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O humor de José Vilhena, em tempos de censura, foi “um ato de coragem”

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1958, A Olho Nú, José Vilhena, Edição de Autor

Nome incontornável do humor português, José Vilhena dedicou-se a vários ofícios: foi pintor, escritor, ilustrador, cartoonista e fez ainda uma breve incursão pelo cinema. Mordaz e não menos vezes corrosivo, Vilhena disparou sobre todos, desde o povo aos mais poderosos, em plena ditadura salazarista

Helena Bento

Jornalista

Homem de muitos labores, desde a escrita, o desenho, a pintura e a fotografia, com uma breve incursão no cinema, dedicando-se a cada um por inteiro, José Vilhena, artista português nascido em 1927 , afrontou Portugal e os seus políticos em tempos de torpor e vistas curtas.

Valendo-se do humor, sua melhor arma, reconhecidíssima, Vilhena, natural de Figueira de Castelo Rodrigo, disparou sobre todos, desde o povo aos mais poderosos, elaborando uma crónica dos tempos, fosse pela crítica aos costumes, fosse pelo olhar atento e descomprometido sobre a política e a Igreja.

Muitos dos seus livros foram censurados e apreendidos, e o próprio autor, em várias ocasiões, quando saía, por exemplo, mais um livro seu, muitas vezes vendido "à candonga", por baixo do balcão, longe dos olhares vigilantes, não teve um destino melhor: foi preso três vezes pela PIDE e várias vezes chamado a responder perante homens com pouca pachorra para lidar com provocadores.

Num texto publicado no jornal Público, em 2014, por ocasião do lançamento da coleção "Livros Proibidos", Rui Zink, escritor português e autor do livro "O humor de bolso de José Vilhena", a quem também dedicou a sua tese de mestrado, escreve: "O humor de Vilhena foi, em tempos de censura e prisão arbitrária por delitos de opinião, um ato de coragem".

Cofundador da revista "O Mundo Ri", em 1955 (anos depois de ter frequentado um curso de arquitetura na Escola de Belas-Artes do Porto que nunca concluiu), Vilhena dedicou grande parte da década de 50 ao desenho de cartoons para jornais como o "Diário de Lisboa" e "Cara Alegre".

No início dos anos 60, iniciou uma série de livros de bolso humorísticos, que escrevia, ilustrava, editava e distribuía pelo país, quase sempre pelas tabacarias. Da coleção faziam parte mais de 70 títulos, 56 dos quais assinados por si.

São também dessa altura os títulos "História Universal da Pulhice Humana", "O Filho da Mãe" e "Branca de Neve e os 700 Anões", sobre o qual escreveu Rui Zink no artigo citado, dizendo que "é Vilhena em pleno uso das suas faculdades, fazendo, sob o manto diáfano do erotismo, nada mais (mas também nada menos) que uma mordaz sátira política e de costumes, num país de branda podridão".

No site "O incorrigível e manhoso Vilhena", gerido pelo sobrinho de José Vilhena, é referido que ele foi também o responsável pela introdução em Portugal de autores como Alphonse Allais, Alvaro de Laiglesia, Guy de Maupassant, René Goscinny e Nikolai Gogol.

Em 1973, inicia a publicação, em fascículos, da "Grande Enciclopédia Vilhena", que virá a interromper após a revolução de 1974, para dar início à publicação da revista quinzenal "Gaiola Aberta", o seu título mais conhecido, cujo primeiro número saiu ainda em maio desse ano.

Vilhena conseguiu manter a revista à tona durante quase dez anos, e fê-lo com a sua dedicação (era ele que escrevia, desenhava, fazia as fotomontagens, paginava e editava, controlando, sem exceção, todas as fases do processo) e com o seu humor corrosivo e divertido, muito elogiado na época. Já José Vilhena dizia que "a malta" comprava os seus livros porque "achava que no dia seguinte" ele ia preso.

Um escândalo envolvendo uma fotomontagem da princesa Carolina do Mónaco, que parodiava o anúncio de uma marca de brandy e colocava a princesa “a aquecer o seu copo de uma maneira... original”, recordava o seu autor em 2003 ao Correio da Manhã, levou Vilhena ao tribunal e a "Gaiola Aberta" não voltou a sair para as bancas.

Depois desse episódio, foi autor e editor de outras publicações do género, como "O Fala Barato", "O Cavaco", "O Moralista" e novamente a "Gaiola Aberta" (segunda série).

José Vilhena morreu este sábado em Lisboa, no Hospital de S. Francisco Xavier. De acordo com o seu sobrinho Luís Vilhena, citado pela Lusa, Vilhena cessou a sua atividade em 2006, depois de ter sido diagnosticado com doença de Alzheimer. Vivia atualmente numa casa de repouso.

O velório realiza-se no domingo a partir das 18h, na Basílica da Estrela, em Lisboa, estando o funeral previsto para as 11h de segunda-feira em direção ao cemitério do Alto de S. João, onde se realiza a cerimónia de cremação, pelas 12h00.