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Quem é Svetlana Alexievich?

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A escrita de Svetlana Alexievich nunca abandonou o registo da reportagem

TATYANA ZENKOVICH / EPA

Bielorrussa que investigou a fundo o “Homo Sovieticus” e o cenário do pós-comunismo nos territórios da ex-URSS, ela não é poeta nem ficcionista. Ainda assim, a Academia Sueca atribuiu-lhe esta quinta-feira o Prémio Nobel de Literatura, o primeiro que distingue a escrita jornalística

Nascida a 31 de maio de 1948, na cidade de Ivano-Frankovsk (Ucrânia), Svetlana Alexievich ficou imediatamente imersa na realidade dura da vida soviética no pós-guerra. Filha de mãe ucraniana e de pai bielorrusso, a desmobilização militar deste levou-os para a Bielorrússia, onde trabalharam como professores.

Depois de concluir a escola secundária, Svetlana começou a trabalhar como jornalista em vários jornais locais. Embora também tenha experimentado o conto e o ensaio, a sua escrita nunca abandonou o registo da reportagem, entendida como uma investigação exaustiva dos factos, mas também das emoções dos respectivos intervenientes.

A sua voz autoral ganhou consistência sob a influência de um importante escritor bielorrusso, Ales Adamovich, que explorava um género literário híbrido, a que deu vários nomes: “romance coletivo”, “romance-oratório” ou “coro épico”. De certo modo, o que Adamovich ensaiava era a fixação da memória de um povo, o fio narrativo das “pessoas enquanto falam consigo mesmas”, e Alexeivich tentou igualmente, à sua maneira, seguir esse caminho.

Em 1985, o seu primeiro livro, “War’s Unwomanly Face” (na tradução inglesa), reuniu dezenas de monólogos de mulheres soviéticas que combateram na II Guerra Mundial, revelando muitos aspetos do conflito, bem como do funcionamento do Exército Vermelho e do lugar atribuído à mulher na sociedade soviética, que nunca tinham sido revelados. O sucesso não se fez esperar, com vendas na ordem dos dois milhões de exemplares.

A obra subsequente de Alexievich prossegue a mesma senda testemunhal. Livro a livro, ela foi erguendo um retrato do funcionamento do regime soviético, sempre do ponto de vista de pessoas concretas, mas também deu a ver os traumas e dilemas que se seguiram à implosão política da URSS.

Entre os trabalhos mais importantes de Alexeivich contam-se um volume sobre as memórias de crianças que viveram os horrores da II Guerra Mundial (“The Last Witnesses”), relatos de participantes na invasão soviética do Afeganistão (“Zinky Boys”), e um majestoso fresco de “história oral” sobre a catástrofe nuclear de Tchernobyl (“Vozes de Tchernobyl”, com edição portuguesa prevista para 2016, quando se assinalam os 30 anos do desastre, pela chancela Elsinore).

Obra essencial na afirmação internacional de Svetlana Alexeivich foi “O Homem Soviético – Um tempo de desencanto”, editado este ano pela Porto Editora. Neste livro de quase 500 páginas, é dada voz a centenas de cidadãos que vivem nas ruínas de uma das grandes utopias do século XX, muitos deles suspirando por um passado que já não voltará. O choque com um capitalismo musculado, que não resolveu muitos dos problemas sociais enraizados na sociedade russa, levou uma certa geração a fenómenos de nostalgia em relação aos valores soviéticos e até a Staline. É essa realidade paradoxal que Alexeivich revela, dando sempre a voz aos outros.

Numa entrevista, a autora resumiu deste modo o seu modus operandi: “Tenho andado à procura de um método literário que me permita a maior aproximação possível à vida real. A realidade sempre me atraiu, como um íman. Ela tortura-me, hipnotiza-me, quero capturá-la na minha escrita. Por isso apostei neste género em que recorro a verdadeiras vozes humanas e suas confissões, histórias de testemunhas e documentos. É assim que oiço e vejo o mundo – como um coro de vozes individuais e uma colagem de pormenores do quotidiano. É assim que posso ser, ao mesmo tempo, uma escritora, uma repórter, uma socióloga, uma psicóloga.”