. Fala sobre o novo disco e sobre o caminho para lá chegar. Fala sobre música e sobre fado. “Vocês chamam-me fadista, mas eu nunca disse que era fadista. Para mim, é um grande elogio, adoro que me chamem fadista. Mas acho que sou uma intérprete, um veículo de palavras, e sinto-me muito feliz que seja assim.” No novo álbum, há notas e palavras de Rui Veloso, Paulo Abreu Lima, Paulo de Carvalho, Miguel Gameiro, Jorge Fernando... “Todos me traziam coisas e eu, por vezes, não gostava e eles levavam de volta. E traziam outra vez. Esse disco é como se fosse um disco de alta costura Como se pegássemos num tecido e o cortássemos à medida da voz. A maior parte das músicas que lá estão foram feitas para mim, para eu cantar, para a minha voz. E as outras, as que eu escolhi, são músicas que já gostava de ter cantado há muito tempo. Isto é mesmo alta costura.”

Um dos costureiros, talvez o principal, foi Javier Limón, o multi-instrumentista espanhol vencedor de vários Grammys que é também o produtor do disco. “Ele trazia um tema e eu não gostava de uma palavra, porque era em espanhol e eu não a conseguia dizer. E ele mudava”, conta Mariza. Ela, conta agora Javier Limón, que um dia numa casa de fados se levantou para cantar ‘Mi Niña Lola’, de Pepe Pinto. “É um dos grandes momentos que guardo no meu coração”, admite o músico espanhol. “En mi corazón.” Limon não poupa elogios a Mariza. “Ela sabe captar a essência da música e da cultura portuguesa tal como Piazzolla fez com o tango e Paco de Lucía com o flamenco. A Mariza soube conservar a essência e, ao mesmo tempo, fazer crescer o género para chegar a novos lugares. É normal que os mais tradicionalistas considerem que vai demasiado longe, mas graças a ela abrem-se novos caminhos que outros músicos portugueses podem percorrer. É a mais importante artista de fado do mundo.”

O mundo a falar do Mundo. Outra vez. Ou a prova irrefutável de que ele é mesmo redondo. Tom Schnabel, por exemplo, começou a andar à volta em 2001. O radialista americano — autor do programa “Rhythm Planet”, na estação KCRW, em Los Angeles — viu o primeiro concerto de Mariza em Roterdão. “Fiquei siderado pela forma de ela cantar e pela absoluta marca de estrela. Desde então, vi todos os concertos que deu em Los Angeles, menos um. E fui uma das pessoas que mais se empenhou em promover o seu trabalho nos Estados Unidos da América”, conta ao Expresso. E a América não é um mercado fácil. “Acho que é mesmo muito difícil e, mesmo para quem tem muito talento, são precisos muitos anos para triunfar nos EUA”, assegura ao Expresso Tobias Tumarkin, diretor da editora CAMI Music USA. “Nos últimos dez anos, ela tem esgotado com regularidade salas de dois mil lugares nos maiores mercados da América do Norte. Vai ter dez espetáculos aqui em outubro e uma outra digressão, no outono, com mais datas. Em 2009, fizemos uma digressão com 50 concertos em todo o país, um feito impressionante para qualquer artista, e particularmente para uma cantora de fado.”

Mas o que ouvem os americanos quando ouvem Mariza? “A elegância dos portugueses e a esperança de ultrapassar qualquer tristeza, qualquer obstáculo”, responde Tobias. E os alemães? “A simplicidade do som e da melodia que resultam de uma série de sentimentos, de pensamentos e de situações complicadas na vida. A música dela é delicada, direta e poderosa”, responde Miho Nishimoto. “A reação mais comum é uma mistura de espanto e deslumbramento. Em todos os concertos vejo pessoas que abanam a cabeça, incrédulas”, acrescenta Georg Pfaab, também alemão, diretor da Prime Tours, uma empresa de gestão de digressões. “Devoção. É isso que as pessoas sentem”, garante Simon Brougthon sobre os ingleses. “Não sei por que razão tem tantos fãs no Reino Unido, mas tem. Acima de tudo, talvez seja a sua capacidade de cantar ao vivo.” Seja no Olympia de Paris, na Ópera de Frankfurt, no Royal Albert Hall de Londres, no Le Carré em Amesterdão, no Palau de la Música de Barcelona, na Ópera de Sydney, no Carnegie Hall em Nova Iorque, no Walt Disney Concert Hall de Los Angeles. Ou em casa de Alejandro Sanz. “Cozinhámos uma cataplana portuguesa, e a Mariza disse que era diferente”, conta Javier Limón. “Nessa noite, ela cantou em casa do Alejandro, e toda a gente acabou a chorar.”

