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José Luís Peixoto. A complexa simplicidade de “O Principezinho”

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TIAGO MIRANDA

A partir desta sexta-feira, existe uma nova versão de “O Principezinho”, um clássico intemporal, anotada por José Luís Peixoto e ilustrada por Hugo Makarov. Conversámos com o escritor, que está em Moçambique. e nunca leu o original aos filhos

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

Texto

Jornalista

Tiago Miranda

Tiago Miranda

Fotos

Fotojornalista

Como nasceu a ideia deste “Principezinho” anotado?
Fui convidado para participar neste projeto. Este tipo de desafios atrai-me bastante, por isso, respondi logo que sim. Ainda não estavam confirmadas todas as premissas do que iria ser feito e já eu estava a reler o livro e a pesquisar sobre ele.

Que relação tinha com a obra?
Li-a na adolescência. Mais tarde, vi diversas vezes o filme de Stanley Donen. Talvez por ter sido o primeiro livro que li de Saint-Exupéry, talvez pela importância e a frequência que é citado, mantive-o sempre na memória, nomeadamente ao ler outros livros do autor.

Leu-o aos seus filhos [de 11 e 18 anos]?
Nunca o fiz. Este é um daqueles livros que, mais tarde ou mais cedo, chega sempre às mãos daqueles que têm a leitura presente nas suas vidas. Felizmente, é o caso dos meus filhos.

Sentiu-se confortável em anotar um clássico destes, ou acusou o peso da responsabilidade?
Sinto mais o peso da responsabilidade para com os leitores do que em relação ao livro. O trabalho que desenvolvi é uma pequena homenagem ao trabalho de Saint-Exupéry e ao fantástico caminho que este livro tem feito. Nada neste projeto altera aquilo que “O Principezinho” sempre foi e continuará a ser.

As notas que fez são de cariz histórico, literário, geográfico. Qual foi o seu critério?
Foi acrescentar informações, observações e mesmo sugestões que propusessem uma multiplicidade de olhares que enriquecessem a experiência de leitura do livro. As anotações foram colocadas nas margens, a ideia era justamente essa: acompanhar a leitura do texto de uma voz que comentasse detalhes que de maneira mais ou menos direta se relacionem com o texto de Saint-Exupéry.

Esta edição é uma mais-valia para quem?
Espero que possa ser uma mais-valia por quem se interesse pelo livro, quer conheça a obra ou não.

Já conhecia o ilustrador, Hugo Makarov.
Sim, já conheço o Hugo há diversos anos. Temos vários amigos em comum — que trabalham com ele no mesmo estúdio de tatuagens. Nas visitas que lhes fui fazendo, conhecemo-nos. A vontade de trabalharmos juntos foi imediata. No ano passado, tivemos oportunidade de desenvolver um trabalho no aeroporto de Lisboa que consistiu na elaboração de vários painéis com textos e ilustrações. Alguns ainda podem ser vistos.

Tiveram uma boa dinâmica a trabalhar?
Sem dúvida. É muito fácil trabalhar com o Hugo. A comunicação é muito boa e, ao nível da ilustração, consegue sempre surpreender-me. Muitas vezes, depois de passarmos algum tempo a falar de determinadas imagens, quando ele surge com os desenhos feitos, traz sempre algo mais, que faz toda a diferença.

Que ensinamentos lhe parecem mais importantes e sempre atuais na história do Principezinho?
Há vários que me dizem muito. Neste momento da minha vida, fala-me bastante a forma como este livro nos recorda a necessidade de valorizarmos aquilo que é verdadeiramente importante. Essa é uma tarefa para todos os momentos.

Voltou a apaixonar-se pela obra?
Sim, creio que se pode fazer essa afirmação. As diversas leituras que fiz chamaram-me a atenção para a complexa simplicidade, passo o paradoxo, deste texto. Além disso, a forma como a biografia do autor se entrelaça com esta breve obra ou o imenso percurso que o livro tem feito, cruzando línguas e culturas, são aspetos fascinantes.

Está em Moçambique desde dia 11 de setembro. O que foi aí fazer?
Tive diversas palestras em universidades e escolas das cidades de Quelimane, Beira, Maputo e Nampula. Nestas cidades, também tive oportunidade de levar a cabo algumas oficinas à volta da escrita de ficção narrativa. Trata-se, sobretudo, de uma oportunidade de falar sobre questões concretas da escrita com um público iniciado, incentivando-o e contribuindo para a reflexão.

Tem feito um pequeno périplo, entre Quelimane e a Beira. Já conhecia o país?
Tinha apenas estado em Maputo. Esta oportunidade de conhecer outras cidades deu-me uma perspetiva muito mais profunda. Trata-se de um enorme país, com muitas realidades, especificidades e uma imensa riqueza cultural e natural.

O que lhe tem ensinado a estada?
É ainda cedo para fazer esse balanço em toda a sua dimensão, ainda estou cá [regressou a 1 de outubro]. No entanto, viagens como estas são sempre muito eloquentes na forma como ampliam horizontes e como mostram que o mundo não é só aquilo que existe até ao horizonte. Há muito mundo. Essa conclusão, quando obtida pela experiência, ajuda a relativizar o mau e o bom que povoa o nosso quotidiano.

Tem na viagem uma enorme paixão. Se depender de si, vai passar o resto da vida a escrever e a viajar?
Não sei dizer. Por enquanto, essas são duas atividades muito presentes na minha vida. Mas quem poderá dizer o que será o futuro? Quem poderá saber aquilo que quererei fazer no futuro?

Em outubro chega às livrarias o seu novo livro, “Em Teu Ventre”. De que trata?
Não é ainda o momento de falar desse livro. Falta pouco.

Hoje, é mais fácil ou mais difícil escrever?
É sobretudo diferente. A construção de uma obra literária é um caminho. Ao longo desse percurso, aprende-se e desaprende-se.

Qual o aspeto melhor de ser um escritor?
A sensação de estar a prestar toda a atenção de que se é capaz à vida.

E o pior?
Os fantasmas, o medo.

Tem uma rotina diária?
Tenho diversas rotinas, consoante os períodos de trabalho que atravesso. Gosto de ter rotinas, sobretudo se estiver num período de escrita. As rotinas ajudam-me a moldar e a controlar o tempo. No entanto, raramente consigo manter rotinas muito rígidas.

É um madrugador, um noctívago?
Neste momento, creio que tenho horários comuns à maioria das pessoas. No passado, já fui mais noctívago. Nunca fui um madrugador.

Escreve todos os dias, lê todos os dias?
O ideal seria ter a oportunidade de escrever todos os dias. Assim, manteria uma certa agilidade que, a meu ver, ajuda bastante a escrita. No entanto, há dias em que, por algum motivo, acabo por não escrever. O mesmo não acontece com a leitura. Se passo um dia sem ler, fico perturbado, enervo-me com mais facilidade, sinto muita falta. Por isso, procuro ler todos os dias. Preciso desse tempo e desse espaço.

O que anda a ler?
Estou a ler “Choriro”, de Ungulani Ba Ka Khosa, um livro verdadeiramente notável. Literatura moçambicana e universal ao mais alto nível.

Qual a coisa que mais gosta de fazer?
Viver