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Barros Queiroz foi primeiro-ministro. Mas teve de começar a trabalhar aos 8 anos

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Barros Queiroz com o Presidente da República António José de Almeida, em 1921, na altura em foi Presidente do Conselho de ministros

DR

Thomé de Barros Queiroz, foi ministro das Finanças, primeiro-ministro da República, e pai de um homem que escreveu um fado para Amália. Teve uma infância dura, começou a trabalhar aos 8 anos, e era parente do escritor Eça de Queirós

Thomé Barros Queiroz começou a trabalhar aos oito anos de idade. No final do século XIX era esta a infância de muitas crianças que nasciam pobres, ou no seio de famílias que tendo tido tempos de prosperidade, foram atropeladas pelos revezes na vida.

Nessa época, ainda não tinha chegado o tempo em que o trabalho infantil passou a ser social e legalmente condenado. As meninas faziam as duras tarefas reservadas às mulheres, e os rapazes viravam-se como podiam. Quando nasciam na província, um dos destinos prováveis era a emigração: para o Brasil ou para Lisboa, a capital, onde trabalhariam como marçanos, caixeiros, moços de recados, engraxates etc etc.

Thomé de Barros Queiroz, que em adulto chegou a primeiro-ministro [Presidente do Ministério como se dizia na época] da República, veio de Quintãs para Lisboa quando tinha oito anos. Nasceu numa família que já tinha conhecido uma época de vacas gordas, mas que viveu dias de aperto quando ele era menino.

Moço desembaraçado, começou a trabalhar como caixeiro e fez-se homem entre os pobres da capital. Tratou ele próprio da sua escolarização e, com 20 anos feitos, matriculou-se na escola comercial.

Documentário feito por um bisneto

Na próxima segunda-feira, 5 de Outubro, dia em que se celebram os 105 anos da implantação da República - e que foi feriado nacional até 2011 - a RTP 2 transmite [23h30] o documentário “Barros Queiroz, uma figura moral da República”.

Miguel Ferraz, o autor do guião, é bisneto materno de Thomé Barros Queiroz e, por isso, este documentário também é uma viagem ao encontro do percurso de vida dos antepessados.

Ferraz, recorda que o bisavô nascido em 1872, era oriundo de “uma família de grandes tradições liberais”, e parente de Eça de Queirós, através do “desembargador Joaquim José de Queiroz, chefe da Revolta Liberal de 1828”, que era avô do escritor.

Foto da vereação republicana que foi eleita em 1908 para a Câmara Municipal de Lisboa. O vereador Barros Queiroz está em pé, ao centro. Anselmo Braamcamp Freire, Presidente da autarquia, está ao centro

Foto da vereação republicana que foi eleita em 1908 para a Câmara Municipal de Lisboa. O vereador Barros Queiroz está em pé, ao centro. Anselmo Braamcamp Freire, Presidente da autarquia, está ao centro

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Apesar dos pergaminhos familiares, os pais de Thomé foram apanhados pela crise económica, e o rapaz obrigado a fazer-se à estrada. Dos tempos de míngua, ficou-lhe a marca solidária, recusando “sempre receber qualquer honorário pelo exercício dos cargos públicos” que ocupou.

Fundador de “A Voz do Caixeiro”

Em 1988, quando tinha 16 anos, aderiu ao Partido Republicano e envolveu-se em várias lutas operárias apoiadas pelos republicanos. Foi um grande entusiasta da Associação dos Caixeiros Nocturnos de Lisboa, e fundador dos jornal “A Voz do Caixeiro”.

Ainda no tempo da monarquia, no ano do Regicídio, foi eleito presidente da Junta de Freguesia de Santa Justa e vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Mais tarde, quando desempenhou os cargos de ministro das Finanças, ministro da Instrução Pública, e Presidente do Conselho de ministros, não quis receber honorários, e recusou a viatura oficial a que tinha direito, continuando a andar de carro eléctrico.

Morreu a 5 de maio de 1926, 23 dias antes do golpe militar de 28 de Maio, que instaurou a Ditadura Militar e criou as condições necessárias ao Estado Novo. No final de 1925 "declinou o convite para se candidatar à Presidência da República", conta Miguel Ferraz.

O documentário que a RTP2 transmite para comemorar o 5 de Outubro de 1910, conta com depoimentos, entre outros de Mário Soares e Guilherme d’Oliveira Martins.

Miguel Ferraz, autor do guião, é autor do livro “Amália, quis Deus que fosse o meu nome”, publicado em 2014, onde está um depoimento do letrista Vasco Barros Queiroz,filho de Thomé e avô materno do autor. Vasco Barros Queiroz conheceu Amália no início da sua carreira e escreveu para ela a letra do fado “Minha canção é saudade”.