Chorar foi algo que nunca passou pela cabeça de João Pedro Zannati, o embaixador de Portugal no Japão em 2009 (hoje reformado), ano em que Mariza cantou pela primeira vez em Tóquio. Mas os nervos e o receio estavam bem presentes. “O problema é que os japoneses gostam muito do que já conhecem e não é fácil tocar lá a primeira vez. Conheciam muito bem os Madredeus, uma espécie de culto lá, e a Amália, mas não a Mariza. A sala não era das maiores, mas era considerável. Tive algum receio, admito que cheguei a ficar preocupado, mas correu muito bem. Muito bem, mesmo”, recorda o diplomata, que, na Suécia, por vezes tinha dificuldade em arranjar bilhetes para um concerto de Mariza. “Os japoneses adoram fado, gostam muito daquela temática da saudade, da nostalgia. Há mesmo um clube de fado, e sempre que havia cerimónias na embaixada convidávamos artistas japoneses para cantar. É uma música que resulta muito bem lá.”

O fado foi considerado Património Imaterial da Humanidade num domingo, dia 27 de novembro de 2011. Martim, o filho de Mariza e do empresário António Ferreira, tinha nascido a 28 de junho, prematuro, aos seis meses e meio de gestação. Pesava 800 gramas e passou os meses seguintes internado na unidade de neonatologia do Hospital de Santa Maria. Em dezembro desse ano, Mariza — que com Carlos do Carmo tinha sido embaixadora da candidatura portuguesa — cantou na gala em que se celebrou a decisão na UNESCO. “Sim, contribui para isso. Mas não fui só eu. Temos de agradecer a todas as pessoas que durante tantos anos, tantos anos, mantiveram o fado vivo para que eu hoje possa chegar e tirar partido disso”, diz. Mergulha no mundo passado sem sair do sofá. Surgem os fadistas que cantavam nos bairros sem haver quem os quisesse ouvir, as editoras que nada queriam com o fado. Vem essa música que parecia maldita e que hoje está na moda.

“De repente, aqui em Portugal não há uma única editora, seja debaixo de uma escada ou debaixo de uma pedra, que não queira ter um cantor de fado. Acham que o fado é a música que podemos exportar e que toda a gente vai ouvir. E nós temos tantas outras coisas tão boas para poder mostrar”, garante. “O cante alentejano, o folclore, o Júlio Pereira e os seus cavaquinhos — que está aí tão presente, tão presente... Mas quando se vê uma coisa ter sucesso vira-se tudo para a mesma pedra. Em vez de procurar outra pedra que possa dar uma outra árvore de fruto”, lamenta Mariza, como se, no seu “Mundo”, cantasse: “Na minha voz noturna nasce um rio/ que não se chama Tejo nem Mondego/ que não leva barqueiro nem navio/ que não corre por entre o arvoredo” (‘Rio de Mágoa’, de Rosa Lobato Faria e Mário Pacheco).

Concerto em Lisboa

A voz de Mariza explica que o novo disco, uma viagem em 14 canções, é talvez o mais “intimista”. “Não tento provar se tenho ou não um poder vocal grande, se canto muito ou não canto... Não se trata disso. Este disco é a minha tentativa de mostrar o que é que faz sentido para mim neste momento. Tendo a guitarra portuguesa envolvida, e mantendo algumas tónicas de fado, é a minha visão daquilo que sinto, do que percebi nestes cinco anos. É muito uma mostra do meu interior”, revela. Dos ritmos de Cabo Verde à sonoridade do flamenco, “Mundo” é uma espécie de regresso à estrada, um “voltar a partir do local onde chegámos há cinco anos”, como o descreveu Paulo Miranda, da Warner Portugal.

“Tenho muito interesse neste novo disco”, assegura ao Expresso Richard Elliott, professor de Música Popular na Faculdade de Media, Filme e Música da Universidade de Sussex e autor do livro “Fado and the Place of Longing”, editado em 2010. “A Mariza atuou em Newcastle upon Tyne, a cidade para onde vim morar quando deixei Lisboa. Consegui um lugar muito bom, à frente, e ainda me lembro da excitação quando ela pisou o palco com um daqueles vestidos magníficos e de novo quando começou a cantar”, lembra Richard Elliott. “Gosto muito do trabalho dela, embora a minha preferência vá para os três primeiros álbuns de estúdio. Não apreciei muito algumas das experiências do disco ‘Terra’ e, aquando da digressão, houve algumas ideias de que também não gostei, como por exemplo ter uma bateria em palco. Não sou um tradicionalista absoluto, mas senti que a música perdeu algo, talvez o drama e a emoção de anteriores concertos.” Para o professor universitário britânico, o auge da emoção e do drama ocorreu em 2005, no concerto de Mariza em Lisboa, espetáculo que, mais tarde, integrou o DVD. Em particular, diz, o momento em que Mariza canta ‘Ó Gente da Minha Terra’, um poema de Amália Rodrigues musicado por Tiago Machado. “A gravação em estúdio já era poderosa, devido à letra, que atira a culpa do desespero da cantora para as pessoas para quem canta. Mas ao vivo tudo isso se torna ainda mais grandioso, porque essas pessoas estão lá, e há como que um diálogo entre a cantora e o público”, explica Richard Elliott. Nessa noite, Mariza chorou ao cantar: “Ó gente da minha terra/ Agora é que eu percebi/ Esta tristeza que trago/ Foi de vós que recebi.”

