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A Islândia e um velório em Portalegre

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Hugo Mãe, aos 43 anos, já é um veterano deste tipo de encontros, e tem sempre algumas histórias que fazem rir o público

Rui Duarte Silva

A última edição de uma iniciativa literária juntou dois escritores portugueses de gerações diferentes, Teolinda Gersão e Valter Hugo Mãe, ambos ligados ao Brasil

Luís M. Faria

No dia do FC Porto - Benfica, dificilmente seria de esperar que a sala do principal auditório cultural em Portalegre enchesse para ouvir dois autores de literatura séria a interagirem um com o outro. Não estamos a falar, sublinhe-se, de produtores de material comercial como aqueles que às vezes, por equívoco ou distração, recebem a atenção devida aos escritores. Este domingo era mesmo destes que se tratava. Concretamente, de Teolinda Gersão e Valter Hugo Mãe, dois nomes que é impossível reduzir à categoria de fenómenos mediáticos.

Fazia sol numa belíssima tarde de calor como as que a crise felizmente ainda não nos impediu de ter. Apesar dos aliciantes externos, a sala do Centro de Artes do Espectáculo de Portalegre estava composta, sem estar cheia. Segundo o número depois fornecido, eram 187 pessoas - a maioria mulheres, repetindo a proporção dos leitores em Portugal. Esperavam para ouvir os dois participantes no último (não o derradeiro) de uma série de encontros que tem levado a literatura pelo país fora.

Nos últimos meses, o programa “Viagem Literária” começou a visitar capitais de distrito, ao ritmo de uma sessão por mês. As primeiras foram no Norte, as próximas em Évora, Beja e Faro. A deste domingo foi a sexta. São gratuitas, e cada uma consta de uma conversa com escritores moderada pelo jornalista João Paulo Sacadura, seguida de um período de respostas ao público.

A Porto Editora (PE), que as organiza em colaboração com câmaras municipais, diz que é uma forma de “devolver” à sociedade aquilo que esta lhe dá. Outras empresas fazem donativos para instituições diversas, a PE oferece literatura, ou melhor, acesso à literatura, através da aproximação que o contacto com os autores proporciona.

O maior grupo editorial português, geralmente associado aos manuais escolares - os quais representam cerca de metade da sua faturação - assume um sentido de responsabilidade social, que evidentemente não é incompatível com o interesse próprio (até porque todos os autores apresentados são do grupo) mas parece não se esgotar nele. No fundo, é um aspeto de “corporate governance”, uma forma de gestão de imagem na qual, se for bem-feita, todos ganham, incluindo as câmaras, a quem o programa é oferecido. Numa lógica de descentralização, o Porto e Lisboa ficam de fora.

Presume-se que os escritores sejam escolhidos também em função do seu potencial para engajar a audiência. Os dois deste domingo não fugiam à regra. Sendo o mais diferentes que podem ser, dão ambos uma impressão de acessibilidade pessoal que torna fácil ao público relacionar-se com eles.

Hugo Mãe, aos 43 anos, já é um veterano deste tipo de encontros, e tem sempre algumas histórias que fazem rir o público. Por exemplo, sobre a sua relação infantil com as novelas brasileiras, ou a utilização da poesia para o engate, ou uma pretendida que ia recebendo cartas dele com o objectivo de constituir um acervo. Com seis romances publicados (o mais recente, “Desumanização”, passa-se na Islândia), fora os livros de poesia que inicialmente escreveu e todas as outras coisas que faz, incluindo textos de catálogos, é um escritor polivalente em vias de internacionalização.

Voltou há pouco da Colômbia, onde participou em feiras do livro, uma em Bogotá e outra em Medellin - esta a famosa cidade que ainda há poucas décadas todo o mundo associava ao tráfico de droga, mas ultimamente foi objeto de um renascimento urbano, social e cultural. O escritor também fala muito do Brasil, país com que tem uma relação próxima e frequente, e sobre o qual disse no encontro que é mais ser fácil ser feliz lá.

Teolinda Gersão fala num tom sorridente e cordato, que nos recorda aquela professora que algum dia tivemos

Teolinda Gersão fala num tom sorridente e cordato, que nos recorda aquela professora que algum dia tivemos

António Pedro Ferreira

Um morto a ouvir as vozes

Teolinda Gersão, que tem 75 anos e só começou verdadeiramente a publicar aos 41 - o primeiro livro, autoeditado na adolescência, não conta - é uma autora que faz questão de variar o formato dos seus livros; como um desafio, explicou.

No último, “Passagens” - obra que lhe valeu o Prémio Fernando Namora/Estoril Sol, soube-se esta segunda-feira - uma pessoa que acaba de morrer ‘capta’ os pensamentos das pessoas à sua volta. É uma premissa interessante, que deve ter sido responsável por algumas vendas extra na banca com livros à saída do auditório. Gersão fala num tom sorridente e cordato que nos recorda aquela professora que algum dia tivemos. Mas, como boa professora, é rápida a corrigir os erros dos mais novos.

A certa altura, por exemplo, estava-se a discutir as traduções brasileiras e Hugo Mãe deplorou o facto de professores universitários não deixarem os alunos usar traduções brasileiras de textos académicos. Gersão explicou que não existe uma proibição enquanto tal, mas que essas traduções normalmente são más. Noutra altura, Hugo Mãe criticou a atual moda de usar o adjectivo “imenso” a propósito de qualquer coisa (gosto imenso disto ou daquilo) e Gersão lembrou que na sua juventude já era habitual ouvi-lo.

Tendo ambos os escritores familiaridade com o Brasil, é natural que a discussão se tenha ocupado desse país. A propósito da polémica sobre o acordo ortográfico, falou-se de expressões como “parabenizar” e “criado mudo” (mesa de cabeceira, no Brasil). Nem sempre os dois estavam de acordo na opinião que tinham, o que podia ou não ser revelador. Ambos são escritores ambiciosos e sofisticados, e o elemento biográfico vale o que vale.

Para que conste, Hugo Mãe, que desde os nove anos vive em Vila do Conde, mais precisamente nas Caxinas, terra do jogador Fábio Coentrão, é filho de proprietários de um café. Teolinda Gersão é de Coimbra e recebeu aulas de literatura francesa com Andrée Crabbé Rocha, esposa de Miguel Torga, quando era adolescente. Inevitavelmente, houve pessoas na audiência que se lhe dirigiram não para lhe perguntar sobre a sua obra, que admitiram não conhecer, mas sobre Torga. A professora respondeu de forma simpática e concisa.