Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Viveu depressa, morreu jovem. James Dean, o rebelde sem causa, regressa ao cinema

  • 333

O icónico ator desapareceu faz este mês 60 anos. “Life”, que chega esta quinta-feira às salas de cinema, explora a história da sua amizade com Dennis Stock, o fotógrafo que realizou alguns dos retratos mais famosos do ator, meses antes de este perder a vida ao volante de um Porsche

Na imagem mais célebre de James Dean, o jovem ator está em Times Square, Nova Iorque, num dia invernoso de 1955. Metido dentro de um sobretudo, com a chuva a cair-lhe em cima, caminha de mãos nos bolsos, ombros encolhidos e um cigarro no canto da boca. Há na imagem uma solidão que convoca as histórias de quem chega à grande cidade à procura dos seus sonhos.

Detrás da lente está Dennis Stock, um fotógrafo em início de carreira que, farto de passadeiras vermelhas e bastidores de filmes, vê em Dean a oportunidade de fazer uma verdadeira reportagem fotográfica sobre uma estrela em ascensão. “Life”, de Anton Corbijn, que se estreia esta quinta-feira, é a história desta improvável amizade entre Dean (Dane DeHaan) e Stock (Robert Pattinson).

Quando o fotógrafo conhece o ator, numa festa em casa do realizador Nicholas Ray, poucos imaginariam que aquele rapaz criado numa quinta em Fairmount, no Indiana, ascenderia tão depressa ao firmamento de Hollywod. “A Leste do Paraíso”, o primeiro dos três únicos filmes que Dean protagonizou, não tinha ainda estreado, mas, depois de ver o filme numa exibição privada, Stock propõe acompanhá-lo em Nova Iorque, nos dias que antecederam a estreia do filme. Queria publicar o trabalho na revista “Life”, que, numa época em que a TV a cores ainda só começava a descolar, era o Olimpo do fotojornalismo, tendo chegado a vender 13,5 milhões de exemplares por edição.

A memorável foto em Times Square esteve quase para não acontecer. Depois de dias a acompanhar Dean, sem muitas oportunidades para o fotografar como desejava, Stock abandona a ideia e aceita outro serviço, no Japão. Era suposto despedirem-se ali, na praça, mas o fotógrafo decide pegar na câmara uma última vez, apesar da chuva. Já que ali estavam...

Entusiasmado por ter conseguido finalmente captar um pouco da alma de Dean, Stock desiste do trabalho no Japão e decide acompanhar o ator numa viagem à quinta da família deste. Queria “revelar os ambientes que afetaram e moldaram o carácter único de James Dean”, explicaria em 2005 no livro “James Dean: 50 Years Ago” (James Dean: 50 Anos). E assim nasceria uma notável série de fotografias que seriam publicadas na “Life“ a 7 de março de 1955, pouco antes da estreia de “A Leste do Paraíso”, com o título “Moody New Star” (Nova Estrela Temperamental).

“Life” não é um filme sobre a vida - demasiado curta - do talentoso Dean. “Não tem qualquer intenção biográfica, não é um biopic”, explicou Corbijn em entrevista publicada dia 12 na revista E do Expresso. Também não é sobre a vida do talentoso fotógrafo, um homem que vivia obsessivamente o seu trabalho, negligenciando até família. Ao invés, centra-se numa época muito específica da vida de Dean, poucos meses antes da morte deste. “Nesse período, há dois tipos que vão tornar-se amigos. E essa amizade vai ter um efeito nas vidas um do outro”, afirma o realizador, um antigo fotógrafo que se estreou na realização com “Control“ (2007), sobre a vida de outra estrela que desapareceu precocemente: Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division, que se suicidou aos 23 anos.

O filme mostra-nos um Dean diferente daquele que ficou no imaginário de várias gerações: frágil, introspetivo, fechado em si mesmo, por vezes depreciativo do próprio talento. Muitos críticos renderam-se ao desempenho de Robert Pattinson na pele de Stock, finalmente a conseguir descolar-se da imagem de ídolo juvenil que conquistou com a saga “Twilight”, mas o grande papel do filme é o de Dane DeHaan, um nome que vale a pena decorar. Vamos vê-lo, por exemplo, em “A Cure for Welness”, de Gore Verbinksi, e “Valerian”, de Luc Besson, mas, por agora, é como Dean que dá mais um passo sólido na sua afirmação em Hollywood.

A 30 de setembro de 1955, poucas semanas antes da estreia de “Fúria de Viver”, obra prima de Nicholas Ray que lhe definiu a imagem de “rebelde sem causa”, James Dean morreu ao volante de um Porsche. Nascia um mito.