“Foi o concerto mais bonito da minha vida, o mais marcante”, reconhece Mariza, como se começasse pelo fim. Custa-lhe que a comparem a Amália. “Ao princípio chocou-me profundamente. Eu sei que alguns diziam isso com um sentido muito gratificante — queriam comparar-me com o melhor que conheciam. Mas outros faziam-no com um sentido negativo, porque achavam que eu queria ser a nova Amália. Nunca foi essa a minha intenção, nem nunca será”, garante. O incómodo ficou. “Faço o segundo disco muito contrariada, muito zangada, com vontade de fugir, de não cantar mais. Chego ao terceiro disco mais segura, mais tranquila, mas sem nunca saber ao certo o que se passava na minha casa. E depois dá-se o concerto em Belém.”

O dia amanheceu chuvoso, e Mariza ficou ainda mais nervosa (“Fico sempre nervosa antes dos concertos. Quando deixar de ficar é preferível deixar de cantar”, diz). Telefona para o escritório a chorar, com medo de que ninguém aparecesse. Tinha dores de barriga, sentia-se febril. No camarim, antes de subir ao palco, Jaques Morelenbaum, o maestro brasileiro, bate à porta: “Olha, você quer uma tacinha de vinho?” “Não, obrigado. Deixe-me um bocadinho sossegada, que eu não quero sequer pensar.” Chega a hora. “Quando subo ao palco e vejo aquele mar de gente... Foi aí que tive a perceção de que na minha casa gostavam de mim. Até ali, eu não tinha essa perceção. Quando canto ‘Ó Gente da Minha Terra’, que eu queria que tirassem essas imagens do DVD, as pessoas veem-me a chorar. Foi um turning point. Tudo mudou, e na minha própria consciência, na forma de estar como artista, sinto-me mais segura.”

A conversa no sofá vem do passado para o presente e aterra vencida pelas notícias. O mundo está diferente. “Eu nunca sonhei com nada disto. Aconteceu, foi aparecendo na vida. O que eu agradeço. Estamos numa época em que se está a falar muito dos refugiados, das fronteiras. Eu já sei o que é estar — não desta forma, como estas pessoas —, mas já soube o que é ninguém nos querer. Ninguém queria os retornados. De certa forma, eu sei o que é isso. De não querer, de não ser bem aceite. ” [Mariza veio de Moçambique, com os pais, quando tinha 3 anos] “E hoje sou tão bem aceite no país que escolhi para viver e que amo e que adoro e que agradeço por me ter recebido. E houve uma oportunidade na vida, que eu não esperava, de poder representar a minha língua e de poder levar Portugal mais longe e a cultura portuguesa a outros povos e a outras culturas.” Ela, que diz ser uma intérprete, caminha pelo mundo a cantar. “Subo ao palco e canto. Não aqueço a voz, não faço nada. Entro e canto. Para mim, é natural, acho que as pessoas têm de entender. Há músicas que lhes arrepiam a pele. Cada pessoa sente à sua maneira, e acho que é essa a magia que a música tem. A música não tem língua. Se tivesse, seria uma chatice.” Há outra forma de encarar a questão: ao não ter língua alguma, a música tem todas as línguas. A reação ao concerto no hotel em Dublin é o melhor exemplo. “Foi a primeira vez nos últimos 20 anos que um artista português atuou numa reunião deste nível. Nestas ocasiões, todos os países fazem lóbi para levar os respetivos artistas, mas a escolha é feita pela estrutura central do grupo. Isso dá para perceber o interesse e a importância de que se reveste a participação da Mariza”, admite Paulo Miranda. Stu Bergen agradeceu, ainda que só tenha ouvido quatro músicas do álbum.

A última estava pronta há quatro anos, numa gaveta. Paulo Abreu Lima, que a escreveu, já a tinha esquecido. Rui Veloso, que a musicou, também. Mariza lembrou-os. “Aquilo está gravado à primeira. Comigo a chorar, com o Rui a tocar... Ele diz que não sabe tocar piano...” Mariza reconhece que esta música só podia estar neste álbum. “É tão bom seres pequenino/ eu de ti ser tua mãe/ nesta sorte do destino/ dos amores que a vida tem/ nunca cantei tão baixinho/ este amor dentro de nós/ quando adormeço o menino/ no berço da minha voz.” Martim não sabe que a música é para ele. Mariza já o apanhou a cantarolar ‘Missangas’, um outro tema do álbum, enquanto brincava com os carrinhos. “Não sei se ele vai dar valor. Tudo o que faço hoje é para ele. Acho que as pessoas não morrem. Mudam de sitio. E eu quero mudar de sítio, mas deixando o Martim confortável. Vou-lhe deixar o meu mundo.” Um mundo enorme do tamanho de um amor pequenino.

Texto publicado na edição do Expresso de 26 setembro 2015