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“The Whispers” chega hoje ao MOV

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Bob D'Amico

Eles estão entre nós a partir de hoje. “The Whispers” é uma série de ficção científica que fará repensar a charneira entre o real e o imaginário. O mal entra nas crianças

Há algo que lhes sussurra, que os atrai e incita à ação. É um amigo imaginário que os convida a entrar no jogo. Brincadeiras inocentes, conversas sem interlocutor que transportam os mais novos para uma dimensão de sonho onde tudo é possível. Aqui não há limites para a imaginação, mas tudo é seguido à risca. É assim o jogo em que entram e do qual não sairão sem consequências.

Drill é o nome deste amigo diferente, sem rosto nem corpo. É apenas uma voz, poderosa é certo, mas inaudível para os que já cresceram, que já passaram para “o outro lado”. Do lado de cá, dos que ainda podem ouvi-lo e seguir os seus mandamentos, esta entidade é vista como um guia, como alguém que faz agora parte das suas vidas. Quem será?

Quando os pais descobrem a nova amizade, acham que a normalidade reina nas suas casas, ladeadas por jardins verdejantes e uma ordem estabelecida que apenas é interrompida pelos gritos felizes dos filhos. Um amigo imaginário só pode ser fruto da tenra idade daqueles que mais amam e protegem. Um dia vai passar. Todas as crianças acabam por esquecer esta fase e fica a recordação parental de uma candura de outros tempos. Mas este não é um amigo imaginário comum. É partilhado por várias crianças, quando a norma é que cada miúdo tenha o seu próprio, e toma conta das suas vidas.

Bob D'Amico

Maquiavélicos desígnios

Quando a mãe se distrai, surge a oportunidade para que Harper (Abby Ryder Fortson) explore o próprio lar e pegue em ferramentas e utensílios que não seriam de uso comum. É no topo de uma casa na árvore que a filha espera quem a trouxe ao mundo. O X marca o sítio (“X Marks the Spot” é também o nome do episódio de estreia), bem no centro da divisão dedicada às brincadeiras de verão. A miúda, ainda pequena, explica que Drill pretende que a mãe se coloque no local. É um passo para o fim. Sabotagem e tentativa de homicídio premeditadas por uma menina tão nova? Como pode o mal ter tomado as rédeas daquele cérebro infantil?

Sim, há mesmo algo que lhes sussurra e este sussurro não vem de um humano. Os jogos vão do inocente ao perigoso em pouco tempo e a agente do FBI Claire Bennigan (Lily Rabe) descobre que este não é o primeiro caso de um crime em que o agressor é uma criança com um amigo imaginário chamado Drill — pouco tempo antes havia acontecido a detonação de um engenho explosivo por um rapaz, que acabou por morrer e deixou a mãe com graves lesões.

“Estou prestes a fazer algo muito errado”. A consciência da gravidade dos atos existe. O miúdo não terá de lidar com as consequências, no entanto parece haver uma espécie de satisfação quando o ato é consumado. Ganharam o jogo e Drill vai ficar muito contente, embora tenha de procurar novos “amigos” com quem jogar.

Esta personagem — muito pouco — imaginária acaba por desempenhar um papel de grande relevo, uma vez que faz a ligação entre vários acontecimentos estranhos numa sociedade em que a vida se passava sem grandes sobressaltos. Como um autêntico “sugeridor”, levará as crianças para um patamar nunca antes alcançado: o do mal na idade da inocência. A dificuldade não está em provar que Drill é culpado de todos estes atos (acontecerão novos crimes no decorrer dos episódios), mas sim em encontrar algo/alguém que não existe, assim como associar os casos isolados a uma causa maior.

É aqui que “The Whispers” passa do género de drama e mistério para a ficção científica. Ao mesmo tempo que as crianças atacam as próprias mães nos Estados Unidos, acontece um evento muito estranho no deserto. Um aparelho da Força Aérea desaparecido no Ártico é encontrado no Sara, em África. “Parece que o avião foi sugado do ar e desfeito em pedaços”, diz Wes Lawrence, destacado pelo Departamento de Defesa no local e pai de Minx Lawrence, junto de uma rocha que emana luz.

A somar aos avanços desta força misteriosa que só ataca pessoas ligadas (de alguma forma) ao poder norte-americano, existe uma teia densa de relações entre as personagens. Há traições e mistérios familiares, acidentes e crimes por resolver, assim como uma criança especial que perdeu a audição com uma misteriosa doença. Chama-se Henry, é filho de Claire e do piloto desaparecido e será também ele uma vítima de Drill. Quando recupera o sentido que lhe falta, torna-se mais um peão neste jogo que se torna um caso de sobrevivência nacional (e planetária).

A série de Soo Hugh traz Steven Spielberg, Justin Falvey, Darryl Frank e Dawn Olmstead na produção executiva. O mundo fantástico de Ray Bradbury — “The Whispers” é baseado no conto “Zero Hour” — já havia sido explorado em televisão. Foi há trinta anos que “The Ray Bradbury Theater” chegou aos lares canadianos e a história que agora é contada na nova série foi mostrada na quinta temporada. Agora o episódio (de 1992) dedicado à comunicação dos mais novos com entidades desconhecidas (e alienígenas) ganha a dimensão de pelo menos uma temporada, produzida pelos estúdios norte-americanos da ABC. Por cá, os sussurros chegam em capítulos de 45 minutos, exibidos agora pelo MOV (quintas-feiras, a partir de hoje, 22h30), depois de uma primeira exibição no TVSéries. Cuidado, os amigos imaginários tornam-se inimigos reais.