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Plantar batatas em... Marte

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Mark Watney na sua plantação de batatas

Giles Keyte

Ridley Scott arriscou figurar um futuro próximo com uma ficção científica de ‘encher o olho’. Chama-se “Perdido em Marte” e é a aposta da FOX para este outono

Como influência e inspiração, Marte é uma fonte inesgotável para a história da arte, e a do cinema, do mudo ao sonoro, continua a explorar este filão. Antes da conquista espacial do Homem, o planeta vermelho foi sinónimo de perigo e de invasão alienígena. Fez as delícias de Séries B: “Invaders from Mars”, de 1953, é uma delas. Mais tarde, foi também sonho de produções ambiciosas (podiam citar-se tantas obras e tanta gente, como David Bowie, por exemplo): quem não se recorda de “Total Recall”, realizado por Paul Verhoeven, em 1990, um dos filmes mais caros do seu tempo? O que é engraçado de notar em tudo isto é que a nossa ideia de Marte também se transformou com a passagem do tempo. É como se aquele planeta estivesse hoje (e de certa forma ‘está’) mais próximo de nós do que nunca.

Para a NASA, Marte já não é o planeta de delírio e mistério que tanto alimentou a ficção: é antes uma etapa realista para a qual se trabalha diariamente — a próxima conquista da aventura espacial americana. “Missão a Marte”, realizado em 2000 por Brian De Palma, era um drama de ficção científica sério a toda a prova, ou seja, já um produto exemplar deste milénio em que Marte começou a fazer parte daquilo que é ‘possível’. “Perdido em Marte”, grande produção da FOX, filmada em 3D, em scope (foi a FOX que inventou o scope...), e realizada pelo britânico Ridley Scott, insere-se na mesma linha: a ficção científica está lá, mas sente-se que se trata de uma possibilidade, de um amanhã em que é possível acreditar.

No papel, é a história de sobrevivência de Mark Watney (Matt Damon), um astronauta da primeira expedição ao planeta, num futuro próximo, que nos é em tudo familiar. Biólogo e engenheiro mecânico, Mark é dado como morto numa tempestade, imediatamente antes de o resto da tripulação se ver obrigada a deixar solo marciano. Acontece que o astronauta consegue sobreviver e regressar à estação espacial que a expedição ali plantou. Abandonado a 50 milhões de milhas de casa, sem poder comunicar com a Terra, Mark começa então a fazer contas. Sabe que lhe restam água e mantimentos para alguns meses e que, quatro anos depois (demasiado tarde...), uma nova expedição voltará. 54 dias volvidos, a NASA, que lhe fez o funeral com pompa e circunstância, descobre que ele está vivo.

Num “Big Brother” à escala planetária, o mundo passa então a seguir o rasto deste herói espacial que ainda não sabe como comunicar connosco e que entretanto já inventou um sistema de rega para os 126 metros quadrados de terra que cultivou dentro da estação espacial: a sua vida depende dessa plantação de batatas, e isto se tudo o resto correr bem (e não corre, claro). Na roda de imprensa que Ridley Scott, acompanhado do elenco principal do filme, deu no último Festival de Toronto (a estreia mundial foi no dia 11 do mês passado), soube-se que o britânico foi um dos últimos a chegar a este barco. Inicialmente, a FOX tinha previsto que Drew Goddard, o argumentista que adaptou para cinema a novela “The Martian”, de Andy Weir (2011), seria também o realizador da obra. Ao lado de Matt Damon, foram contratados para papéis secundários Jessica Chastain, Kristen Wiig, Jeff Daniels e Kate Mara, entre outros.

Matt Damon, numa foto de rodagem

Matt Damon, numa foto de rodagem

Aidan Monaghan

E depois ofereceram-me isto...”, exclamou o autor de “Blade Runner”, que, nos últimos anos, até tem estado mais ocupado com filmes de época do que com ficções científicas. “Não conhecia o livro, nunca tinha ouvido falar desta história. O argumento do Drew Goddard sintetizou-a na perfeição, estava lá tudo, e a um ponto tal que larguei o projeto que estava a fazer e disse a mim mesmo que ‘Perdido em Marte’ seria o meu próximo filme.”

Ridley Scott afirmou saber exatamente que tipo de imagens queria fabricar quando o produtor Simon Kinberg — que procurava um realizador experiente — lhe bateu à porta. Nessa altura, já Matt Damon e a maioria do elenco estavam escolhidos. “Eu sempre quis fazer um western, desde miúdo”, confessou o realizador. “John Wayne era o meu maior ídolo de criança. Ora, a história deste filme encaixa-se em tudo nesse género, isto é, trata-se da luta de um homem contra a natureza. Como realizador, coloquei-me nessa posição: disse que ia realizar este filme como se fosse um cowboy. E, ao mesmo tempo, a história leva-nos para outras paragens. A personagem de Mark é uma versão contemporânea do ‘Robinson Crusoe’, de Daniel Defoe. A questão que nos é colocada é saber como vai ele conseguir sobreviver.

Acontece que o ‘nosso’ Robinson Crusoe não tem nada à sua volta. Não tem selva, não tem água, é um cientista, só tem uns mapas de Marte, uma estação espacial, e vai ter de inventar de raiz a sua sobrevivência!” E porque será que Scott tem uma predileção tão grande por personagens solitárias? Porque gravita ele tanto em torno de individualistas? “Porque o que me interessa é sempre a violência interior. Como em ‘Alien’, que no fundo não passava de outra história de sobrevivência como esta, em que uma personagem se descobria sozinha a enfrentar um monstro.”

Agora que “Perdido em Marte” chegou às salas, as comparações com outros filmes não vão faltar. Este astronauta de Ridley Scott a que Matt Damon deu corpo vai ter de medir forças com a Sandra Bullock de “Gravidade”, com o Tom Hanks de “O Náufrago”, ou com o Will Smith de “Eu Sou a Lenda”, ou não fosse também aquele o filme de um homem que vai passar a maior parte do seu tempo sozinho. Ora, este foi mais um problema que o argumento de Drew Goddard conseguiu ultrapassar.

É que, no livro de Andy Weir — um programador informático que estudou ao detalhe a matéria que abordou na sua obra —, quase não há diálogos, centrando-se a ação, essencialmente, nos gestos e pensamentos do protagonista. “Só que o argumento era tão bom que eu nem precisei de ler o livro”, acrescentou Scott em Toronto. “O subtexto científico é fascinante, mas eu estou-me um bocado nas tintas para isso.E eu, que sabia que a personagem ia passar uns bons meses em Marte, não me queria aborrecer nem aborrecer o espectador. Ora, o que me fez acreditar que este filme tinha pernas para andar foi o humor do texto, que é talvez a única coisa que se podia esperar de um filme deste género. Isto é, ‘Perdido em Marte’ não é uma comédia mas é bastante divertido a maior parte do tempo. Porquê? Porque afinal é a Terra inteira que vai querer salvar aquele astronauta.”

Tão espetacular a nível visual como ingénuo a nível científico, “Perdido em Marte”, à medida que vai desenhando a esperança e o desespero do seu herói, talvez sofra de um excesso de otimismo fantasista que compromete o seu valor artístico. No entanto, a sua veia de feel good movie, apesar do tema que está em causa — e que é a morte! —, é inegável. O êxito é mais que certo.