Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

"Queremos documentar o que de outra forma se perderia"

  • 333

Jo\303\243o Lima

Carla Fernandes é linguista com sede na Universidade Nova de Lisboa. Ganhou uma bolsa por 1,4 milhões de euros para investigar os processos criativos na dança contemporânea. Literalmente, vai seguir um grupo de coreógrafos para "descodificar" por que e como fazem o que fazem

Linguista na Universidade Nova de Lisboa, Carla Fernandes dedica-se à investigação sobre artes performativas. Recentemente, ganhou uma Starting Grant, do European Research Council. Tem cinco anos, 1,4 milhões de euros e uma equipa de seis pessoas para estudar e, se possível, decifrar os processos criativos na dança contemporânea. Impôs-se-lhe a pergunta: como é que um coreógrafo cria? Mas a ideia é ir mais longe: preservar um património por natureza efémero e intangível. O projeto chama-se "BlackBox".

O que a fez querer descobrir os processos que estão por trás 
da performance artística?
Estive ligada à dança durante muito tempo, do ballet clássico ao contemporâneo. Porém, a razão principal é considerar que as artes performativas não estão documentadas em Portugal. Era preciso fixar um património por natureza intangível e efémero, mas que não é menor do que um monumento ou uma escultura.

Como é que a linguística pode contribuir para isso?
A linguística olha para todos os fenómenos semióticos e não apenas para a linguagem verbal — os gestos, a prosódia, o olhar, a postura. Por isso, dá-me ferramentas essenciais para analisar os movimentos do corpo na dança contemporânea, e para decifrar os fenómenos que antecedem e acompanham a composição de uma peça.

Onde quer chegar?
É talvez ambicioso demais: criar uma plataforma colaborativa para documentar processos que de outra forma se perderiam. No ballet clássico, podemos continuar a ver o “Lago dos Cisnes” porque existem anotações. Porém, a dança contemporânea está em palco um ou dois dias e desaparece. Não fica um texto, uma partitura, um registo sobre o modo como as composições são feitas, como o coreógrafo transferiu uma ideia para o espaço. Este trabalho de preservação não podia ser um mero filmar. Porque o universo de um criador só se consegue entender através de muitas fontes diferentes postas em conjunto.

Como é que um coreógrafo cria. É essa a pergunta?
É mais específica: como é que o corpo interfere na tomada de decisão? Está provado que o cérebro de um matemático tem áreas menos desenvolvidas e diferentes do que o de um bailarino, que passa a vida a mexer o corpo. E nós queremos ver porque é que o corpo faz mudar a forma de falar e de pensar.

E como se descodifica um ato criativo?
Temos várias formas de o fazer, que são experimentais. E o que vamos ou não encontrar depende da forma como cada coreógrafo trabalha. O nosso primeiro estudo de caso é o João Fiadeiro, que no processo criativo transmite verbalmente os seus conceitos, usa vídeos, desenhos, esquemas gráficos e imensas metáforas no discurso. Não podemos atingir o seu pensamento, mas temos outros acessos: entrevistas e muitas horas de vídeo — de ensaios e do que ele chama “improvisação em tempo real“. Há muito de imprevisível nele. A nossa intenção é desmantelar isso.

Rastrear o imprevisível?
Sim, sabendo que nunca conseguiremos entrar na mente daquela pessoa. O que conseguimos é olhar, ouvir e confrontá-lo. Podemos fazer-lhe perguntas. Há muito de inquérito e de trabalho antropológico na nossa abordagem, muita observação miudinha. Enquanto intérprete, ele prefere uma coisa a outra. É como numa escultura: vai-se trabalhando o material e deitando fora. O interessante é como o coreógrafo toma as decisões e escolhe o que vai para o palco. Como junta os pedaços de forma a fazer sentido.

Que resultados conseguiram até agora?
No caso do João, extraímos 72 conceitos que ele usa constantemente. Chegámos a eles através de gravações de workshops, de entrevistas e de análise de discurso com um software específico. Porém, se fosse apenas um levantamento de termos, a lista não iria revelar muito. Um léxico só ganha sentido num contexto — toda a linguagem é assim. É preciso estruturar esse conhecimento, criar uma rede desses conceitos, relacionando-os uns com os outros. Para isso, ‘traduzimo-los’ para outros meios, como esquemas gráficos, anotação multimodal, diagramas 3D ou nuvens de pontos. Temos uma equipa de seis pessoas, de áreas tão diferentes como a linguística cognitiva, as ciências computacionais e o estudo da performance. No fim, o que fica é uma espécie de ‘edição crítica’ de um processo e de um resultado que estariam destinados a perder-se caso não fossem documentados e preservados.

O que é que isto implica para o artista?
Bastante perturbação. Tem de estar muito aberto e seguro para aceitar que alguém invada o seu espaço com uma câmara. Na base de dados final, ele vai ter filmados todos os momentos de fragilidade, de dúvidas, de erro. Houve dois coreógrafos que se negaram.

A presença dos investigadores interfere com a criação?
Muitas vezes o questionar de certos conceitos pode originar uma viragem, sim. Pode acontecer ele usar um conceito de uma forma e nós, ao tornar isso consciente, interferirmos com o seu pensamento.

Uma provocação: a arte precisa de grelha de compreensão?
A arte pode ser analisada e posta num contexto. Vamos só cheirar a rosa ou vamos dissecá-la para saber mais? No caso da arte contemporânea, há que perceber que muita dela não é agradável, não é narrativa, é difícil de entender, é fragmentada. Este trabalho pode aproximá-la do público, despertar o apetite, a curiosidade.

Que outros artistas participam no projeto?
O próximo será o Rui Lopes Graça, cuja linguagem é muito diferente da do João. Gostaria muito de trabalhar com a Marlene Freitas, de Cabo Verde, ou com a Lia Rodrigues, do Brasil. Ainda em Portugal, poderíamos ter uma Madalena Victorino ou uma Clara Andermatt.