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Philippe Petit olhou o abismo. Depois deu um passo em frente

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“The Walk - O Desafio”, que esta quinta-feira chega às salas de cinema portuguesas, conta a história do “homem do arame” que, há 41 anos, conseguiu um feito ímpar: caminhar num cabo de aço entre as duas Torres Gémeas, sem qualquer proteção

7 de agosto de 1974, 7h15 da manhã. Na baixa de Manhattan, Nova Iorque, as pessoas aglomeram-se nas ruas, o trânsito entope. Todos os olhos estão virados para o céu. Há um homem lá em cima, a caminhar sobre um cabo de aço, entre os telhados das duas Torrres Gémeas, inauguradas um ano antes. É preciso esfregar os olhos, contado ninguém acredita. Está 417 metros acima do solo, só ele e uma vara de quase 25 quilos, para se equilibrar. Um passo em falso e é a morte do artista.

O artista é o funâmbulo francês Philippe Petit, cujas proezas já tinham chegado ao grande ecrã em dois documentários, o mais conhecido dos quais "Homem no Arame", de James Marsh, galardoado com um Óscar em 2009. A história regressa agora às salas de cinema neste espetacular biopic assinado pelo ás dos efeitos especiais Robert Zemeckis ("Regresso ao Futuro", "Forrest Gump", "O Náufrago"), que abriu o Festival de Cinema de Nova Iorque e que esta quinta-feira chega a Portugal.

"The Walk - o Desafio" é a história dessa proeza extraordinária do então jovem francês, a poucos dias de completar 25 anos, um sonho "impossível" que nascera seis anos antes na sala de espera de um dentista, quando, ainda antes das Torres Gémeas serem construídas, Petit leu numa revista um artigo "o edifício mais alto do mundo" - a Torre Sears, em Chicago, acabaria por roubar-lhes esse título, ainda antes de estarem concluídas. Até chegar ele próprio às páginas de jornais de todo o mundo, o equilibrista preparou a façanha caminhando entre as torres da Catedral de Notre Dame, em Paris, em 1971, e entre as duas torres da Ponte Harbour, em Sydney, em 1973.

Nos três meses que antecederam aquele que foi considerado "o crime artístico do século", Petit e os seus cúmplices visitaram as Torres Gémeas mais de 200 vezes. O equilibrista chegou a alugar um helicóptero para tirar fotografias aéreas do local e, numa das ocasiões, fez-se passar por um jornalista de uma revista de arquitetura só para saber a distância entre as duas torres. Na véspera do feito, ele e quatro cúmplices tiveram de se disfarçar de trabalhadores do projeto para conseguirem levar todo o material que precisavam para o terraço.

Para passar o cabo de um telhado para o outro, foi preciso usar primeiro um arco e uma flecha. Depois, Petit olhou o abismo e seguiu em frente. Esteve 45 minutos em cima do cabo de 61 metros e mais de 200 quilos, provocando a polícia antes de finalmente se render - realizou oito passagens e, a dada altura, chegou mesmo a ajoelhar-se e deitar-se no cabo. Detido no final, acabou por ser libertado com uma condição: fazer uma exibição gratuita para crianças no Central Park. Nascia uma lenda.

"The Walk" é uma história de coragem, mas também de loucura e ambição cega, de um sonho maior do que qualquer obstáculo. Não é um filme para quem tenha vertigens, porque a sua grande virtude - mais ainda quando visto com óculos 3D - está em fazer-nos sentir que estamos lá com Petit, que somos tão pequenos como ele no cimo daquelas torres de 410 metros. Muito provavelmente, nenhum de nós daria aqueles passos. E é isso que faz de Petit grande. Não há filme que faça justiça àquele momento, mas "The Walk" é uma tentativa honesta de o conseguir e tem a virtude de nos manter agarrados à cadeira.