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O fenómeno Franzen

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“Purity”, o último romance de um escritor que alia reconhecimento crítico e uma popularidade substancial, chegou esta semana a Portugal

Luís M. Faria

Jornalista

Num texto sobre Jonathan Franzen que o Expresso publicou há dois dias, José Mário Silva sintetizou: “Os seus romances são vastos mosaicos sobre os desafios e paradoxos da vida contemporânea, mas partem sempre de elaboradíssimas radiografias da mais nuclear de todas as instituições: a família. É a partir da exaustiva observação de todas as forças que aproximam e afastam as pessoas umas das outras que o escritor constrói as suas ambiciosas narrativas”. Conseguir falar da nossa época a partir daquilo que é mais essencial para cada um de nós parece uma fórmula vencedora (se o autor for bom e tiver sorte, claro). O último romance de Franzen, “Purity”, lançado terça-feira em Portugal, explora questões de identidade pessoal e política ao mesmo tempo que fala de sms e do Facebook, da República Democrática Alemã, da pornografia, do jornalismo de investigação, do narcisismo…

Franzen já é um autor conhecido há bastante tempo. Nascido em 1959, teve o seu primeiro êxito maior com o seu terceiro romance, “As Correções”, em 2001. Vencedor e finalista de vários prémios, esse romance projetou-o na consciência pública, sobretudo depois de uma polémica envolvendo a apresentadora Oprah Winfrey, que, tendo resolvido destacá-lo no seu ‘book club’, viu-se recompensada com o snobismo de Franzen. Quando Oprah decidiu revogar o convite ao escritor para ir ao programa, alegando o manifesto desconforto dele com o facto de ter sido selecionado, garantiu-lhe fama mediática. Já agora, snobismo não será bem o termo para descrever a atitude de Franzen, pois ele sempre teve uma posição consistente em defesa de uma certa ideia clássica da literatura e da vocação literária, como se vê por ensaios que tem escrito ao longo dos anos, em especial o intitulado Perchance to Dream.

A seguir a “Correções”, Franzen publicou outra grande obra, “Liberdade”. Algumas vicissitudes de percurso – entre elas, a necessidade de recolher uma edição prematura do texto que foi publicada, aparentemente por engano, no Reino Unido – não impediram o romance de consolidar a reputação de Franzen como “Grande Romancista Americano” – assim lhe chamou a capa que a revista Time lhe dedica na altura. Essa honra, rara para um escritor, foi acompanhada pela ida, finalmente, ao programa de Oprah, onde Franzen discutiu não apenas o livro como a polémica em torno do anterior.

Com “Purity”, há uma certa mudança de direção. Descrita pelo editor como um épico multigeracional que atravessa décadas e continentes, o livro centra-se numa jovem em busca da verdade sobre a sua história familiar. Ainda José Mário Silva: “Embora não deixe de esmiuçar o caráter e a vida psicológica das personagens, a trama de ‘Purity’ afasta-se da matriz puramente realista dos dois romances anteriores. Há mais ação, um homicídio, teorias conspirativas. É como se o autor fizesse questão de sair da sua zona de conforto, procurando outros caminhos”. Não por acaso, a seguir vem uma citação do próprio Franzen na qual ele diz que cada vez é mais difícil escrever romances, e que “um certo tipo de realismo discreto não consegue gerar energia suficiente” para fazer progredir a narrativa como ele quer.

O corolário disso – a exploração de situações extremas – é um caminho que Franzen está longe de ter sido o primeiro escritor a seguir. Mas trata-se de um risco adequado a alguém que tem conseguido aliar o reconhecimento crítico a uma popularidade substancial, com umas quantas polémicas pelo meio. ‘Nerdy’, culto, íntegro, alegadamente sexista, pode ser ou não o grande romancista americano da atualidade. Sem dúvida, é um romancista incontornável. Os leitores portugueses têm nova oportunidade para perceber porquê.